Do cinema à literatura, da dança às artes visuais, o grupo transforma referências de diferentes linguagens em parte de sua própria narrativa
Quinze anos. Esse é o período em que Oh Dae-su permanece confinado em uma prisão particular em Oldboy, filme sul-coreano de 2003 dirigido por Park Chan-wook. Quando recupera a liberdade, uma das cenas mais famosas mostra o personagem enfrentando vários adversários em um corredor estreito. Esse plano lateral contínuo transformou a sequência em uma das imagens mais marcantes do cinema sul-coreano.
Em 2026, essa referência reaparece em 2.0, do álbum ARIRANG. O videoclipe incorpora elementos da cena de Oldboy à narrativa do BTS, transformando uma imagem conhecida do cinema em parte de outra obra. Para quem conhece o filme, a associação é imediata. Para quem conhece o BTS, também. Traçar esse paralelo do filme com o retorno do grupo, após o longo afastamento, para um mundo completamente diferente foi, sem dúvidas, uma jogada de mestre.
A relação com o cinema pode aparecer mesmo quando não existe nenhuma imagem. Hooligan, outra faixa de ARIRANG, utiliza na sua introdução um trecho de Yang Tse-Kiang, composição de Michel Magne para Un Singe en Hiver, filme francês de 1962 estrelado por Jean Gabin e Jean-Paul Belmondo. O material orquestral foi manipulado pelos produtores e incorporado à faixa, que combina essa atmosfera cinematográfica com hip-hop, trap e vocais mais agressivos.
A referência muda de função ao entrar em outra obra. O que originalmente fazia parte da trilha de um filme passa a integrar uma música do BTS e ganha um novo contexto. É um exemplo de como o grupo incorpora repertórios de outras linguagens à própria criação, não apenas como inspiração visual, mas também como matéria para a música, a performance e a narrativa.
Esse diálogo com outras expressões artísticas é anterior a 2.0 e Hooligan, e atravessa diferentes fases da trajetória do BTS. Literatura, cinema, artes visuais e dança aparecem de maneiras variadas, ora como referência pontual, ora como parte da construção conceitual de um álbum. Em Wings, por exemplo, um romance de Hermann Hesse deixa de ser apenas uma obra literária admirada pelos integrantes e passa a participar da construção de uma das eras mais marcantes do grupo.
Uma pintura, um livro e uma música no mesmo lugar
Demian, de Hesse, é uma narrativa sobre desejo, tentação, amadurecimento e conflito. Publicado em 1919, o livro acompanha Emil Sinclair em sua passagem da infância para a vida adulta e em sua tentativa de compreender os diferentes mundos que existem dentro e fora de si. Wings, álbum lançado pelo BTS em 2016, traz Blood Sweat & Tears como faixa principal. É quando os mundos da literatura, música, dança e das artes visuais colidem no universo do BTS.
No vídeo, os sete integrantes parecem circular por um museu que não é apenas cenário. Pinturas e esculturas aparecem em destaque; as imagens dialogam com a narrativa da música. Em uma das cenas mais marcantes, os próprios artistas parecem estar dentro de uma pintura, como se a fronteira entre a obra e quem a observa deixasse de existir.








A escolha visual ajuda a entender por que aquele trabalho se tornou uma das referências mais emblemáticas da capacidade do grupo de transformar repertórios artísticos em parte de sua própria linguagem. Para Kelly Silva, formada em design de interiores, foi justamente essa combinação que tornou o videoclipe diferente de tudo que havia visto até então.
“Eu achei muito diferente do que tinha visto até então, porque parecia ter um significado especial”, conta. Ao perceber, por meio de comentários de outras fãs, que havia referências literárias e artísticas por trás das imagens, Kelly começou a pesquisar e acabou levando essa curiosidade para além do BTS. “Acompanhar o BTS me influenciou a começar a ir em museus, por exemplo, e percebi que é uma atividade que me agrada muito fazer”, afirma.
