Literatura

“Vida Após a Morte” é um soco no estômago do começo ao fim

Você já pensou em visitar uma prisão? Saber como é por dentro e olhar os prisioneiros. Não? Sim? E que tal a curiosidade de passar algumas noites por lá? Nunca? Jamais? E se te acusassem de um crime que você sabe que não cometeu, e que, por conta disso, você fosse obrigado a passar o resto dos seus dias em uma cela, encarando a iminência da morte? Inconcebível? Pois foi isso o que aconteceu a Damien Echols.

“Vida Após a Morte” é um daqueles livros que você sabe como termina, mas ainda assim fica apreensivo.

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Aos 20 anos, Damien Echols e mais dois amigos foram acusados do assassinato de três meninos de 8 anos em Memphis, Tennesse. Echols foi apontado como o mentor do crime e encaminhado direto para o corredor da morte, onde permaneceu por 18 anos. A cidade estava polvorosa com o caso e pouca atenção se deu a como os meninos estavam sendo tratados, pois na verdade, eles eram inocentes. Todo o julgamento foi muito corrido, evidências foram ignoradas, advogados de defesa completamente negligentes e sem mais instruções ou cuidado, os três passariam parte de suas vidas atrás das grades.
Desde o início, Damien narra o quão sofrida e difícil era ser uma criança pobre e moradora de trailers no caloroso estado do Tennesse. Seus pais se divorciariam muito cedo, e ele e sua irmã, foram morar com a mãe e Jack Echols (de quem Damien usa o sobrenome, pois foi adotado) um homem horrível que o humilhava sempre e responsável pelas maiores provações que ele passou quando criança. Damien procurava se agarrar a qualquer coisa que lhe desse esperança de uma vida melhor e enxergou isso na Religião e na Música. Seus pais frequentavam uma igreja protestante (muito mais comum no Sul dos EUA que o Catolicismo), mas Damien não suportava os gritos e tumultos dos cultos, indo preferir a Igreja Católica quando novo (e mais tarde sendo acusado pela mesma de satanismo). Na Música, ele encontrou o conforto que precisava e não conseguia dormir sem um rádio de pilha. Seu estilo de música favorito era o heavy metal ou rock e logo se vestia como tal, de preto dos pés a cabeça e cabelos longos, o que acabou por destaca-lo dos demais jovens da região e, futuramente, colocar a Polícia em seu encalço.
Ao ser preso, Damien passou a escrever muitas cartas com medo de que fosse ser morto a qualquer momento e que ninguém mais se lembrasse dele. É através delas que nós, leitores, temos conhecimento dos seus anos na prisão e em como isso o afetou. Damien mistura poesia com lembranças e une tudo isso aos mais bizarros acontecimentos nos anos em que esteve preso. Histórias essas que vão desde a implicância e brutalidade sem fim dos guardas, as muitas inspeções na cela, ratazanas treinadas, lâmpadas como fogareiro e os muitos tipos de condenados com os quais ele conviveu e, também como ele conseguiu sobreviver a 18 anos encarcerado sem perder a sanidade.
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Não é um livro fácil. Digo isso pois é praticamente impossível não se sensibilizar com a história. Há momentos em que é complicado passar a página, pois mesmo conhecendo o final, a tristeza em saber que tudo aquilo de fato aconteceu a um ser humano, incomoda e muito. Echols põe em dúvida todo o sistema carcerário dos Estados Unidos, e, por que não, do mundo. Questiona muitas vezes os métodos usados para correção dos presos e que o tempo todo eles são lembrados que não são seres humanos, pois suas identidades, seus nomes, passam a ser os números e letras presos as suas roupas. É então que ele se agarra as pequenas coisas, como a mudança de estação, pois ele é apaixonado pelo Inverno, as cigarras cantando na sua janela, todas as mensagens positivas que ele recebeu e em saber a verdade: ser inocente. Ele poderia ter se rendido a raiva, culpar a todos e se tornar de verdade um assassino, pois na selva de pedra em que estava, muitas vezes não se tem outra escolha. Mas não. Ele optou por ser fiel a si mesmo e correr atrás dessa justiça que lhe foi negada tão veementemente anos atrás.
6a00d8341c630a53ef016760e0f11c970b-600wi Graças a um documentário da HBO na década de 90 foi que a história se tornou nacional, alcançando pessoas ilustres como Johnny Deep e Peter Jackson, que se empenharam bastante, usando dinheiro do próprio bolso, para pagar novos testes e obrigar a Polícia e advogados a investigarem mais o caso. Com isso, um fundo foi criado para angariar donativos e ajudar aos meninos enquanto ainda estavam presos, facilitando um pouco a vida. Foi na prisão que Damien conheceu sua esposa Lorri, a grande responsável por tê-lo tirado da prisão. Foi ela quem correu atrás de quem fosse necessário, dia e noite, para ajuda-lo enquanto o a data da execução se aproximava mais a cada dia.

Hoje em dia, Damien está curtindo sua liberdade e aproveitando ao máximo. Peter Jackson e ele foram a Sundance Festival ano passado, onde lançaram o filme “West of Memphis”.
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Apesar disso, Damien não mais quer se associar ao West Memphis 3, que foi como ele, Jason e Jessie ficaram conhecidos. A justiça está sendo feita e os reais culpados já foram encontrados. Infelizmente, o tempo perdido não poderá ser devolvido a nenhum deles. A experiência ficará para sempre.

*Este livro foi uma cortesia da Editora Intrínseca

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