Se há alguém que conseguiu mudar radicalmente a visão que o mundo tinha em relação à sua pessoa, esse alguém é Sofia Coppola. Depois de ser duramente criticada em 1990 por sua atuação em “O Poderoso Chefão – Parte III” (dirigido pelo pai, Francis Ford Coppola), quando foi uma das peças-chave da trama, Sofia continuou atuando, mas voltou seus olhos para outras áreas, como a criação de roteiros e a direção. Assim, realizou em 1999 “As Virgens Suicidas”, baseado no livro de Jeffrey Eugenides, e se mostrou uma realizadora com muito potencial. O seu trabalho seguinte, “Encontros e Desencontros” (2003), foi responsável por dar uma novo fôlego para a carreira de Bill Murray e tornar popular o nome de Scarlett Johansson, além de ganhar diversos prêmios – o principal foi o Oscar de Melhor Roteiro (também escrito pela diretora) daquele ano. A partir daí, seus filmes passaram a ser aguardados com uma certa ansiedade pelos cinéfilos, mesmo nem todos satisfazendo completamente suas expectativas.

O que nos leva a seu mais recente projeto, “O Estranho Que Nós Amamos” (“The Beguiled”, 2017), uma nova versão do livro de Thomas Cullinan, que já tinha sido adaptado para o cinema em 1971 por Don Siegel e estrelado por Clint Eastwood. O novo filme reconta a história de uma forma bem diferente, mas não menos cativante e comprova que Sofia Coppola é, sim, uma das cineastas mais interessantes a surgir nos últimos anos. Seu trabalho mostra ainda mais maturidade e instiga o espectador com uma maneira bem peculiar de contar uma história, além de deixar claro a sua boa condução de seus atores, obtendo um ótimo resultado no fim das contas.

Ambientada na Virginia de 1864, três anos após o início da Guerra Civil nos Estados Unidos, a trama é centrada no cabo John McBurney (Colin Farrell), um soldado da União que acaba ferido e é salvo pela pequena Amy (Oona Laurence), que o leva para a escola interna onde vive, que é gerenciada por Martha Farnsworth (Nicole Kidman). As mulheres que estão no local decidem cuidar de John, para que ele se recupere e possa ser entregue às autoridades. Mas a chegada do forasteiro acaba despertando sentimentos conflituosos entre elas, especialmente na recatada Edwina (Kirsten Dunst) e a provocante Alicia (Elle Fanning), criando um jogo de sedução e intrigas que geram situações cada vez mais tensas e marcantes para todos.

O que torna “O Estranho Que Nós Amamos” um filme acima da média é a forma encontrada por Sofia Coppola para estruturar sua narrativa. A cineasta lança mão de uma fotografia belíssima (assinada por Philippe Le Sourd), que reforça a sensação de isolamento das personagens durante a guerra, usando uma iluminação que dá ênfase ao uso de velas, onde o claro e o escuro dos ambientes internos da escola enfatizam o tom sépia, que além de dar um aspecto envelhecido, também serve como alegoria das contradições sentidas pelos personagens. Além disso, a diretora também se vale de enquadramentos fora do convencional nas cenas externas para dar um clima de sonho, principalmente ao mostrar árvores retorcidas que aparecem nas terras do internato. Esses elementos ajudam a dar ao filme uma certa estranheza que acaba seduzindo os olhos do espectador.

Outro destaque está no roteiro, também escrito pela diretora. O texto trabalha, de maneira delicada, os conflitos criados pela chegada de John a um universo completamente formado por mulheres e como lidar com eles. Num período em que o empoderamento feminino está cada vez mais sendo discutido, é interessante notar que a realizadora usou uma história de época para tratar de assuntos mais atuais do que nunca e fazendo (principalmente) o público feminino se identificar com seus questionamentos à medida que a trama avança. Embora Sofia tenha optado em cortar uma personagem essencial para a trama (a escrava Hallie, por achar que a questão da escravidão merecia um tratamento mais profundo), a história não se torna menos interessante por essa decisão.

À frente do ótimo elenco, Colin Farrell tem uma boa performance como John McBurney. O ator é bastante convincente ao passar a ambiguidade de seu personagem, que se mostra pacífico e simpático em alguns momentos e, em outros, aparece como alguém sedutor (na medida certa) e até mesmo ameaçador com suas segundas intenções. Nicole Kidman mostra que, após uma série de trabalhos pouco inspirados, está voltando aos seus melhores momentos desde o ano passado, quando foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Lion”. Ela consegue transmitir bem a insegurança da Sra. Farnsworth, que vai aos poucos dando lugar a uma frieza que nem mesmo ela consegue compreender totalmente, devido aos acontecimentos.

Que realmente se destaca, no entanto, é a dupla formada por Kirsten Dunst e Elle Fanning. Enquanto Dunst cativa pelos seus gestos contidos, que vão lentamente mudando e revelando sua verdadeira personalidade, Fanning enfatiza a lascívia que sua Alicia possui através de seu olhar mais provocante, já que é uma jovem que está na fase em que se descobre como mulher. A menina Oona Laurence, assim como as adolescentes Angourie Rice (a Betty Brant de “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”) e Addison Riecke, transmite adequadamente o fim de sua inocência após a tensão constante que surge na escola com o surgimento de John, resultando em mais um bom trabalho em sua carreira.

Vencedor do prêmio de Melhor Direção do Festival de Cannes 2017 (o segundo dado a uma mulher em toda a sua história), “O Estranho Que Nós Amamos” confirma o talento de Sofia Coppola como cineasta e roteirista, especialmente para aqueles que acharam que ela não iria muito longe no cinema. Sua visão pessoal para fazer filmes deve ser festejada por todos os que curtem a sétima arte e merece ser cada vez mais conhecida e respeitada. Embora talvez não tenha o mesmo impacto que a versão estrelada por Eastwood, esta nova produção vale para mostrar que uma mesma história tem várias visões e uma pode complementar a outra e manter o mesmo fascínio. Ainda bem.

Filme: O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled)
Direção: Sofia Coppola
Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning, Oona Laurence
Gênero: Drama
País: Estados Unidos
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Universal Pictures
Duração: 1h 33min
Classificação: 14 anos