O Castigo
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Filme latino “O Castigo” traz um potente retrato do arrependimento materno

Partindo do desaparecimento do filho numa floresta, casal tem de enfrentar problemas há muito silenciados

Ricardo Darín tem lugar especial no coração dos cinéfilos, principalmente dos latino-americanos. Em seu filme “Sétimo”, de 2013, ele interpreta um pai que todos os dias em que busca os filhos na casa da mãe propõe-lhes um jogo: ver quem chega primeiro ao térreo, as crianças de escada ou ele de elevador, ambos descendo do sétimo andar. Um dia, ele chega mas as crianças não. Tem início um pesadelo. Ricardo Darín não está na produção chileno-argentina “O Castigo”, que compartilha com o filme de 2013 o mote do desaparecimento de uma criança, mas envereda por outros caminhos.

A película começa com Ana (Antonia Zegers) dirigindo por uma estrada e, a pedido do marido Mateo (Néstor Cantillana), dando meia-volta com o carro para buscar o filho deles, Lucas, que havia sido deixado mais para trás como castigo por mau comportamento. Mas Lucas não está mais lá.

O casal se embrenha na floresta que é cortada pela estrada. Ana tenta usar o tablet primeiro como ameaça, depois como moeda de troca para que Lucas saia de um possível esconderijo. Ao passar dos minutos e com uma busca infrutífera, não resta alternativa a não ser chamar a polícia.

Ana tem um autocontrole tremendo, que beira a frieza. Vemos bem isso quando atende à ligação de sua mãe, e age como se Lucas estivesse conversando com ela ali no carro, e não desaparecido. Mais que isso: ela está convencida de que o filho, do alto de seus sete anos, se escondeu na floresta para castigar os pais pelo castigo que primeiro lhe impuseram.

Logo começam os insultos. Mateo diz que Ana é intransigente na criação do menino, enquanto ela, ainda que não com essas palavras, diz que o pai mima demais o garoto. Primeiro eles contam uma versão atenuada da história para a polícia, depois, acuados, contam a verdade, mesmo Ana protestando que o foco da busca mudaria e eles passariam a ser julgados.

Ana diz que não é uma mãe ruim, apenas uma mãe que tomou uma decisão equivocada da qual se arrepende, mas todos a julgarão mesmo assim. Ela conta que antes de deixarem Lucas na beira da estrada, o menino havia feito birra que culminou com ele tapando os olhos da mãe enquanto ela dirigia. Ela freou bruscamente, ninguém se machucou, mas o sangue dela ferveu. Mais adiante, num rompante de sinceridade, Ana confessa que uma parte dela preferiria que Lucas sumisse de vez, porque ela não consegue ser feliz desde que o menino nasceu. Resta então uma pergunta: o que você, mãe ou não, faria no lugar e na situação de Ana?

O casal comenta com os policiais que, segundo o psicólogo da escola, Lucas tem transtorno de déficit de atenção. Estima-se que 7,6% de todas as crianças no mundo tenham TDAH e o aparente boom de diagnósticos recentes se justifica não por “modinha”, mas por uma atenção maior voltada ao problema. Duas vezes mais comum em meninos que em meninas, a agitação frequente e o esquecimento são apenas dois de uma lista de sintomas que não devem ser ignorados.

A restrição de um espaço cênico no cinema é sempre um exercício interessante para a criatividade. Talvez o exemplo máximo de filme feito com esta restrição seja “Doze Homens e uma Sentença”, o clássico de 1957, com remake em 1999. Nele, é possível sentir a opressão do ambiente fechado, o que não está presente em “O Castigo”. Entretanto, no filme latino, o espaço aberto é também opressor, e sufoca nossos personagens pela urgência do caso. Sobre isso, o diretor Matías Bize declara:

“O filme começa no meio do conflito e, assim, mantém um certo suspense sobre o motivo do castigo. Quero que o público se envolva emocionalmente e acompanhe os personagens enquanto descobrem seus próprios segredos. O suspense da narrativa se baseia em saber se eles encontrarão o menino vivo antes da chegada da noite, mas o interesse também é despertado pela descoberta gradual da verdade mais oculta dos personagens. O público será cúmplice, em todos os momentos, de suas mentiras, daquilo que tentam esconder, e isso permitirá que participe de suas contradições, seus medos e suas fraquezas. “O Castigo” se passa em tempo real. São 85 minutos tratados com realismo absoluto, o que nos permite vivenciar o filme de forma crua e despojada de acessórios.”

O castigo do título, ao final, bem que pode ser considerado o castigo do peso da maternidade sobre as mulheres, conforme Ana esmiúça em seu poderoso monólogo. O que começa como um thriller acaba proporcionando uma reflexão inesperada e muito potente, que vem sendo cada vez mais debatida dentro e fora das redes sociais.

NOTA 7 de 10

O Castigo

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