Aracy 3 crédito Caleidoskopica
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Estreia de “Aracy” no Sesc Ipiranga

Poucas pessoas sabem, mas os sobrenomes possuem origem quase que exclusivamente oriunda dos pais e os demais antecessores masculinos – o que faz com que todas as mulheres sejam anuladas com o passar do tempo. Essa foi uma das descobertas de Flavia Milioni no processo criativo de “Aracy”, segundo solo autoficcional, dirigido e interpretado por ela, que estreia dia 21 de julho, sexta-feira, às 21h30, no Sesc Ipiranga. A montagem investiga a misteriosa história da avó materna de Flavia através dos rastros deixados por ela, e é uma atração do projeto Teatro Mínimo, que reúne espetáculos com atmosfera intimista e proximidade entre artistas e espectadores.

“Aracy”, a avó de Flavia, que dá nome ao espetáculo, se suicidou em 1954, aos 26 anos de idade. Para lançar luz a uma história trágica e infelizmente não tão rara, “Aracy” mergulha em temas comuns a todas as mulheres, como o machismo e o patriarcado estruturais e suas consequências. “É um trabalho que propõe ao público refletir sobre as mulheres que vieram antes de nós, e encontrar essas mulheres que somos ou que queremos ser”, pondera Flavia, que iniciou este processo quando ainda encenava seu solo anterior, O QUADRO ou pequeno poema para o fim do mundo (2016).

Debruçada sobre uma história real e de foro íntimo, a montagem se vale da autoficção, que também foi objeto de pesquisa de Flavia em seu mestrado. “Um dos pilares deste tipo de teatro é o uso do relato e da confissão na cena. Também pode ser entendido como uma subversão da autobiografia, já que admite que a memória está diretamente associada à imaginação”, explica a atriz e diretora.

Viagens e novos parentes

Evocando uma memória inventada, a relação de avó e neta que nunca existiu, o espetáculo cria um resgate de um laço ancestral, já que representa o apagamento existencial das mulheres na sociedade e apresenta um assunto tido como tabu ainda nos dias atuais. “Em escala mundial, o suicídio mata mais do que todos os homicídios, incluindo os mortos em guerras. Ninguém gosta de falar no assunto e, ao mesmo tempo, todo mundo conhece alguém que se matou. Por que não enfrentamos essa sombra? Os casos só aumentam e os números são alarmantes. Falar sobre isso é parte do processo de cura”, acredita Flavia.

No processo de investigação de “Aracy” Flavia Milioni percorreu quatro cidades, descobrindo parentes que não conhecia e sentindo que, por fim, teve um encontro consigo mesma. “O espetáculo evidencia que a luta das mulheres continuará enquanto formos oprimidas e excluídas. Hoje somos inundadas por termos como machismo, misoginia, sexismo, mansplaining, gaslighting, sororidade. Nenhuma dessas palavras fazia parte do vocabulário de “Aracy”, mas ela sentiu na pele cada um de seus significados. Tocar na ferida através da história de uma mulher específica é propor a reflexão sobre o machismo nas relações mais íntimas. “Aracy” está prestes a cair no esquecimento. Ela é cada uma de nós. Não podemos deixar que nos esqueçam.”

Serviço:

“Aracy”
De 21 de julho a 20 de agosto, sexta-feira às 21h30 e sábado e domingo às 18h30.
Auditório do Sesc Ipiranga. Capacidade – 30 lugares
Rua Bom Pastor, 822 – Ipiranga. Telefone – (11) 3340-2000.
55 minutos | 14 anos | De R$ 10,00 a R$ 30,00.

Ficha técnica:

Texto, Direção e Atuação – Flavia Milioni. Codireção – Natasha Corbelino. Cenário – Elsa Romero e Lia Maia. Figurino – Flavia Milioni. Iluminação – Lara Cunha e Fernanda Mantovani. Assessoria de Imprensa – Nossa Senhora da Pauta. Direção de Produção – Pouquoi Pas Produções.

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