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A experiência ajuda a explicar um dos efeitos mais interessantes desse diálogo entre linguagens: a obra pode ampliar o repertório de quem a acompanha. Giselle, um das administradoras do perfil Portal My Hope, no X, identifica esse movimento a partir de sua própria trajetória no fandom. ARMY desde 2022, passou a revisitar trabalhos anteriores e percebeu que as referências se conectavam umas às outras. “Uma música podia levar a um livro, um videoclipe podia trazer referências artísticas e uma performance podia carregar elementos da dança, da cultura e da própria história dos integrantes”, diz.
Essa circulação também acontece quando obras literárias deixam de ser uma referência visual e entram diretamente na construção de uma música. E elas aparecem de maneiras diferentes. Às vezes como eixo conceitual de uma era, às vezes como uma referência escondida em uma imagem ou transformada em metáfora dentro da letra. Podem, portanto, ser reconhecidas por quem já conhece a obra original; mas estão reorganizadas para criar novos sentidos dentro das músicas e das narrativas do BTS.
A canção Butterfly (The Most Beautiful Moment in Life: Young Forever) dialoga com Kafka à Beira-Mar, livro de Haruki Murakami, inclusive com uma referência direta ao romance na letra. Em Spring Day (You Never Walk Alone), o nome “Omelas” aparece no videoclipe como uma pista para o conto Os que se Afastam de Omelas, de Ursula K. Le Guin, que apresenta uma cidade aparentemente perfeita sustentada pelo sofrimento de uma criança. Outro exemplo é Serendipity, que recupera a imagem da flor presente no poema “Flower”, do sul-coreano Kim Chun-soo.



Há ainda referências que entram diretamente na construção da relação com o público. Pied Piper (Love Yourself: Her) recupera o Flautista de Hamelin, figura do folclore europeu que conduz crianças para longe de suas casas, para construir uma provocação dirigida ao próprio ARMY: o BTS assume o papel de quem sabe que sua música pode capturar a atenção dos fãs e brincar com essa atração. E em Magic Shop (Love Yourself: Tear) a referência vem do livro Into the Magic Shop, de James R. Doty.
A variedade mostra que não existe um único modelo para essa conversa: o BTS pode partir de um romance, de um conto filosófico ou de um poema e transformar cada obra em outra coisa dentro de sua própria linguagem. Mas o caminho da literatura não termina nas obras que o BTS cita. Ao longo da trajetória, o grupo também criou narrativas próprias que passaram a ocupar diferentes formatos. É o caso do Bangtan Universe, que se desenvolveu a partir de The Most Beautiful Moment in Life e ocupou videoclipes, livros, jogos, webtoon e outras produções.
A história que o BTS espalhou por outros formatos
O movimento seguinte é ainda mais ambicioso: em vez de apenas incorporar referências literárias, o BTS passou a construir uma narrativa própria que também ultrapassa os limites de uma única obra. O Bangtan Universe, conhecido como BU, começou a ganhar forma na era HYYH, sigla de The Most Beautiful Moment in Life, em coreano 화양연화 (Hwa Yang Yeon Hwa), e se expandiu por videoclipes, textos canônicos, webtoon, jogos e outras produções.
A história acompanha personagens e acontecimentos que se conectam ao longo de diferentes formatos. O que aparece em um videoclipe pode ganhar contexto em outro material; uma relação entre personagens pode ser aprofundada em um texto; acontecimentos anteriores podem alterar a compreensão de uma cena já conhecida. Para acompanhar o universo, o público precisa juntar essas partes e perceber que elas fazem parte de uma mesma narrativa.
O espectador pode conhecer os personagens pelos videoclipes e, a partir deles, procurar The Notes, o webtoon Save me ou outras produções que ampliam a história. Em 2024, esse universo chegou também à dramaturgia com Begins≠Youth, série sul-coreana baseada na narrativa construída pelo BTS desde HYYH.



A produção acompanha sete jovens diante de conflitos pessoais e familiares e preserva elementos das histórias desenvolvidas anteriormente no BU, embora os personagens recebam nomes próprios, diferentes dos integrantes do BTS. Com isso, uma mesma narrativa passa a circular por música, videoclipe, texto, webtoon e drama televisivo.
