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Bryan Behr lança colaboração com Calum Scott e conversa com a Ambrosia

O músico catarinense Bryan Behr acaba de lançar o single e o clipe da música Da Primeira Vez (From The First Time). A faixa foi gravada em colaboração com Calum Scott, o fenômeno britânico que hoje acumula quase 8 bilhões de streams globais e já fez parceria com Ivete Sangalo, quando se apresentou com a musa do axé na cerimônia de encerramento das Paraolimpíadas do Rio de Janeiro em 2016.

A nova faixa encerra o EP de Bryan, “Capítulo 2”, que também chega aos aplicativos de música. Em conversa via Zoom, mediada pela gravadora Universal Music, Bryan contou à Revista Ambrosia sobre seu trabalho e processo de criação.

Revista Ambrosia – Você gravou com o Calum Scott, que é vencedor do Britain’s Got Talent, e você ficou bastante realizado com essa colaboração. Você é um fã desse tipo de programa?

Bryan Behr – Na época eu trabalhava em uma loja de instrumentos musicais então eu ficava vendendo violão o dia inteiro ouvindo coisas novas no YouTube, pois eu colocava vídeos desses programas. Eu lembro que eu estava limpando a loja, ou fazendo coisa do tipo, e aí veio a voz do Calum cantando Sia, se não me engano. Na hora eu parei e pensei: “meu Deus do céu, o que é isso?”

Foi a primeira vez que eu o vi. Foi um baque. Eu pensei, “que voz incrível!”. Desde então passei a acompanhá-lo. Eu gosto desses programas porque não é um show, é um espetáculo, sempre tem coisa muito nova. Em alguns casos eu penso “nossa, não acredito que esse cara vai cantar isso!”. Aquela pessoa que chega e você não acredita que ela cante bem, daí você descobre que ela tem um vozeirão. E eu descobri o Calum lá, justamente por trabalhar nessa loja, esse tempo vago que eu tinha, quando eu tinha que cuidar da limpeza, ou não chegava ninguém para eu atender, eu ficava conhecendo artistas novos na internet.

Ambrosia – E como foi esperar esse tempo todo para fazer shows? Felizmente agora já estão voltando, mas como você lidou com esse tempo todo sem poder subir no palco?

Bryan – Eu acho que a ansiedade de estar em cima de um palco, a saudade para mim é ainda maior porque eu já vinha de um período sem tocar. Eu estava na produção do disco “A Vida é Boa”, daí a gente estava muito focado no estúdio e tudo mais. Quando a gente foi começar a sair para fazer os primeiros shows, veio o período de isolamento. O “A Vida é Boa: Capítulo 1” e o “Capítulo 2” não tiveram nem um showzinho até hoje.

Eu gosto de dizer que existe uma coisa dentro da gente como se fosse um buraco, sabe? E aí a gente preenche esse buraco com alguma coisa. Tem gente que preenche com os filhos, tem gente que preenche com trabalho, com relacionamento, religião, sei lá. Eu preencho há muito tempo esse buraco no peito com música. E nesse pacote artístico vinha muito a coisa de estar em cima do palco tocando. E eu não tinha mais isso.

Então eu procurei no período de isolamento algo que fizesse colocar para fora essa coisa que eu sentia tão forte dentro de mim. Aí comecei a pintar com mais frequência. Então se eu não tivesse voltado a pintar eu sei que estaria muito mal da cabeça. Eu falo por mim, eu sempre precisei muito expressar as coisas que eu sentia e sinto ainda. E quando a gente não tem palco, que é como um banho de cachoeira para essas coisas, esses sentimentos assim…

Com isso eu precisei de algum escape para colocar para fora essa coisa. E o que encontrei foi a pintura, que me ajudou muito, eu fiquei muito feliz pintando. Passava às vezes o dia inteiro pintando e escrevendo e virou meio que cíclica a coisa. Porque eu escrevia uma música e dava vontade de pintar. Daí eu pintava, dava vontade de escrever. Isso me fez muito bem e me salvou várias vezes.

Ambrosia – Em “Da Primeira Vez”, você vai lá no seu baú sentimental. O que você acha de recorrer às suas experiências do passado? Você acha que funciona também como terapia para algumas coisas que ficaram meio mal resolvidas e trabalhar uma música seria uma forma de dissipar?

Bryan – “Da Primeira Vez” tem uma história muito boa. Eu lembro que foi uma das únicas músicas da minha vida que eu escrevi sem violão. Eu estava dirigindo, ela veio. Tanto que devo ter até hoje, eu fazendo a letra dela inteirinha assim. Só faltava a parte C, a ponte no final. Escrevi toda sem violão e quando eu cheguei no estúdio eu não tinha a harmonia dela. Tinha só meu áudio cantando. E na época foi um relacionamento que eu vivi. E eu terminei de escrever depois, quando eu já não estava mais nesse relacionamento.

E foi muito difícil. Eu escrevo com muita facilidade. Eu escrevo letra, principalmente, com muita facilidade. E eu estava empacado naquela música, e quando eu empaco com uma música, eu sei que eu ainda preciso viver alguma coisa para acontecer, porque não é para ser. “Cara, não é para eu escrever isso aqui. Eu preciso viver alguma coisa ainda”.

