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Atualidade, vigor e lirismo no monólogo Memórias de Adriano, em Copacabana

Esta não será uma resenha isenta, é impossível não mencionar os fatos recentes da triste política nacional. Não depois de uma farsa levada a cabo na Câmara dos Deputados, onde políticos sabidamente corruptos aprovam o impedimento de uma presidente eleita legitimamente e onde um dos deputados dedica seu voto a um torturador da ditadura de 64, como se uma desfaçatez como essa pudesse ficar por isso mesmo.

Na véspera da farsa, de um julgamento que deveria ser legal e não político, e já num clima muito propício, tive o prazer de assistir ao monólogo Memórias de Adriano, com direção de Inez Vianna, primeira montagem brasileira do romance de Marguerite Yourcenar, publicado pela primeira vez na França, em 1951. Será impossível escrever esta crítica, na semana da votação esdrúxula do impedimento em Brasília, sem, junto, me posicionar.

Memórias de Adriano SP © Renato Mangolin 334

E essas memórias de Adriano, que adquirem forma de carta no espetáculo, têm tudo a ver com governo, poder, lealdade, amizade e, sobretudo, inventário da própria consciência, tarefa essa que poucos são capazes de empreender. A peça tem belíssima adaptação dramatúrgica de Thereza Falcão e uma interpretação contundente de Luciano Chirolli, que, neste ano histórico de 2016, completa 30 anos de carreira.

Adentramos o teatro em busca de nossos lugares e já temos um impacto com a cena que espera o início do espetáculo. O protagonista está deitado de olhos fechados em uma banheira no centro do palco e, ao redor dele e a tudo permeando, um clima sombrio de abandono, uma lúbrica atmosfera. Logo que o espetáculo começa, Adriano se levantará e fará um apelo à plateia: ajudem-me a morrer. Nesse momento, escancara-se a proximidade do fim.

Memórias de Adriano SP © Renato Mangolin 017

É com essa força inicial, presente ao longo do texto e na atuação de Chirolli, que acompanharemos o inventário da própria vida, feito em forma de uma carta que é pautada pela franqueza dos que têm de se haver com a finitude. Trata-se de um inventário que enumera os movimentos de alma que acompanham (pelo menos é o que esperamos) os movimentos políticos de um soberano.

Ele fala de suas decisões, de estratégias de poder, de gestos políticos, mas não deixa de lado a força motivadora que a tudo sustenta. Acompanha Chirolli o músico Marcello H, cuja participação confere ainda mais beleza e lirismo ao monólogo.

Memórias de Adriano SP © Renato Mangolin 175

A franqueza das palavras de Adriano, ao falar da doença que paulatinamente corrói seu corpo, é outro aspecto relevante do texto. Há uma frase interessantíssima: “É difícil continuar imperador diante de um médico. Aliás, é difícil continuar sendo homem”. Qualquer poder, qualquer soberania, qualquer nobreza se curva diante de um corpo enfraquecido, dolorido e cansado que deve ser entregue aos cuidados de um outro capaz de enxergá-lo melhor que nós. Qualquer dignidade fica, então, entre parêntesis.

Assim, a temática trazida pelo vigoroso monólogo, guardadas características específicas, é extremamente atual. A lealdade está em jogo na política nacional quando temos de acompanhar, estarrecidos, os jogos conspiratórios do poder. Assistindo à peça, não é possível não pensar nesses deputados que, no dia 17 de abril, falaram tanto de suas famílias, esposas e Deus para justificar votos corrompidos de saída.

Memórias de Adriano SP © Renato Mangolin 163

Memórias de Adriano proporcionou em mim um jogo de pensamento que foi o de imaginar esses deputados e o atual presidente da Câmara no momento em que, como o Adriano construído por Chirolli, se depararem mais intimamente com a dor do corpo, no momento em que não puderem ignorar as limitações que a vida traz a todos nós, na ocasião, enfim, em que um inventário da consciência não puder mais ser contornado.

E será que, quando esse momento chegar para eles (afinal, chega para todos nós), eles conseguirão fazer esse escrutínio do próprio reflexo tal qual vemos no texto adaptado do romance de Yourcenar? O corrupto, que vota como se santo fosse, como se atualmente não tivesse alma, conseguirá olhar para o espelho e sustentar o olhar? O que acontecerá então?

A peça fica em cartaz até 15 de maio.

Ficha Técnica

Idealização: Felipe Lima
Adaptação Dramatúrgica: Thereza Falcão
Direção: Inez Viana
Diretora Assistente: Marta Paret
Elenco: Luciano Chirolli
Músico: Marcello H
Direção de Produção: Mariana Serrão
Cenografia: Aurora dos Campos
Iluminação: Tomás Ribas
Trilha Sonora: João Callado e Marcello H
Figurino: Juliana Nicolay
Arte Gráfica: Flavio Albino
Fotos: Renato Mangolin
Preparação Corporal: Márcia Rubin
Assessoria de Imprensa: Bianca Senna e Paula Catunda
Consultoria Histórica: Claudia Beltrão
Produção Executiva: Arilson Lucas
Assistência de Produção: Carlos Darzé
Assistência de Figurino: Camila Cunha
Estagiária de Produção: Luiza Martinez
Gestão das Leis de Incentivo: Natália Simonete
Realização: Sevenx Produções Artísticas e A Coisa Toda Produções

Serviço

Espetáculo: Memórias de Adriano
Temporada: De 15 de abril a 15 de maio de 2016
Local: Espaço Sesc (Sala Multiuso)
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana
Informações: (21) 2548-1088
Dias e horários: De sexta a domingo. Sexta e sábado, às 19h. Domingo, às 18h.
Capacidade: 60 lugares. Acesso para deficientes físicos.
Ingressos: R$  20 (inteira) e R$  10 (meia).
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: 16 anos.
Gênero: Drama.

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