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A poetisa de nossa aldeia

Poétiquase: lírica instantânea (Editora Letramento, 2015) é o livro de estreia da poeta mineira Bruna Kalil Othero. A autora preza pela forma livre e heterométrica em seus poemas, mas também encontramos sonetos (tanto os tradicionais quanto a variação inglesa com espaçamentos), e alguns versos experimentais com forma alterada, sempre prezando a harmonia e o ritmo das palavras, características que reforçam o teor Moderno do livro (a começar pelo título). Contudo, acredito que o grande mérito da autora foram os temas por ela abordados.

poetiquaseAo não se ater somente à contemplação do amor, Bruna abriu espaço para poemas feministas, poemas urbanos que questionam a existência social (principalmente a participação online) e, o mais importante, versos que tratam do fazer poético-artístico e do valor que as pessoas dão aos poemas. Esse último grupo também deixa claro que o poeta não pode se distanciar totalmente do público e da realidade que o cativa. “Quem me dera se fosse a poesia o ópio do povo”, Bruna suspira em versos imaginando habitantes de um novo Parnaso.

Além dos temas preciosos abordados pela autora, é destaque o ritmo e a harmonia de suas frases – coisa de quem entende o som da língua que embeleza – bem como as referências utilizadas no livro, só para citar algumas, Drummond, Baudelarie, Walt Whitman, Fernando Sabino, Fernando Pessoa, Mário Quintana, Adélia Prado – coisa de quem conhece as raízes do ofício. O livro é dividido em quatro partes e nos próximos parágrafos descrevo os assuntos e alguns poemas que compõem cada grupo.

O primeiro grupo de poemas delineia um sentimento pessimista de destruição planetária e microcósmica, por isso o nome de “fim do mundo”. De fato, a autora traça uma relação entre o definhamento pessoal com a decadência do nosso planeta para exprimir o estigma de os poetas carregarem, como afirmou Drummond, “os sentimentos do mundo”. “Primeira destruição” é um ótimo exemplo dessa relação. “Senta-te ao meu lado para assistirmos o mundo destruir-se./ (…) / Senta-te, sem pressa,/ com as palmas segurando o meu rosto angustiado/ e cicatrizando as feridas do meu corpo que sangra/ tanto. / Senta-te e cura os males do mundo,/ que eles estão todos aqui dentro.”

Dentro desse grupo, Bruna também arregimenta os traços da instantaneidade virtual urbana. Como exemplo, “Vida (In)disponível” é um poema egocêntrico construído com termos de redes sociais e, logo, carece de multidões. “Olha como a minha vida é legal/ interessante/ instantânea/ e principalmente/ não é mais/ minha”. Nesse trecho, a gradação da felicidade e logo a queda ao domínio alheio, criam um efeito de antagonismo intensificado pela precisão dos fatos. Aplausos.

O poema seguinte, “Hodi(T)erno”, pode ser um complemento ao anterior, pois denuncia o estarrecedor mundo real: “na rua suja/ pelo homem e sua podridão/ pelos passos apressados/ engomados/ atrasados/ pra empregos que não gostam/ pra comprar o que não precisam/ pra matar tempos que não têm/ atrasados enfim/ para a tão hodierna/ modernidade.” Ao final do grupo, com o poema “Mundo doente”, a autora lança o questionamento que nos paralisa: “Quedê aquele mundo/ onde todos são livres/ para fazerem o que amam/ para amarem quem amam/ para amarem onde quiserem amar?”. Esses três poemas poderiam originar um filme do David Fincher ou Nolan.

O segundo grupo chama-se “exilada no chão perdida feroz” e carrega versos intimistas, de exaltação ao feminino e voltados ao ofício de escrever. Destaque para “Vênus”, um harmônico poema em que a autora narra o “nascimento da consciência do ser Mulher” ao qual é impossível não lembrar da Vênus de Botticelli. Dois poemas complementam-se para evidenciar o fazer poético. Em “As Únicas Coisas Que Eu Mudo São As Páginas”, Bruna trata da solidão, a eterna companheira dos poetas. “Todos estão indo atrás do que querem./ Em partes, eu também./ Só que há uma pequena diferença entre eles e eu:/ eles estão acompanhados/ e eu estou só.”