Então eu precisava ter isso muito firme na minha cabeça, do tipo “ué, cara, eu vivi isso aqui, isso aqui passou”. E eu tenho muito orgulho do que eu vivi com essa pessoa, mas agora eu preciso desapegar, eu preciso fechar esse ciclo. E quando isso caiu na minha cabeça, a letra veio de uma vez só.

Então eu acredito muito nisso, é preciso viver algumas coisas para poder escrever e é o meu indicador de vida, eu quero estar em lugares que me inspirem a escrever. Eu quero estar do lado de pessoas que me inspirem a escrever, e eu quero estar me colocando e situações que e inspirem a escrever. É um show, é beijar a boca de alguém, é encher a cara em algum lugar. Qualquer coisa que seja.

Eu quero todo dia ter uma coisa sobre a qual falar. Todo dia eu chegue em um hotel aqui e ter uma coisa muito do caralho para dizer, e possa escrever uma música sobre isso. Então acho que isso me guia, me dá uma baliza para sempre seguir a vida de uma jeito muito legal, sabe?

Ambrosia – Você tem esse EP, o Capítulo 2, e eu gostaria de perguntar para você: o álbum, aquele álbum de 12 faixas, que tem que ser lançado em streaming, claro, mas também poderia sair em CD e vinil? Podemos esperar por ele?

Bryan – Eu acho que tudo pode acontecer, eu acho que é super possível na verdade. A gente fala muito, a ideia de transformar esse álbum, dividi-lo em capítulos, né, era justamente essa, contar histórias. Então quando eu fiz essa músicas, tinha muito o que dizer, tem histórias bonitas por trás também. Além de querer lançar esses produtos também, [formatos] físicos, que é uma coisa que eu particularmente sou apaixonado. Eu amo pegar, peguei um livro na mão (ele pega um livro que está próximo). Eu amo isso com música também. Amo o vinil, sentir o cheiro do vinil, abrir o CD.

Então eu sou sempre muito a favor de fazer, e sei que é uma coisa que as pessoas estão voltando a se interessar, a gostar da coisa de ter o físico, de ter na mão, de tocar na música. E eu aprendi com um amigo, ele falou uma coisa que é muito legal: “cara, às vezes você diz que é músico, mas cadê o seu CD?”. Porque para muitas você só vai ser artista se você tiver um CD. “Ah, mas eu sou escritor, não mas o livro está aqui”. A gente tem isso de tocar nas coisas e eu acho isso muito legal.

Mas respondendo à sua perguntas, além de fazer esses [discos] físicos que  e eu quero muito que aconteça, a gente quer muito publicar um livro que conte a história de todas as faixas de forma muito pessoal, para as pessoas saberem para quem eu escrevi da primeira vez, sabe? “Mensageiro”, do “Capítulo 2”, que escrevi com a Júlia [Mestre]. Quem é o mensageiro? O que a gente quis dizer na música?

Eu acho muito fantástico quando as pessoas interpretam a música por conta própria, e eu acho muito legal porque isso cria um peso na pessoa, no melhor sentido da palavra, que é muito legal. Mas eu também gosto de saber a versão do compositor, quem é a pessoa que mora na Rua das Laranjeiras do Nando Reis? E quando você descobre quem é fica tudo tão fantástico, você compra a música de um jeito muito especial. Então eu quero muito que aconteça, tomara que role porque eu sou muito fã do físico.

Ambrosia – E para encerrar, como você vê a cena musical catarinense hoje?

Bryan – Cara, eu tenho muitos amigos produtores de estúdio em Santa Catarina e eu fico muito feliz que cada vez mais eu vejo apostarem no sul, na coisa de “eu vou escrever minhas próprias músicas, e vou gravar e vou lançar, vamos ver o que acontece”. Antigamente a gente não via isso. A gente tinha muitas bandas e artistas que estavam lá, que tinham uma carreira há muito tempo, mas tocavam ali no final de semana, não acreditavam mesmo na coisa. “Cara, será que dá para fazer acontecer?”. E hoje eu vejo que isso mudou muito, tem muitos artistas incríveis pelo sul que eu descubro e falo “cara, onde é que você estava escondido?”.

Eu comecei a enxergar isso a partir da minha cidade. Davi Carturani do Pistache Studios, que é um dos meus melhores amigos, foi com quem eu gravei meu primeiro trabalho, “Da Cor do Girassol”, que tem 5 faixas. Era um estúdio pequenininho, que ele tinha na época. E dali surgiu uma amizade muito bonita, a gente é muito amigo até hoje.

E é engraçado que eu o vejo publicar as coisas agora que ele está produzindo lá no Brusque, e tem muito artista agora lá. E eu acho isso muito incrível. Eu vejo os artistas acreditando na coisa e tal.

Eu acho que daqui a pouco tempo, talvez um ano e meio ou dois a gente vai se surpreender com a leva de artistas muito talentosos de lá.

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