Do “périplo” nos programas de auditório ao megashow em Copacabana: como um plano de marketing de milhões e a imersão na cultura brasileira transformaram a colombiana em um fenômeno nacional.
Faltando pouco para a colombiana Shakira subir ao palco em Copacabana para um show gratuito, viralizou nas redes sociais um cartaz dos anos 1990 que mostra a cantora se apresentando no Brasil por apenas R$ 5. Na época, a média dos ingressos para atrações internacionais variava entre R$ 20 e R$ 25.
O show em questão aconteceu em Uberlândia, Minas Gerais, no dia 29 de agosto de 1997. O palco foi o Parque de Exposições Camaru, durante a 34ª Exposição Agropecuária da cidade. Embora o valor pareça irrisório, a correção para os dias atuais levaria o ingresso a aproximadamente R$ 43. Ainda assim, um contraste gritante com sua turnê mundial de 2025, que teve entradas a partir de R$ 440, podendo chegar a quase mil reais.

Não à toa, o anúncio de um megashow gratuito na Praia de Copacabana foi celebrado como a consolidação definitiva de Shakira como uma “embaixadora afetiva” do Brasil. São esperadas cerca de 2 milhões de pessoas para o evento.
O início da estratégia no Brasil
Naquele período, Shakira ainda não era a estrela loira conhecida mundialmente; ela se apresentava com seus icônicos cabelos pretos e longos. Uma fã que esteve no show de Uberlândia relatou que, apesar do preço baixo, a pista não estava lotada, já que a cantora ainda começava a ganhar notoriedade por aqui. O público era formado majoritariamente por jovens que já se encantavam com sua voz única.
Esse show de baixo custo não foi por acaso: fez parte de uma estratégia agressiva da Sony Music para introduzir Shakira no mercado brasileiro. Liderada pelo então diretor de marketing Luiz Calainho, a gravadora investiu cerca de US$ 2,8 milhões para transformar o Brasil no primeiro mercado internacional a impulsionar a carreira da artista.
Imersão cultural e o “périplo” na TV
O plano teve como alicerce a imersão cultural: Shakira dedicou-se a dominar o português já em 1996. Essa fluência permitiu uma presença massiva na mídia, realizando um verdadeiro “périplo” por programas icônicos como Hebe, Jô Soares Onze e Meia e Domingo Legal. A cantora demonstrava total disponibilidade, participando de quadros populares e aprendendo danças locais para conquistar a audiência.
Simultaneamente, a Sony garantiu a exposição sonora através de uma parceria inédita com a rádio Jovem Pan. Ao oferecer à emissora US$ 1 por cada disco vendido, a rádio tornou-se “sócia” do projeto, fazendo as faixas tocarem exaustivamente. Para sustentar o sucesso, o produto foi adaptado: o álbum Pies Descalzos ganhou uma edição especial com faixas em português e remixes produzidos pelo DJ Memê, garantindo espaço nas pistas de dança.
A interiorização e o varejo
A consolidação veio com a interiorização da turnê. Shakira percorreu cidades fora do circuito tradicional das capitais, como Bagé, Taubaté e Uberlândia, com ingressos simbólicos. Enquanto isso, executivos da gravadora garantiam que os CDs tivessem exposição privilegiada em grandes redes de varejo, como as Lojas Americanas. O resultado dessa sequência coordenada de carisma e marketing foi a venda de mais de um milhão de cópias, estabelecendo a cantora em um mercado historicamente difícil para artistas estrangeiros.
O momento histórico na Banheira do Gugu
Dentro dessa estratégia de proximidade, a participação de Shakira no quadro “A Banheira do Gugu”, na Páscoa de 1997, tornou-se histórica. Em uma exposição que seria impensável para uma estrela de seu calibre atual, a cantora atuou como jurada da competição.
Durante o episódio, Shakira mostrou versatilidade ao aceitar os desafios de Gugu Liberato: sambou, apresentou sua icônica dança do ventre e até arriscou a “dança da bundinha”, sucesso do grupo É o Tchan. Essa disposição em “dar a cara” em atrações populares foi o diferencial que permitiu a Shakira romper a barreira que costuma dificultar o êxito de artistas hispânicos no Brasil.








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