O cinema e o teatro possuem uma relação intrínseca que já dura décadas. Afinal, não são poucos os casos em que uma peça deixou os palcos para conquistar mais público na telona e vice-versa. Sejam dramas, comédias ou musicais, são diversas as adaptações que surgem a cada ano que passa. Mas como fazer com que um filme desse a impressão de estarmos diante de um espetáculo teatral sem perder as suas características cinematográficas? Este desafio foi encarado pelo ator, produtor e diretor bissexto Denzel Washington, que decidiu fazer a sua versão de um texto de August Wilson vencedor de prêmios como o Pulitzer e o Tony (que ele já tinha encenado na Broadway), com uma maior amplitude do universo criado do autor. Assim, “Um Limite Entre Nós” (“Fences”, 2016) resulta numa obra complexa, mas ao mesmo tempo atraente, graças principalmente ao seu roteiro e à entrega de seus atores, com destaque para o trabalho dos dois principais nomes do elenco.

Ambientada na década de 1950, a trama se passa em Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde vive Troy Maxton (Denzel Washington), que trabalha coletando lixo (entre outros serviços) ao lado do amigo Bono (Stephen Mckinley), para garantir o sustento da família, constituída pela esposa Rose (Viola Davis) e o filho Cory (Jovan Adepo). Troy ainda lida com Lyons (Russel Hornsby), filho de outro relacionamento, e que passa por dificuldades financeiras ao tentar ter uma carreira como músico, além do irmão Gabriel (Mykelti Williamson), que possui problemas mentais. Por se considerar o chefe da casa, Troy usa sua retórica para se manter acima dos outros, mesmo que suas opiniões não agradem totalmente. Só que quando Cory, após uma tentativa frustrada no futebol, decide se tornar um jogador de beisebol, um sonho antigo de seu pai, os conflitos crescem de forma intensa e afetam a vida de todos.

“Um Limite Entre Nós” não esconde, em nenhum momento, sua origem teatral. Desde a montagem até os enquadramentos escolhidos pelo diretor, tudo transmite ao público que a ideia era transpor a peça para o cinema com as mínimas alterações necessárias. Tanto que um espectador mais atento irá notar onde começam e onde terminam os “atos” da história. Ao mesmo tempo, o filme procura criar um vigor cinematográfico, calcado no roteiro (também escrito por August Wilson), com uma escrita impecável, mas também densa e com muitos momentos para que os atores possam ter solos para brilhar em algumas cenas. No entanto, quem não estiver disposto a embarcar na proposta pode até se sentir deslocado e entediado por causa da intensa verborragia que ocorre em vários momentos. Porém, o talento de todos os envolvidos mantém a fascinação e os olhos grudados na tela para os que forem atraídos pela ideia apresentada.

E nada causa mais fascínio em “Um Limite Entre Nós” do que as interpretações de seu conciso, porém notável, elenco. Denzel Washington não precisa provar nada para ninguém de que é um dos melhores atores em atividade no mundo. Mas o que ele faz com seu Troy Maxton é algo que surpreende até quem já está acostumado com suas incríveis performances. Além de se mostrar dono de uma incrível memória, já que tem falas quilométricas que são feitas em longos planos sem cortes, Washington impressiona por trabalhar como poucos as contradições de seu personagem, um homem que procura ser íntegro e superar dificuldades como o preconceito racial da época, mas que não mede esforços para impor sua vontade com mão de ferro sobre a esposa e os filhos, mesmo quando percebe estar errado. Se o Oscar fosse para ele (perdeu para Casey Affleck por “Manchester à Beira-Mar”), seria o terceiro de sua carreira e mais do que justo.

Viola Davis, que vive a amargurada, porém resignada, Rose, rouba todas as cenas que aparece e coroa de vez a ótima fase que vive em sua carreira. Tanto que, embora seja tão protagonista quanto Washington, mereceu o Oscar e todos os outros prêmios que ganhou como Melhor Atriz Coadjuvante. Os melhores momentos do filme são justamente os embates que ela tem com o marido sobre o que a vida fez com seus sonhos e desejos, resultando em sequências verdadeiramente eletrizantes. O veterano Stephen Mckinley esbanja simpatia e carisma como Bono, enquanto Russel Hornsby e o novato Jovan Adepo se saem muito bem como os filhos do protagonista. Já Mykelti Williamson faz um papel que lembra um pouco o Bubba de “Forrest Gump – O Contador de Histórias”, que ele também interpretou, mas não compromete.

“Um Limite Entre Nós” é uma experiência que pode absorver o espectador, mesmo para quem não está muito familiarizado com a linguagem teatral. Embora ainda seja melhor ator do que diretor, Denzel Washington foi muito feliz com esse projeto e conseguiu cumprir bem o seu objetivo de levar um grande texto para o cinema e contou com ótimos artistas para lhe dar apoio. No fim das contas, é um filme que pode reverberar na mente das pessoas por muito tempo ao final da sessão.

Filme: “Um Limite Entre Nós” (Fences)
Direção: Denzel Washington
Elenco: Denzel Washington, Viola Davis, Jovan Adepo, Stephen Mckinley, Mykelti Williamson, Russel Hornsby
Gênero: Drama
País: EUA
Ano de produção: 2016
Distribuidora: Paramount Pictures
Duração: 2h 19min
Classificação: 12 anos

  • Marcelo Alvim Tchelos

    Achei um bom filme, achei triste demais e isso me incomoda em cinema, gosto de ver os dramas, mas gosto de ter as viagens do cinema, para deixar a gente bem qdo sair da cineviagem, por aiiiiiiiiiiiiiii

    • Cesar Monteiro

      Hahaha, até te entendo. Mas esse é um filmaço de atuações

    • Cesar Monteiro

      Hahaha, até entendo. Mas esse é um filmaço, mais pelas atuações