AcervoAgendaTeatro

Peça “As Meninas”, adaptada do romance homônimo de Lygia Fagundes Telles, em cartaz no Teatro Poeira

“A palavra vira carne”: é assim que uma das maiores escritoras brasileiras, Lygia Fagundes Telles, se refere, emocionada, à adaptação de seu romance As Meninas para os palcos. O livro, lançado em 1973 no auge de um dos períodos mais áridos da ditadura brasileira, e premiado com o Jabuti no ano seguinte, ganhou adaptação de Maria Adelaide Amaral e idealização de Clarissa Rockenbach e Fernando Padilha.

Se, segundo Lygia, “a função do escritor é ser testemunha do seu tempo e da sua sociedade”, como se lê no programa da peça, e se a obra de que tratamos aqui traz o testemunho de um momento crítico da história brasileira, esse parece ser então o momento perfeito para a adaptação de As Meninas para o teatro: vivemos o acirramento das tensões políticas no país, o recrudescimento do debate entre reivindicações de direita e de esquerda e constatamos, horrorizados, o aparecimento de um clamor que, aqui e ali, pede a volta do regime militar, que foi dos períodos mais opressores e violentos da história recente do país. É, portanto, inegável que a temática da peça As Meninas, com direção e concepção de Yara de Novaes, não perdeu sua atualidade.

Na trama, três meninas vivem em um pensionato que, a princípio, parece um refúgio da vida na cidade. A romântica Lorena (Clarissa Rockenbach) sonha com um amor ideal e vive em espera (de uma ligação, do melhor momento para concretizar sua paixão, da felicidade utópica). A jovem comunista Lia (Silvia Lourenço) sonha com um mundo ideal e vive também em espera (de um país melhor, do exílio de Miguel, do fim da opressão do regime autoritário). Finalmente, a desesperada Ana Clara (Luciana Brites) sonha com um futuro ideal e, enquanto se coloca em diversas situações de risco e promete a si mesma voltar a fazer análise, vive, ela também, em espera (de um casamento burguês, de condições financeiras ideais). Elas têm suas diferentes maneiras de lidar com o mundo e consigo mesmas, através de amantes (Daniel Alvim), da Mãezinha de Lorena (Clarisse Abujamra) e suas lembranças traumáticas, e da freira Priscilla (Sandra Pêra) que, por sua vez, abandonou seus próprios sonhos e suas antigas esperas.

O texto de Lygia capta o leitor desde o início do romance e promove um diálogo incessante entre o mundo introspectivo dos sonhos e das frustrações e o mundo objetivo que o cerca e o produz. Assim, não é uma tarefa simples adaptá-lo à linguagem do teatro. Mas parece que as soluções dramatúrgicas encontradas alcançam êxito em manter o dinamismo, no espetáculo, dessa literatura não-linear de Lygia, característica que se pode perceber em toda a sua obra e que confere o charme e a densidade de suas tramas e de seus personagens.

O vaivém de memórias, segredos e tabus e a alternância de vozes muito bem construídas pela escritora parecem se concretizar no movimento dos personagens e seus diálogos pelo cenário. Assim, esses personagens e seus fantasmas (sobretudo seus fantasmas) estão ora fora, ora dentro de um quadrado branco central, ora têm voz ativa, ora são mencionados sem direito a resposta, e esse jogo de luz e sombra, claro e escuro, a centralidade iluminada e as bordas turvas, além do trânsito pelas fronteiras entre essas áreas, é o que talvez torne viável a difícil tradução da literatura de Lygia para a encenação no palco. É como se a consciência e o aqui-e-agora estivesse ali, naquele centro claro, onde as conversas e os encontros acontecem, onde há a proteção suposta das paredes e de belos objetos, onde a tendência a um senso estético consensual traz harmonia temporária às inquietações vividas pelas três meninas, ao passo que o que está em volta deve ser protegido de uma iluminação direta, do escrutínio a olho nu, é aquilo que deve ser visto através de um olhar enviesado e cauteloso. E o que está em volta são essas memórias traumáticas e sua carga afetiva às vezes difícil de sustentar, são os personagens mencionados nas conversas e o rancor com que os outros se referem a eles, a moral religiosa e casta, a transgressão a essa moral, a culpa, o medo, a angústia.

