Quando RM, Jin, SUGA, j-hope, Jimin, V e Jung Kook subirem ao palco do Estadio Nacional de Santiago, em outubro, o público chileno terá uma atração antes do BTS. A DJ e produtora Kata Schwarz será a primeira artista de abertura anunciada para a ARIRANG World Tour e fará os três shows previstos no Chile, nos dias 14, 16 e 17 de outubro. A escolha apresenta ao público de uma das maiores turnês pop do mundo uma artista que construiu sua trajetória em outro circuito: o da música eletrônica independente.
Katalina Schwarz, nome completo da artista, desenvolveu seu trabalho ao longo de quase uma década entre clubes, festivais e projetos independentes. Sua formação musical passou por referências como Madonna e The Beatles, mas foi o contato com cidades como Londres e Berlim que aproximou seu trabalho da cultura de clubes e do techno. A partir daí, sua pesquisa sonora passou a circular por territórios como deep techno, dub techno e electro, com sets construídos a partir de atmosferas, progressão rítmica e diferentes níveis de intensidade.
O percurso ganhou projeção internacional em 2025, quando Schwarz participou da edição da Boiler Room em Santiago, realizada em parceria com a DAME. A apresentação foi registrada e disponibilizada pela própria plataforma, colocando seu trabalho em contato com uma audiência global da música eletrônica. No circuito internacional, seu nome também aparece em eventos como o WHOLE Festival, em Ferropolis, na Alemanha, e em apresentações em diferentes cidades da Europa e das Américas.
Antes dos grandes palcos, porém, a construção da carreira aconteceu pela autogestão. Schwarz é cofundadora da Eterna Fiesta, iniciativa ligada à cena independente de Santiago que articula música eletrônica, dança, experimentação sonora e elementos visuais. O projeto nasceu da necessidade de criar espaços próprios para uma cena que, segundo a própria artista em entrevista à JOIA, encontrou durante muito tempo dificuldades de acesso e reconhecimento dentro do circuito tradicional.
É justamente essa trajetória que agora encontra uma escala completamente diferente. De um lado, uma artista ligada à cultura de clubes, aos ambientes de experimentação e às pistas de dança; de outro, um grupo que transformou o hip-hop em uma das bases de uma discografia marcada pelo trânsito entre gêneros e pela combinação de diferentes referências sonoras. A distância entre os dois universos é grande em termos de público e dimensão do espetáculo, mas não necessariamente em termos de pesquisa musical.
A conexão fica ainda mais interessante quando se olha para o próprio ARIRANG. O álbum que marcou o retorno do BTS às atividades em grupo também apresenta uma produção que circula por hip-hop, trap, pop e texturas eletrônicas. Em Hooligan, por exemplo, o grupo incorpora à faixa um sample de Yang Tse-Kiang, composição de Michel Magne para o filme francês Un Singe en Hiver, de 1962, criando uma introdução de atmosfera retrô antes da entrada do rap e da produção eletrônica contemporânea.
Uma carreira construída fora do centro
A história de Kata Schwarz ajuda a entender o caminho que costuma existir antes de um convite dessa dimensão. Na cena eletrônica, sua trajetória foi construída em espaços menores, por meio de festas independentes, clubes e festivais. A participação na Boiler Room Santiago, em abril de 2025, tornou-se um dos marcos desse percurso. No evento, realizado em parceria com a DAME, Schwarz apareceu ao lado de outros nomes da cena eletrônica chilena e teve sua apresentação incorporada ao catálogo internacional da plataforma.
Em 2026, a circulação continuou. Schwarz esteve no WHOLE Festival, realizado em Ferropolis, na Alemanha, encontro internacional ligado à cultura de clubes e à música eletrônica contemporânea. Seu nome também aparece no circuito europeu e latino-americano de clubes, reforçando uma carreira que, embora tenha origem em Santiago, já não se restringe ao Chile.

A presença de Kata Schwarz também se insere em uma particularidade da legislação chilena. A Ley Nº 21.205, publicada em fevereiro de 2020, estabeleceu novas regras para concertos e eventos musicais de caráter massivo, definidos como aqueles planejados para reunir mais de 600 pessoas. Entre as medidas, a legislação determina que apresentações de artistas estrangeiros enquadradas no benefício de isenção de IVA contem com pelo menos um artista ou grupo chileno como atração de abertura.
https://soundcloud.com/discover/sets/artist-stations:176907185
Conhecida informalmente como “Ley de Teloneros”, a norma transforma a abertura de grandes shows internacionais em uma oportunidade institucional de inserção da música chilena diante de públicos que, muitas vezes, chegam ao recinto para assistir a outro artista. No caso da ARIRANG Tour, essa regra coloca Kata Schwarz diante de uma plateia que reúne fãs do BTS de diferentes partes do Chile e de outros países da região.
Esse movimento internacional convive com uma dimensão comunitária. Na Eterna Fiesta, projeto do qual é cofundadora, a música eletrônica aparece ligada à dança, aos visuais e à criação de espaços de encontro. Em vez de tratar a pista apenas como lugar de consumo musical, a iniciativa trabalha com a ideia de comunidade e experimentação — uma característica que ajuda a compreender a própria linguagem de Schwarz.
O desafio de conquistar um público que chega por BTS
O encontro com o público do BTS será, portanto, diferente de quase tudo o que marcou a carreira anterior da DJ. Parte dos espectadores que estarão no Estadio Nacional chegará ao recinto exclusivamente para ver o grupo sul-coreano e provavelmente terá pouca familiaridade com a cena eletrônica chilena.
É aí que a participação ganha uma dimensão que ultrapassa a função tradicional de um ato de abertura. Schwarz terá alguns minutos diante de um público que não necessariamente escolheu ouvir techno, electro ou dub techno naquele dia. A experiência pode funcionar como uma apresentação de uma cena inteira para pessoas que talvez nunca tenham entrado em contato com ela.
A programação acontece ainda em um momento particularmente importante para o Chile. Os shows do BTS foram inicialmente cercados por incertezas relacionadas à autorização para uso do Estadio Nacional, situação que chegou ao Congresso antes de o governo chileno confirmar, em julho, a realização das três apresentações após a incorporação de ajustes técnicos no projeto do evento.



Agora, com as datas confirmadas, o palco de Santiago se prepara para receber não apenas uma das maiores turnês pop de 2026, mas também um encontro pouco habitual entre circuitos musicais. A ARIRANG Tour passará pelo Chile nos dias 14, 16 e 17 de outubro, antes de seguir para Buenos Aires e, depois, São Paulo, onde o BTS se apresenta em 28, 30 e 31 de outubro.
Kata Schwarz chega a esse palco levando uma trajetória que começou longe dos estádios: construída entre clubes, festivais, autogestão e experimentação eletrônica. O próximo passo será apresentar esse repertório a milhares de pessoas que talvez tenham ido ao Estadio Nacional para ouvir BTS, mas que poderão descobrir, antes mesmo de RM, Jin, SUGA, j-hope, Jimin, V e Jung Kook entrarem em cena, uma outra possibilidade de escuta produzida no próprio Chile.












