Adeus a Canini

Aos 77 anos, um dos maiores nomes do Quadrinho Nacional e referência para muitos dos ilustradores brazucas de hoje, o gaúcho Renato Canini nos deixou na noite do 30 de outubro de 2013, era cardíaco e sofreu um mau súbito. O quadrinista, ilustrador e cartunista gaúcho ficou conhecido por nacionalizar o Zé Carioca, o papagaio da Disney, nos título da editora Abril. Disney criara o personagem com sua política de aproximar os EUA da América Latina em busca de aliados para a Segunda Guerra Mundial. O personagem até então era representado com um paletó e guarda-chuva e com Canini ganhou uma personalidade diferente daquela versão estadunidense, bem malandro (alérgico a trabalho), boa praça, caloteiro até a última pena (mantém a forma fazendo os “400 metros rasos fugindo de cobradores”), com a criatividade para seguir levando a vida e um cenário e vestimentas realmente brasileiros, com Samba, Praia e Futebol por todos os lados

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Canini nasceu em 1935, começou sua trajetória profissional em 1957, na Cacique de Porto Alegre. Foi responsável por charges no Correio do Povo, Pasquim, Mad e outras publicações. Trabalhou na Recreio da Editora Abril, até assumir durante os anos 1970 a revista do Zé Carioca. Aproveitava o impulso dado pela Abril com a estruturação de um estúdio para a criação de histórias Disney próprias e pelo interesse em manter o título Zé Carioca nas bancas. Canini começou a desenvolver histórias para o personagem, dando a ele uma continuidade que jamais teria se não tivesse essa iniciativa. E fez questão de situar as histórias nos morros e nas favelas do Rio de Janeiro, algo que desagradou os editores estadunidenses. Resultado, depois de cinco anos, criando mais de cem histórias para o personagem, os caras lá de fora com a desculpa que os roteiros e desenhos estavam se afastando do padrão Disney, que não vendia bem e cancelaram a produção do título. Canini, com seu senso de humor, numa entrevista ao Zero Hora, recordou que sua dispensa pelos americanos foi porque ele abrasileirou o título, colocando as favelas do Rio e coadjuvantes negros, e os editores norte-americanos não conseguiam entender o Terceiro Mundo. “E olha que desenhava e escrevia daqui do sul, sem jamais ter estado no Rio”, sempre respondia quando perguntado sobre a situação.

Canini também criou outros personagens marcantes como Kactus Kid (a esquerda) uma paródia dos faroestes hollywoodianos e pastelões, o visual do personagem foi inspirado no ator Kirk Douglas. O Kactus era o dono de uma funerária em busca de clientes no Oeste Selvagem, saiu na Revista Crás! (1974-1975). Outro personagem foi o Dr. Fraud (a direita) era um psiquiatra, ou psicólogo, que circulou durante cerca de três edições da revista Patota, da Editora Artenova. Em 1978, criou para o Projeto Tiras, da Abril, o indiozinho Tibica que falava às crianças sobre Ecologia, também criou o personagem Zé Candango, um cangaceiro que vivia atormentando os super-heróis americanos, os textos eram de José Geraldo e o personagem chegou a sair no Jornal do Brasil.

Com poucos traços, simples, soltos, econômicos e com forte personalidade, Canini tinha um grande poder de síntese no desenvolvimento de histórias em quadrinhos e original como poucos. Agora se junta aos imortais Carl Barks, Don Rosa, Janet Gilbert, Floyd Gottfredson, Paul Murry, Dick Moores, Bill Wright, Romano Scarpa e Daniel Branca.

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