E mesmo que o poeta elabore com a solidão seus melhores versos, Bruna nos indaga em “A Poesia Incomunicável” quem o leria, visto a decadência do mundo? “De que adianta, se pergunta a poeta,/ cantar, se lá fora enforcam/ as alheias cordas vocais? A poesia/ está muda./ Não consegue comunicar-se com seu povo.” A imagem é profunda – a poesia emudeceu. Aqui está o desafio do poeta atual: desmudecer tanto a poesia, quanto o seu público.

O terceiro grupo foi reunido com o nome de “caos que me assossega” e carrega diversos poemas experimentais com formas alteradas. É o grupo mais variado do livro, com uma amplitude de temas que vão do vazio poético, luto, amor ao cientificismo. Destaque para “A peça que nunca sai de cartaz”, com referência ao capítulo O Velho Diálogo de Adão e Eva, do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Bruna utiliza nesses versos o diálogo indireto de pontuações entre Virgília e Brás Cubas como ponto de partida para o que o corpo não diz, mas faz. “Organismos/ na busca incansável pelo oásis orgásmico/ a gentileza rude/ dos dois das duas/ cúmplices, rítmicos, animais:/ sexo, na mais pura humanidade intrínseca.”

O último grupo recebe o nome de “tesão que alfabeta” e agrupa versos dedicados ao fazer poético. “Ver-se já” é quem primeiro nos informa sobre como nasce a poesia: “Mas o necessário à poesia é, acima de tudo, a paixão./ Paixão pelo versejar, aquele êxtase/ que leva o organismo ao orgasmo das palavras:/ a tesão que alfabeta./ Um poema emerge das entranhas do poeta.” Seguindo esse raciocínio, os poemas que nascem dentro dos artista também os nutrem como a palha ao fogareiro, é o que ela revela em “A Poesia Desse Instante”. “A poesia amante do meu instante/ me ama me engole me chama/ inflama a minha chama/ e declama. E derrama. Mariana.”

E o que o poeta descobre ao dar cabo de seu ofício? Bruna nos responde em “Descoberta”. “Escrever é desnudar-se./ A cada palavra,/ cai/ uma peça minha de roupa./ (…)/ No meio desse palco,/ fico nua. Pelada. Verdadeira./ Escrever é descobrir-se.” Ao revelar-se o artista, também desnuda-se a arte. “a artista é a antena poundiana/ da raça da praça arregaça/ as mangas da camisa e brada:/ EIS AÍ A AR-/ TE/ !” São os versos de “Catarse da sobrevivência”.

Com a arte nas mãos da poetisa, ela recolhe-se ao mundo e, com clímax apoteótico, retorna às primícias da decadência popular imaginando os versos tão acessíveis quanto drogas lícitas. “Quem me dera se fosse a poesia o ópio do povo/ Imagina só/ Estádios lotados/ De corações partidos/ De revolucionários estéticos/ De cantoras da arte cigarras mulheres/ Daquele tão moderno lirismo-libertação/ Mas nada disso é: que droga./ – Quem me dera se a poesia fosse.” A elipse final carrega certo sabor de otimismo aos versos de “Ai Que Droga”.

Poemas para serem lidos de olhos abertos, “Poétiquase” utiliza o eu-lírico como um farol para o eu-social preocupado com as transformações do planeta, a igualdade de gêneros, e a inserção do poeta na busca do desmudamento de seu público e dele mesmo. Em alguns momentos o tom pode parecer pessimista, mas o crédito da autora é justamente esse: nos inquietar, nos alarmar. Mas do que função social da poesia, o que encontramos é a legítima função do poeta como trovador dos sentimentos de uma comunidade, seja ela sua cidade ou seu mundo – esta aldeia moderna.

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Publicado por José Fontenele

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