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Peter Pan em quadrinhos publicado pela Nemo traz deliciosa versão do personagem

A Terra do Nunca e seu personagem mais memorável, Peter Pan, fazem parte do imaginário de crianças e adultos, sua famosa narrativa levou a ser conhecida como se fosse uma história retirada dos contos de fadas. Versões diversas, algumas bastante adulteradas, de peças a filmes animados, aumentaram o sucesso, entretanto poucos leram o original, Peter e Wendy, que James M. Barrie escreveu e não Walt Disney, como alguns substituíram pelo sucesso do longa-metragem.

Escrito em 1911 a história pode até ter sido escrita para o público infanto-juvenil, mas possui uma temática mais adulta, com detalhes que resgatam a Inglaterra vitoriana, com uma linguagem sagaz e irônica que o autor abordou em inúmeros resquícios contextuais. E o personagem de Peter Pan é uma espécie de desencanto com a vida adulta, não uma simples figura escapista, mas um rebelde que rejeita conscientemente o papel de adulto na sociedade convencional. Entre as obras que seguem essa abordagem, temos o ótimo Peter Pan (tradução de Fernando Scheibe) de Regis Loisel, publicado por aqui pela Nemo em três volumes.

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Loisel desenvolveu um projeto ambicioso, uma monumental obra composta no original por seis volumes, pela Glénat, que demorou quatorze anos para ser finalizada. Nesta resenha pretendemos lançar uma visão da obra como um dos melhores trabalhos das HQs europeias e render uma pequena homenagem ao seu genial autor. O francês, em entrevista, reconhece que sua paixão pelo personagem de Peter Pan vem de sua infância quando descobriu a versão que Disney realizou em 1953. O caráter insólito do personagem lançou indagações sobre as origens. Como ele teria se tornado no menino que não queria crescer? E os demais personagens? Não encontrando respostas às perguntas na obra original, Loisel decidiu construir sua própria versão de Peter Pan, amparado no período histórico que Barie viveu e contextualizou seu trabalho.

A narrativa começa na Londres dos finais do século XIX, onde Peter, um garoto sobrevive como pode nas duras ruas da cidade com a única ajuda de sua imaginação. A mãe é alcoólatra e o maltrata como um cão sem dono. O pouco afeto que encontra é na companhia de um velho que lhe anima a conservar a inocência da infância pelo poder de sua fértil imaginação. Uma noite, após uma reprimenda de sua mãe, Peter vaga pelas ruas e encontra a fada Sininho (Fée Clochette) que o transporta para uma ilha fantástica, além do tempo e do espaço, habitada por criaturas fabulosas como faunos, centauros e sereias, piratas e indios e onde Peter começa a viver as aventuras como sempre sonhara. Porém nem tudo é aventura para Peter, pois a morte e o esquecimento sempre próximo e o colocará a prova mais de uma vez.

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Loisel cria uma versão adulta, com um fundo psicológico que não tem receio em adentrar nas zonas obscuras da psiquê do protagonista e que não titupeia em mostrar a crueldade do mundo que vive este Peter Pan. Um dos pontos fundamentais da obra é a exposição da carência afetiva que o protagonista sofre ao longo da obra. Segundo o autor, Peter sempre será um menino que não quer crescer, não por causa da felicidade de ser criança e sim pelo ódio que sente pelos adultos, tanto que chega ao ponto em não querer ser um deles. Um sentimento tão forte, articulado pela figura da mãe, fonte de dor e sofrimento, que cataliza no despertar desse ódio que leva a Peter a repudiar tudo que suponha ser adulto. Além disso, outros temas relacionados com a infância, alguns bem espinhosos, como a falta de consciência e a crueldade inerente do comportamento egoísta.

Apesar de algumas transgressões que o autor realiza na narrativa, como a inclusão de Jack, o Estripador no relato, outro dos pontos que chamam a atenção é o respeito pelo material original de Barrie. Loisel constrói sua história sem alterar elementos que o autor original desenvolveu, mas se dedica a situar elementos que não foram especificados na obra do início do século vinte. A história do Capitão Gancho e o crocodilo, a origem dos Garotos Perdidos, a casa na árvore, o nome real da Terra do Nunca, e uma das partes mais belos da narrativa, o nome do protagonista Peter Pan.

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Uma obra cheia de força e de paixão, com momentos brilhantes de ação, comédia e terror, com uma caracterização de personagens bem interessante e uma clara vontade de explorar as raízes psicológicas do protagonista. Tudo acompanhado com um visual incrível dos desenhos barroco, detalhado e histriônico de Loisel. Contudo, a obra não está isenta de defeitos, fruto do planejamento do autor, que não conseguiu planificar cada álbum numa linha argumental, pois abordara cada título de forma independente, o que provoca rupturas no ritmo da narrativa. Apesar disso, o resultado final faz do trabalho de Loisel uma obra maravilhosa, complexa e que convida a releitura para seguir descobrindo outras matizes deste fascinante mundo recriado pelo francês. O mais, é que a edição da Nemo está bem caprichada e apesar do preço, vale a pena!

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