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Wytches, um deslumbre de terror de Scott Snyder e Jock

Os livros conseguem passar mais medo do que os filmes. Pessoalmente, sempre que assisto a um filme de terror, mesmo com alguns bons sustos, o medo em si é algo momentâneo, que passa após a sessão. Enquanto que os livros conseguem me tirar o sono e gerar mais dúvidas sobre o conceito do mal dentro das coisas naturais. E se considerarmos que os quadrinhos sejam o caminho intermediário entre a literatura e o cinema, há quadrinhos que trazem em seu cerne a boa estrutura de uma história de terror e transmitem os sentimentos dos personagens ao seus leitores. Além disso, há os desenhos que exploram seres folclóricos, monstros, criaturas e seres malignos que conjugam com a história.

Recentemente, uma narrativa gráfica me surpreendeu e foi uma que falava de bruxas. Daquelas senhoras de pele esverdeada, rugas, verruga no nariz, roupa preta, vassouras… nada disso! Há tantas versões, negromantes, canibais, assassinas, demoníacas, sádicas, retorcidas,etc, que não imaginava encontrar algo novo como encontrei em Wytches.

Após 3 anos de seu lançamento nos EUA, Wytches,  mais uma empreitada da DarkSide nos quadrinhos em seu selo Graphic Novels, com Scott Snyder escrevendo o roteiro e Jock fazendo a arte. Antes de analisar essa obra, vamos lembrar de uma época em que Snyder não era “o cara” da DC Comics. O autor mais comercial e conhecido do momento publicava pela Image Severed, uma minissérie sobre um assassino, o que comprova a tese que o autor possui uma facilidade inata para narrar história de medo e terror. Podemos ver isso com Batman: The Black Mirror e com o American Vampire, com o apadrinhamento por parte de Stephen King. Enquanto essa faceta terrorífica se desfocava nos últimos anos de sua carreira, o reencontro com esse estilo teria um novo momento.

E como. Só as primeiras páginas e a ambientação que introduz deixa claro que Snyder  quando quer trazer o terror de algum recanto de sua mente ele traz. A família Rooks, após um episódio recente (bem escabroso por sinal) que envolveu sua filha Sailor, se muda para uma pequena cidade, onde esperava deixar para traz qualquer perigo ou maldade.  Entretanto, algo espreita a família, em especial, a filha…

O conhecido clichê da busca de recomeçar a vida é o arcabouço que o autor desenvolve, além de outros clichês de filmes e livros sobre bruxas. Uma forma selvagem e natural para conceber suas bruxas, longe das versões clássicas, numa releitura assustadora.

Sem muito spoilers, podemos comentar que Snyder, estrutura a narrativa com um ritmo crescente, seguindo para um terror mais psicológico com toques de gore e paranoia.  Explora seus personagens ao máximo, tudo ao redor de Sailor Rooks e sua família, a cidadezinha, seus moradores, as bruxas são construídas para causar. O trauma psicológico, as motivações, excentricidades e medos são apresentadas tão bem, que você se vê mergulhado no terror que cerca a história.

O desenho do artista escocês Jock é brilhante. Sutil em sair do que normalmente desenha, traça uma sombriedade assustadora que consegue gerar um diálogo visual, a ponto de sentirmos como se as sombras estivessem vivas. Há uma expressividade que mantém o leitor confuso e inquieto durante toda a narrativa. Com sua pintura semelhante aos quadros de Jackson Pollock, temos Matt Hollingsworth, que compõem telas que fazem que a nossa mente se confunda com o cenário e o fundo dos quadrinhos, para passar o clima do texto, a tensão dos personagens aos leitores e fazendo algo realmente fantástico.

Já em relação a edição da DarkSide, o cuidado em apresentar uma obra acima da média ao público dá o tom do que a editora prepara para este ramo editorial. Com o excelente acabamento que a editora já trouxe em Meu amigo Dahmer, capa dura, papel de qualidade, com extras e entrevistas com os autores, Wytches soma ao acerto da editora em entrar neste ramo. Aguardamos suas próximas novidades.

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