Um tipo de trama que sempre chama a atenção do público é aquele em que o personagem principal, por um motivo não completamente explicado (pelo menos durante parte da história), acaba vivendo o mesmo dia repetidas vezes, como se estivesse preso numa armadilha do tempo e que precisa encontrar uma solução para conseguir avançar de fase, como num vídeo game. Esse argumento já gerou diversos filmes de vários gêneros, como comédias (“Feitiço do Tempo”) ou ficções científicas (“No Limite do Amanhã”), só para citar alguns.

Agora, a mesma ideia foi aplicada num sub-gênero que tem o seu público cativo cada vez mais notório: adaptações de livros com temática adolescente. Assim, surge a versão cinematográfica de “Antes que Eu Vá” (“Before I Fall”, 2016), que conquistou uma verdadeira legião de fãs e que deve aumentar com o lançamento desta produção. O filme é bem feito tecnicamente, mas não reserva grandes surpresas e deve satisfazer mais aos admiradores da história, já que parece que ele foi feito justamente para agradá-los.

A trama mostra o cotidiano de Samantha Kingston (Zoey Deutch), uma jovem estudante que tem uma bela família, um grupo de amigas inseparáveis formado por Lindsay (Halston Sage), Ally (Cynthy Wu) e Elody (Medalion Rahimi), um namorado amoroso, Rob (Kian Lawley), e curte sua popularidade na escola. No dia 12 de fevereiro, tudo parecia bem, mas após deixar uma festa com suas parceiras e sofrer um grave acidente numa estrada deserta, Samantha descobre que voltou no tempo e está vivendo o mesmo dia repetidas vezes. Na busca para solucionar o mistério, ela percebe que pode e precisa mudar alguns acontecimentos desta data para que as coisas passem a fazer mais sentido para ela e para as pessoas ao seu redor. Durante o processo, a garota aprende a valorizar os acontecimentos de sua vida e faz o possível para que tudo valha a pena.

Quem já viu filmes com temática semelhante a de “Antes que Eu Vá”, como os já citados “Feitiço do Tempo” e “No Limite do Amanhã” (ou mesmo o hoje pouco lembrado filme de Francis Ford Coppola, “Peggy Sue Seu Passado a Espera”), não vai encontrar nenhuma diferença em sua história. O roteiro, escrito por Maria Maggenti a partir do livro de Lauren Oliver, é apenas regular e reforça os clichês das high schools americanas, com personagens bastante estereotipados. Assim, temos a garota popular, o atleta musculoso, o jovem legal e sensível, representado por Kent McFuller (Logan Miller), a menina esquisita, que cai como uma luva para Juliet Sykes (Elena Kampouris), entre outros. Em nenhum deles, há alguma originalidade, assim como nas situações em que se envolvem. O filme trata o bullying de maneira superficial, mas isso não deve fazer muita diferença para o público-alvo, que certamente se emocionará com o óbvio drama da protagonista.

Outro problema está na direção de Ry Russo-Young, que, assim como o roteiro, não se arrisca em nenhum momento e faz o trivial só para alegrar a plateia. Tudo é correto demais, como num telefilme, sem nenhuma ousadia ou algum momento realmente cinematográfico. Nem a direção de atores é boa. Isso fica bem claro nos momentos em que Samantha banca a rebelde e se indispõe com a mãe, interpretada pela carismática Jennifer Beals, e depois com as amigas. Tudo é resolvido rapidamente e de maneira bem tradicional e sem maiores impactos dramáticos. A cineasta ficou devendo neste trabalho, mas pode ser que faça algo mais relevante no futuro.

No elenco, não há grandes atuações e muitos atores parecem estar no piloto automático. Quem busca fazer algo um pouco mais marcante é mesmo Zoey Deutch, que tem um trabalho mais complexo de fazer, já que tem que tornar crível a sua angústia de viver o mesmo dia novamente. Ela mostra uma boa relação com as outras atrizes com quem contracena, mas alcança um resultado melhor nas sequências que faz com a pequena Erica Tremblay (irmã do também talentoso Jacob Tremblay, de “O Quarto de Jack”), que vive sua irmãzinha Izzy. Elena Kampouris, mesmo num papel e num figurino muito clichês, chama a atenção como a perturbada Juliet. Entre os homens, Logan Miller faz o que pode para conquistar a simpatia da protagonista (e, por tabela, do público) e até consegue. Mas nada muito sensacional.

“Antes que Eu Vá” não sai do lugar comum em nenhum momento e pode se tornar uma experiência enfadonha com tanto déja-vu cinematográfico e uma mensagem que só vai se tornar relevante para quem adora livros de auto-ajuda e não se importa em ver a mesma coisa que já foi mostrada anteriormente e com mais talento num passado não muito distante. Porém, os fãs da obra de Lauren Oliver, sempre eles, devem sair com lágrimas ou mesmo um sorriso de satisfação ao fim da sessão. Mas talvez seja mais louvável rever Bill Murray preso no Dia da Marmota aprendendo a ser uma pessoa melhor. Pelo menos, lá, o resultado final é bem mais interessante.

Filme: “Antes que Eu Vá” (Before I Fall)
Direção: Ry Russo-Young
Elenco:  Zoey Deutch, Halston Sage, Elena Kampouris, Logan Miller, Kian Lawley, Diego Boneta
Gênero: Drama
País: EUA
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Paris Filmes
Duração: 1h 38 min
Classificação: 10 anos