Caso 137: desafiando nossa indignação

Aviso: este filme não tem nada a ver com o Caso do Césio-137 em Goiânia. Para o acidente com o elemento químico, veja a minissérie “Emergência Radioativa” É aquela velha, boa e verdadeira piada: qualquer coisinha e os franceses já tomam as ruas e queimam automóveis. De fato, e por uma superexposição da mídia, o…


Aviso: este filme não tem nada a ver com o Caso do Césio-137 em Goiânia. Para o acidente com o elemento químico, veja a minissérie “Emergência Radioativa”

É aquela velha, boa e verdadeira piada: qualquer coisinha e os franceses já tomam as ruas e queimam automóveis. De fato, e por uma superexposição da mídia, o povo francês parece, se não mais belicoso que o normal, ao menos mais engajados e menos dispostos a ficar de braços cruzados quando algo não lhes apetece. Essas manifestações geram muitos conflitos, em especial com a polícia, que está lá para “manter a ordem”, por vezes custe o que custar. É sobre o confronto entre manifestantes e policiais que se debruça “Caso 137”, que já é um sucesso de público e de crítica.

Paris, dezembro de 2018. Mais uma vez, manifestantes vão às ruas. Stéphanie Bertrand (Léa Drucker) está investigando condutas equivocadas de policiais nestas manifestações, quando chega para ela o caso de Guillaume Girard, gravemente ferido na cabeça por supostos policiais. E, como toda pessoa, ela precisa ainda equilibrar a vida profissional com a pessoal, que inclui pais idosos que moram na mesma cidade que a família de Guillaume.

Imagem: Autoral Filmes

Chamados de Coletes Amarelos por sua vestimenta, os manifestantes são abominados pelos policiais, que justificam sua truculência com frases como “todo manifestante é hostil”. O Movimento dos Coletes Amarelos surgiu exatamente na época em que o filme se passa, em manifestações contra o aumento de combustíveis que logo se espalharam e passaram a dar voz a outras reivindicações de cunho diverso. Pode-se aí fazer um paralelo com as manifestações de junho de 2013 no Brasil, embora uma e outra tenham tido desdobramentos diferentes.

Muito além de preencher requerimentos e relatórios, que é a parte chata do trabalho, Stéphanie e seu colegas fazem um tipo detetivesco de trabalho, como eu sempre sonhei em fazer quando criança. Por exemplo: olhando câmeras de segurança nas ruas, identificaram indivíduos com armas e capacetes. Então pediram dados de todas as vendas de capacetes nas lojas de Paris nos dias que antecederam as manifestações. Cruzando os dados, chegam aos culpados.

Surge na mente a dúvida pertinente: dá certo colocar policiais para fiscalizar outros policiais? Stéphanie declara: “meu trabalho é impedir que policiais infratores reincidam”, mas será que ela consegue isso mesmo? Para a camareira Alicia Mady a tentativa é falha, e ela denuncia a violência policial em sua comunidade e vai além: diz que “ninguém se interessa quando negros e árabes apanham” e que a investigação está sendo levada a cabo só porque a vítima era um rapaz branco. Como nenhum policial foi demitido por má conduta, Stéphanie tem de aceitar a denúncia e concordar com a falha do sistema.

Imagem: Autoral Filmes

Por focar em apenas um caso específico, “Caso 137” em alguns momentos se arrasta e a duração de quase duas horas não se justifica. O filme poderia ter optado por contar vários casos de violência policial, como faz e faz bem outro filme francês, “Polissia” de 2011.

Por “Caso 137” Léa Drucker ganhou seu segundo prêmio César de Melhor Atriz. Ela faz elogios à construção da personagem no roteiro de Gilles Marchand e do também diretor Dominik Moll:

“Achei a personagem muito comovente. Em uma situação de crise onde a violência dos relacionamentos parece destruir tudo, ela exala muita humanidade. E também inquietação. É o tipo de papel que não se encontra todos os dias. O filme levanta questões importantes sobre a sociedade sem ser moralista. E, ao ler o roteiro, já era possível sentir seu enorme poder cinematográfico”

O ex-marido de Stéphanie, também policial, a acusa de despertar o ódio contra a polícia e confiar mais em “vândalos” que nos colegas de profissão. Enquanto investiga casos de “violência deliberada causada por agente público”, ela se põe em risco também e isso serve de combustível para um belo monólogo perto do fim, que torna menos cruel a resignação que nos é empurrada goela abaixo.

NOTA 7 de 10

Caso do Césio-137

Caso do Césio-137
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