É preciso dizer ainda, à guisa de conclusão, que o elenco está ótimo, com destaque para a participação especial de Clarisse Abujamra, vivendo a mãe de Lorena, que, apesar de ser um personagem facilmente detestável, consegue ser carismática e engraçada ainda que envolvida em perdas mal-explicadas e certa dose de autocomiseração que poderia causar repulsa, e Sandra Pêra, na pele da Irmã Priscilla, que compõe uma figura que é misto de força assustadora própria dos objetos sagrados e fragilidade demasiado humana quando se resolve a falar de si.

Serviço:

Espetáculo: AS MENINAS
Estreia dia 08 de setembro, às 21h.
Temporada de 08 de setembro a 21 de outubro de 2015
Terças e quartas, às 21h.
Local: Teatro Poeira – R. São João Batista, 104
Tel. bilheteria: (21) 2537-8053
www.teatropoeira.com.br
Horário de funcionamento: terça a domingo, das 15h as 21h
Ingressos: R$50,00
Duração: 80 minutos
Classificação: 14 anos.
Lotação: 135 lugares.

Ficha Técnica:

De Lygia Fagundes Telles e adaptação e dramaturgia Maria Adelaide Amaral
Direção e concepção: Yara de Novaes
Elenco: CLARISSA ROCKENBACH como Lorena, LUCIANA BRITES como Ana Clara, SILVIA LOURENÇO como Lia. Ator convidado: DANIEL ALVIM como Max e Guga. Participações especiais de CLARISSE ABUJAMRA como Mãezinha e SANDRA PÊRA como Irmã Priscila.
Elenco em OFF: Daniel Alvim como M.N. e Eloísa Elena como Secretária
Diretor assistente e preparação corporal: Leonardo Bertholini
Cenário: André Cortez
Figurinos: André Cortez e Fábio Namatame
Iluminação: Juliana Santos
Trilha sonora: DrMorris
Visagismo: Bruna Pires
Fotos de estúdio: Priscila Prade
Fotos de cena: Kelson Spalato
Programação visual: Tuagência Comunicação
Cenotécnico: Maurílio Dias
Operador de luz: Walace Furtado
Operador de som: Gabriel Lessa
Camareira: Cedelir Martinusso
Costureiras: Cleide Niwa, Gonzalez Jaquet (Reina) e Neuza Padilha
Advogada: Cássia Rockenbach
Lei de incentivo: Egberto Simões
Assistente de produção: Priscila Tello
Produção executiva: Gustavo Sanna
Direção de produção: Fernando Padilha
Idealização: Clarissa Rockenbach e Fernando Padilha
Realização: Pad Rok Produções Culturais Ltda.
Assessoria de imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação
Patrocínio: Unimed Seguros

Deixe um comentário

Sugeridos
CríticasTeatro

Excelente montagem de A Gaivota, de Tchekhóv

O Armazém Companhia de Teatro está de volta com uma nova montagem...

AgendaArtes VisuaisAstrosMúsica

Mostra sobre RM, líder do BTS, abre retirada de ingressos gratuitos

Exposição “A Arte de Ser Humano — RM: The Human Behind the...

AgendaMúsicaShows

Flávio Venturini comemora 50 anos de carreira com show no Rio

Bastidores, hinos da MPB no Circo Voador Cinco décadas dedicadas à criação...

Agenda

Los Bodegueros lançam álbum de estreia Rio Habana em conexão histórica entre o samba e os ritmos cubanos

Projeto FOI gravado entre  Rio e Havana conta com participações de Áurea...

Agenda

Paço Imperial realiza seminário sobre a produção artística do Nordeste

Com o objetivo de refletir sobre a produção artística da região Nordeste...

AgendaSem categoria

Poema Suspenso para uma Cidade em Queda na Funarte SP

Ainda sem uma posição sobre um novo terreno para o Teatro de...

Agenda

‘Dia de Festa’no Teatro Sabesp Frei Caneca

A criançada pode esperar muita brincadeira, diversão e interatividade nos shows que...

AgendaTeatro

“Lábios que Beijei”, adaptação da obra de Aguinaldo Silva, estreia no Teatro Laura Alvim

Adaptação inédita de Júlio Kadetti, supervisionada pelo próprio Aguinaldo Silva, apresenta no...

AgendaTeatro

“O Filho das Mães” em Ipanema

Comédia escrita há mais de duas décadas retorna aos palcos pela primeira...

AgendaTeatro

“O Espírito da Coisa” estreia na Tijuca

A moralidade e o desejo entram em rota de colisão em uma...

AgendaFilmes

12 filmes no Jardim Suspenso do Centro Cultural São Paulo

Na programação estão obras aclamadas pela crítica e que marcaram a história...