Quando foi lançado em 1996, “Trainspotting – Sem Limites” causou um verdadeiro impacto na cultura pop daquela época, sendo inclusive chamado de o “novo Laranja Mecânica” (um certo exagero, é verdade) e ainda é considerado relevante até hoje. Tudo isso graças um ótimo roteiro, inspirado no livro de Irvine Welsh (lançado no Brasil pela Editora Rocco), uma trilha sonora arrasadora, cujos principais destaques foram a clássica ‘Lust for Life’ (interpretada por Iggy Pop) e ‘Born Slippy’ (Underwood), um elenco irrepreensível, mas principalmente pela impecável direção de Danny Boyle, que confirmou o seu talento após o sensacional thriller “Cova Rasa” e, mais tarde, se consagrou com diversos projetos, que culminaram com o Oscar por seu trabalho em “Quem Quer Ser um Milionário” em 2009.

Mas muitos fãs queriam que Boyle retornasse ao universo de Welsh e seus personagens amorais, mas ao mesmo tempo cativantes. Após muitas indas e vindas, mais de vinte anos depois, finalmente foi lançada a continuação “T2 Trainspotting” (“T2 Trainspotting”, 2017), que reúne todo o elenco principal do primeiro filme e boa parte da equipe que trabalhou por trás das câmeras na produção anterior. O resultado final é uma boa sequência, que conta com um humor bem inspirado e situações que vão deixar os nostálgicos felizes da vida. No entanto, não inova muito em relação ao que já fora feito antes, o que a deixa inferior à obra original.

Na trama, vemos que Mark Renton (Ewan McGregor), depois de viver anos na Holanda com o dinheiro que roubou de uma negociação de venda de drogas (vista no filme anterior), entra em crise e decide voltar a Edimburgo, na Escócia, sua cidade natal. Chegando lá, ele reencontra seus ex-parceiros “Sick Boy” Simon (Jonny Lee Miller), que vive aplicando golpes e chantagens ao lado da prostituta Veronika (Anjela Nedyalkova), e Spud (Ewen Bremner), que se separou da esposa e perdeu o direito de ver o filho por causa do seu vício em drogas. Disposto a recuperar a energia e a vitalidade do passado, Mark acaba aceitando ajudar Sick Boy a construir uma casa de massagens na zona portuária da cidade. Ao mesmo tempo, o explosivo Begbie (Robert Carlyle) consegue fugir da prisão e deseja se vingar do ex-amigo que lhe passou a perna há 21 anos atrás, o que resulta em um inevitável ajuste de contas envolvendo os quatro companheiros.

O que torna “T2 Trainspotting” uma ótima experiência é como Boyle trata com carinho seus quatro protagonistas, revelando seus lados mais humanos já que todos se encontram numa verdadeira encruzilhada, em busca de algo que se perdeu neste intervalo de duas décadas e eles estão ávidos para recuperar. O cineasta mostra que não perdeu a mão e cria sequências interessantes, como a que envolve uma perseguição que começa num banheiro e culmina num estacionamento, que remete a um dos momentos mais icônicos do primeiro filme.

Outro aspecto notável está na espetacular fotografia de Anthony Dod Mantle, habitual colaborador de Boyle, que cria imagens realmente incríveis com enquadramentos inusitados, além de utilizar a iluminação de forma bastante criativa, como num momento em que usa sombras para marcar a presença de uma pessoa que já faleceu (não será dito quem é aqui para evitar spoilers).

O roteiro de John Hodge (responsável também pelo texto do primeiro) se baseia, levemente, no livros “Trainspotting” e “Porno”, que Irvine Welsh escreveu como a continuação oficial das histórias de Mark e seus amigos, e trabalha muito bem o desenvolvimento de seus protagonistas. Eles nunca são mostrados como pessoas inverossímeis e superficiais, o que cativa o espectador a acompanhar a jornada do quarteto. A parte mais comovente é mesmo a de Spud, que surge como um homem entregue a seus vícios e procura, de alguma forma, obter alguma dignidade para que seu filho consiga se orgulhar dele.

Hodge só peca em realizar uma sequência com Mark e Sick Boy num bar que lembra muito uma cena célebre de “Uma Noite de Aventuras”, clássico da Sessão da Tarde dirigido por Chris Columbus (“Esqueceram de Mim”, “Uma Babá Quase Perfeita”, os dois primeiros “Harry Potter”). Além disso, o roteirista não é muito feliz nas reviravoltas da trama, que são facilmente descobertas por quem for bastante atento ao que está acontecendo na telona. Outro problema do filme está no ritmo irregular, já que há alguns momentos da história que são resolvidos rapidamente, em detrimento de outros que demoram a terminar. A questão das drogas, um dos carros-chefe do primeiro filme, não é tão evidenciada aqui, até porque sente-se que não era a proposta original com a continuação. Mesmo assim, é um deleite rever personagens tão carismáticos quanto esses criados por Welsh.

O filme também não funcionaria se o elenco principal não tivesse se entregado aos seus papéis. Ewan McGregor (que se “reconciliou” com Boyle após anos brigado com ele por ter sido trocado por Leonardo DiCaprio para estrelar “A Praia”) convence ao colocar um cansaço e um peso na consciência em Mark, tornando crível sua vontade em voltar aos velhos tempos. Jonny Lee Miller também se sai bem ao mostrar a melancolia misturada com a arrogância e a amoralidade de Sick Boy, especialmente nos momentos que mostra que ainda não aceitou a traição do melhor amigo no passado. Ewen Bremner se torna o principal destaque do grupo por preservar parte do jeito ingênuo e atrapalhado de Spud, misturado com a tristeza pelos erros cometidos em vinte anos e o preço que tem que pagar por eles.

Robert Carlyle continua a impressionar com a selvageria que imprime em sua performance como Begbie, deixando-o realmente com uma pessoa que todos devem temer. É uma pena, no entanto, o pouquíssimo aproveitamento de Kelly Macdonald, que volta como Diane, ex-namorada de Mark, mas não faz muita diferença na trama. A ótima atriz poderia ter mais tempo de tela para que certas questões envolvendo sua personagem fossem melhor exploradas. A búlgara Anjela Nedyalkova acaba se tornando o principal nome feminino do elenco e desenvolve uma boa parceria com McGregor, Miller e Bremner, fazendo com que Veronika seja interessante e mais do que um simples enfeite.

Com uma trilha sonora tão boa quanto a do filme original (composta de clássicos pop de grupos como Queen, The Clash e Frankie Goes To Hollywood, além de novas versões de ‘Lust For Life’ e ‘Born Slippy’, e outros artistas mais recentes) “T2 Trainspotting” serve para satisfazer a vontade do público em ver o que aconteceu com os personagens do primeiro filme depois de tanto tempo. Embora não tenha momentos marcantes, como a do banheiro mais sujo da Escócia (visto na primeira parte), esta continuação pelo menos é bastante digna e deve alegrar o público em geral. Mesmo com a sensação agridoce que a produção proporciona após quase duas horas de projeção.

Filme: “T2 Trainspotting” (Idem)
Direção: Danny Boyle
Elenco: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle, Anjela Nedyalkova, Kelly Macdonald
Gênero: Drama, Comédia
País: Reino Unido
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Sony Pictures/Tri-Star Pictures
Duração: 1h 57min
Classificação: 16 anos