Essa construção também modifica o papel de quem acompanha o grupo. Já não basta assistir a um videoclipe e seguir para a próxima música: é preciso observar detalhes, procurar conexões e, muitas vezes, voltar a uma obra depois de descobrir outra. O público assume uma posição mais próxima à de leitor, reconstruindo relações entre diferentes partes da história.
É justamente essa possibilidade de continuar descobrindo que faz do BU uma peça importante da trajetória artística do BTS. Depois de atravessar referências que vinham da literatura, do cinema e das artes visuais, o grupo criou um território narrativo próprio no qual diferentes linguagens passaram a se encontrar.
O que sete artistas levam para dentro do mesmo grupo
A música 134340 (Love Yourself: Tear) talvez seja um dos exemplos mais curiosos de como o BTS transforma uma referência externa em matéria poética. O título é o número de catalogação de Plutão depois de sua reclassificação como planeta anão. A música não pretende discutir astronomia: usa a mudança de status do astro como licença poética para falar de alguém que deixou de ocupar o lugar que tinha na vida de outra pessoa.
A imagem do universo volta a aparecer em Mikrokosmos (Map of the Soul: Persona), mas por outro caminho. Em vez de usar um objeto celeste como metáfora para uma relação, o BTS aproxima o indivíduo da dimensão do cosmos e transforma cada pessoa, com sua história e sua singularidade, em parte de algo maior. A ideia conversa diretamente com o próprio título da música: um pequeno universo contido em cada ser humano.
Mas RM leva esse jogo com a linguagem para outro nível em Trivia 承: Love, faixa solo incluída em Love Yourself: Answer (2018). A música aproxima saram (사람), “pessoa”, de sarang (사랑), “amor”, palavras semelhantes na pronúncia e na grafia em coreano. A diferença também está na forma escrita: saram termina em ㅁ, uma consoante de desenho fechado e quadrado, enquanto sarang termina em ㅇ, arredondada. A transformação das “arestas” em uma forma circular sustenta a metáfora de como o amor pode modificar uma pessoa.
Essa liberdade para buscar matéria artística fora da música também aparece no repertório trazido pelos integrantes. A dança está na formação de j-hope e Jimin, mas assume sentidos diferentes em cada trajetória: em Hope on the Street, j-hope retorna à cultura de rua que marcou sua formação; Jimin leva para o palco a experiência construída na dança contemporânea e clássica. SUGA aproxima o hip-hop de elementos da tradição musical coreana em Daechwita, enquanto Jung Kook transforma experiências cotidianas em linguagem audiovisual em G.C.F..
Já V desenvolve uma expressão fortemente ligada à fotografia e à composição de imagens e moda. E a formação de Jin em cinema e teatro ajuda a explicar sua relação com a atuação e a construção narrativa. São caminhos diferentes, mas há um ponto de encontro: cada integrante chega ao BTS carregando referências que ultrapassam a música e que podem reaparecer no modo como o grupo cria imagens, performances e histórias. A identidade dos sete também se constrói a partir desse repertório acumulado.
Talvez o mais interessante do BTS esteja além do próprio BTS
Essa multiplicidade também aparece na experiência de quem acompanha o BTS. Para Giselle, uma referência pode conduzir a outra; Kelly passou a observar outras manifestações artísticas com mais atenção; e Fabiana Novaes, 37 anos, profissional da área de gestão de pessoas, mudou a própria maneira de ouvir música. “Antes eu realmente não enxergava profundidade nas coisas e ouvia apenas porque gostava de como soava”, afirma. Depois do BTS, passou a traduzir canções, pesquisar contextos e procurar os significados por trás das obras.
Kelly resume essa mudança ao falar do efeito das referências sobre seu olhar. “Pra algumas pessoas a música pode ser só uma música, o vídeo só mais um audiovisual, mas quando a gente entende todas as referências artísticas na parte musical, os nossos olhos podem se abrir pra ver e acompanhar outros tipos de expressões humanas como a arte de pinturas, esculturas, livros, moda”, afirma. Spring Day (You Never Walk Alone), uma das canções mais emblemáticas do BTS, também se tornou importante nesse processo de descoberta.
