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Robocop e os one-shots autorais da Boom Studios

Já se vão 30 anos que Robocop, o policial do futuro, deu as caras no cinema. Numa Tela Quente (Globo), precisamente no dia de 9 de abril de 1990, pela primeira vez assisti ao filme de Paul Verhoeven. Eita, eram os meus quatorze anos e aquilo que senti marcou muito, pois passei a semana pedindo para que deixassem ver aquele filme e como era inicio de semana, quem estudava pela manhã, tinha que acordar cedo. Mesmo assim deu certo, meus pais também assistiram e ainda teve um público para ver aquela novidade. E na velha Sharp, após os resmungos da Dona Armênia, o plim-plim da vinheta, toda mundo reunido e a ansiedade esquentando a noite. O leão da Metro rugiu e Detroit surgia, a OCP controlando a cidade e a polícia, o crime correndo solto e surgia um homem máquina para combatê-los, as cenas violentas, a música, a integridade perante a corrupção… Nem imaginam a conversa que deu no outro dia, na sala de aula.
Que introdução, hein? Tinha que resgatar isso na minha mente e passar para a posteridade, ainda mais após ler esse artigo do Cesar Monteiro, e procurei os quadrinhos que a Alto Astral publicou com as one-shots do policial do futuro que saíram pela Boom Studios originalmente. Foram 4 títulos: Robocop – Homem e máquina, de Michael Moreci e Jason CoplandRobocop – Viver e morrer em Detroit, de Joe HarrisPiotr Kowalsky; Robocop – Lembranças da morte, de Frank J. Barbieri e João Carlos Vieira; e Robocop – Beta, de Ed Brisson e Emilio Laiso.
A editora norte-americana mergulhava mais profundamente na psiquê do RoboCop com uma série de one-shots desenvolvidos para nos dar uma visão adicional sobre o homem dentro da máquina. Na primeira delas, RoboCop: Hominem Ex Machina, Moreci e Copland  querem que os leitores saibam que o homem na máquina é tão importante quanto o hardware do lado de fora.  A one-shot analisa a importância da pessoa dentro do traje quando os sistemas ficam offline. Um desligamento desse tipo é um grande golpe para o homem anteriormente conhecido como Alex Murphy, pois sua consciência permanece intacta enquanto assiste impotente os criminosos que ele assustou rastejam de volta da toca que se escondiam para enlouquecer a Detroit. Moreci viu o RoboCop de Verhoeven como a nata da cultura sci-fi subversivos e desafiadores, com sua mensagem de deterioração urbana e controle corporativo misturado com humor negro e violência louca.

A estética de Jason é perfeita para a história, realmente proporcionando aquela sensação mínima, mas impactante, que extrai o elemento humano da história, numa narrativa bem nítida e suave.

Já Harris e Kowalsky em RoboCop: To Live and Die in Detroit trazem uma abordagem super-heróica para o policial do futuro, pois ele fazia proezas do estilo bem antes que o termo “filme de super-heróis” surgisse. A narrativa apresenta um RoboCop linha dura, como um Dredd em sua dedicação a defender a lei, mas que toma cuidado com os cidadãos comuns. E quando descobre que há colegas policiais envolvidos em situações fora da lei, sua capacidade reacionária é demonstrada como premissa psicológica do personagem.  A arte é fluida e conta bem a história, usando linhas finas e um design limpo. O novo design do RoboCop é simplificado e escuro, mas Kowalski e o colorista Vladimir Popov fazem um bom trabalho em fornecer detalhes suficientes para que o policial não pareça apenas o interior do Manto da dupla Cloak & Dagger.

Frank J. Barbieri e João Carlos Vieira apresentam em RoboCop: Memento Mori o futuro policial robótico Alex Murphy, lembrando sua vida enquanto faz a cirurgia que o transformará no herói que conhecemos. Mas, sendo um universo de sonhos, é difícil separar a verdade da ficção. Barbieri desenvolve e expande o conceito do que ocorre dentro do cérebro de Murphy quando ele estava sendo operado, impotente, para surgir como o RoboCop. E brincando com a memória dentro de outra memória, o autor ajuda a arte de João Vieira para compor os sonhos de Alex, um policial tão acostumado a ser o homem no controle, saindo do se elemento e simultaneamente tendo sua mente adulterada. Uma HQ que transcende pelo que apresenta, mas tem um fim lógico.

Por fim, temos a HQ RoboCop: Beta de Brisson e Laiso que em vez de se aprofundar na versão que o José Padilha trazia na época do seu lançamento, centra-se no primeiro teste de RoboCop experimentado pelo Dr. Norton (Gary Oldman). Ou seja, na primeira tentativa, girando em torno do primeiro cara que o Dr. Norton tentou transformar no Policial do Futuro. O traço do italiano compõem a narrativa da guerra, com todos aquelas cenas de ação e sangue.
As one-shots são quadrinhos que contam uma história inteira em uma edição. E é difícil fazer uma história em 22 páginas, pois após encontrar uma história interessante, tem que desenvolver o essencial para um único título. A editora procurou pegar carona com o filme da nova versão do RoboCop do José Padilha, publicando em 2014, mas surpreende pelo nível das histórias, levando em conta a velha máxima que “alguns filmes transcendem o cinema” e como fã de ficção científica, recomendo a leitura deste material que a Alto Astral trouxe para nosso deleite.

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