A música é um dos maiores exemplos de canção narrativa do repertório do BTS: a letra trabalha emoções como ausência, saudade, espera e reencontro, enquanto o videoclipe dialoga com referências literárias e cinematográficas. Para Fabiana, Spring Day foi uma das portas de entrada para pesquisar interpretações e contextos. Giselle também voltou diversas vezes ao videoclipe à medida que conhecia novas leituras compartilhadas por outras ARMYs.
Durante uma viagem à Coreia, Giselle visitou locais relacionados à música e teve a oportunidade de ouvir os integrantes cantarem ao vivo em um dos shows da era solo de j-hope. “Foi um daqueles momentos que ficam guardados para sempre. Até hoje, quando lembro daquela experiência, me emociono e choro”, conta. A canção, que já representava para ela ausência, saudade, esperança e reencontro, passou a incorporar também uma memória pessoal
Criado por Pedro Castro e duas amigas durante a pandemia, o clube surgiu para reunir ARMYs em torno da leitura e da troca de ideias sobre livros lidos ou indicados pelos integrantes. Com o tempo, a experiência mostrou aos administradores que o interesse por essas obras levava o fandom a outros campos culturais.
“Aos poucos, recebendo o army no clube, percebemos que esse movimento de buscar estar em contato com esses livros só mostrava que ser fã vai muito além do stream e abre portas para que outras mídias sejam consumidas e compartilhadas”, conta o administrador, em entrevista realizada por DM pelo WhatsApp.
Demian, de Hermann Hesse, está entre os livros que o clube discute. A obra, que já ocupa um lugar central na construção conceitual de Wings, ganhou também uma vida própria entre as leituras das ARMYs. “As referências encontradas em MVs e teasers transformaram completamente não só a relação do fandom com o livro, mas também engrandeceram nossas interpretações e debates em cima do título, que relemos anualmente no clube”, afirma.
O Namjoon Book Club7 é um exemplo de como uma referência do BTS pode ganhar vida própria entre as ARMYs. Mas a literatura é apenas uma das frentes exploradas pelo fandom. Há perfis que se dedicam a identificar referências cinematográficas nos videoclipes, reconstruir as conexões do Bangtan Universe, pesquisar o significado de flores e símbolos recorrentes nas obras do grupo e reunir informações que ajudam outras pessoas a compreender melhor músicas, vídeos e conceitos.
Perfis que discutem teorias escondidas em vídeos, músicas e livros
Armys tradutoras, a postos 24/7, normalmente do coreano para o inglês, sempre que uma live é iniciada
Também há espaço para falar sobre cinema, gastronomia e projetos sociais, tudo relacionado ao BTS
Reunidos, esses perfis mostram como o trabalho do BTS continua sendo investigado depois de lançado. Cada conta parte de um aspecto diferente da obra e cria uma nova porta de entrada para quem quer conhecê-la melhor. O repertório construído pelo grupo, assim, não fica restrito às músicas e aos videoclipes: circula entre livros, filmes, artes visuais, narrativas e outros campos culturais por meio do próprio público.
Ao longo da sua trajetória de 13 anos, o BTS deixou de atravessar apenas gêneros musicais. Cinema, literatura, psicologia, dança, artes visuais, fotografia e narrativa passaram a fazer parte do repertório com que o grupo constrói sua identidade artística. E, ao chegar ao público, essas referências continuam seu percurso, levando fãs a outros livros, outros filmes, outros espaços e outras formas de olhar.
Nesta etapa da jornada, a fronteira já não está entre um gênero e outro nem entre uma arte e outra. Depois de construir durante anos uma identidade profundamente coletiva, os sete integrantes passaram a explorar territórios individuais. O próximo capítulo parte justamente daí: o que acontece quando cada um deixa o espaço compartilhado para descobrir sua própria linguagem — e o que esses caminhos revelam sobre o BTS quando eles voltam a se encontrar?












