Ao que parece, os realizadores da franquia “Velozes e Furiosos” descobriram a fórmula certa para manter o fôlego e o interesse do público, mesmo com tantas sequências. Afinal, não é qualquer franquia que ultrapassa os três primeiros capítulos, se reinventa e se torna capaz de conquistar até mesmo o mais cético dos espectadores, tornando a série uma das mais divertidas do momento no cinema, graças a tramas rocambolescas e suas sequências de ação que, de tão absurdas, garantem um entretenimento que não era visto desde que Pierce Brosnan deixou de ser aquele espião britânico com licença para matar.

Assim, “Velozes e Furiosos 8” (“The Fate of the Furious”) se revela mais um acerto da franquia, pois traz tudo (e mais um pouco) do que os fãs querem ver: carrões participando de cenas de corrida e perseguições incríveis, muito bom humor e, especialmente, momentos absolutamente nonsense que deixam a lógica de lado e, ainda assim, empolgam e fazem rir. Além disso, essa sequência é beneficiada por duas ótimas adições (e uma nem tanto) ao elenco que garantem a diversão, ao mesmo tempo que dão ao filme uma “legitimidade” que não se encontra em muito candidato a blockbuster que Hollywood lança todo o ano.

A trama mostra que, após um período sabático em Cuba, onde resolve ter uma lua de mel com Letty (Michelle Rodriguez), Dominic Toretto (Vin Diesel) é novamente chamado para, junto com seus amigos, participar de uma operação ao lado do agente Luke Dobbs (Dwayne Johnson) na Alemanha e adquirir um equipamento valioso para a CIA. O que ninguém esperava é que Dom traísse seus companheiros e roubasse a peça para entregá-la a Cipher (Charlize Theron), uma perigosa especialista em terrorismo de alta tecnologia. Após o impacto inicial, Dobbs, Letty e o resto da turma voltam a se reunir com o Sr. Ninguém (Kurt Russell), que pede para o grupo impedir os planos de Cipher e de seu novo parceiro de crimes e forja uma inusitada aliança com Deckard Shaw (Jason Statham), que quase acabou com a Família no filme anterior.

O que impera em “Velozes e Furiosos 8” é a diversão escapista levada a um nível tão inacreditável que todo e qualquer absurdo é perdoado em nome do entretenimento puro. Assim, quem passou a gostar da franquia a partir do sexto episódio (e ainda o melhor da franquia), onde todas as amarras da verossimilhança foram soltas de vez, vai se sentir confortável com tudo que surge na telona, por mais surreal que seja. O diretor F. Gary Gray, que já tinha experiência em comandar cenas de ação envolvendo veículos com o divertido “Uma saída de mestre” (2003) e vinha do ótimo Straight Outta Compton – A História do N.W.A.”, mantém o nível dos filmes anteriores e cumpre o esperado em realizar momentos que superam tudo o que já tinha sido visto anteriormente na série.

Assim, o cineasta cria momentos mirabolantes, como uma perseguição pelas ruas de Nova York envolvendo “carros-zumbi” que até lembra algumas produções recentes do terror como “Guerra Mundial Z” e o desfecho da trama na Rússia onde entra até um submarino (!) para atrapalhar a vida dos anti-heróis. Escrever mais sobre isso estragaria a surpresa, mas certamente vai deixar muita gente vibrando e de queixo caído no cinema. Outro destaque está nas cenas de luta, especialmente as que envolvem o personagem de Dwayne Johnson, que aqui aparece como um ser sobre-humano e praticamente imbatível de uma maneira tão exagerada que não tem como não soltar gargalhadas em alto e bom som.

O calcanhar de Aquiles de “Velozes e Furiosos 8”, no entanto, está no roteiro escrito por Chris Morgan, responsável pelo texto desde “Velozes e Furiosos – Desafio em Tóquio”. Nem tanto pelas sequências de ação, que continuam divertidas e alucinantes. Mas pelo fato de que o roteirista, sem a menor cerimônia, transforma vilões em mocinhos de uma maneira mais absurda do que qualquer malabarismo que os veículos fazem no filme. Isso tira um pouco da graça, já que o espectador tem que aceitar que um personagem como o de Statham, já estabelecido como um bicho papão em “Velozes e Furiosos 7”, mude completamente de atitude e pensamentos. Mas, pelo menos, Morgan acerta ao desenvolver melhor o humor dos coadjuvantes, como Roman (Tyrese Gibson), que arranca risos do espectador ao tentar se livrar de situações bem arriscadas sempre com uma frase divertida.

No (cada vez mais) extenso elenco, os atores já conhecidos da série não têm grandes atuações e fazem praticamente o que já fizeram antes. O que realmente chama a atenção e rouba todas as cenas é mesmo Charlize Theron, que parece estar se especializando em fazer vilãs. Desta vez, ao contrário da histérica Rainha Má de “Branca de Neve e o Caçador”, Theron mantém a voz baixa e controlada em praticamente todo o filme e, ao contrário dos antagonistas vistos anteriormente na série, usa a mente e não os músculos para conseguir o que quer e, ainda assim, ser tão (ou mais) intimidadora quanto os outros nêmesis que já surgiram.

A vencedora do Oscar por “Monster: Desejo Assassino” (2003) chama a atenção ao fazer um interessante trabalho com o seu olhar psicótico que mostra o quão perigosa e persuasiva sua Cipher é. Outro destaque é a participação da também oscarizável Helen Mirren, que vive uma misteriosa personagem que entra no caminho de Dom e de seus amigos, mostrando uma pouco vista veia cômica e dando vontade de vê-la mais no futuro. O ponto baixo do elenco é Scott Eastwood, que entra para a série como Ninguém Jr, assistente do Sr. Ninguém, e consegue ser mais canastrão e sem graça do que todos os atores juntos.

Com mais uma bela homenagem para o falecido Paul Walker, “Velozes e Furiosos 8” se revela como mais um bom capítulo da milionária franquia que não mostra ainda vontade de pisar no freio. O filme é, certamente, um dos mais divertidos lançados este ano e vai fazer a alegria de todos os admiradores da série, que não se decepcionarão e vibrarão como crianças no escurinho do cinema. Resta saber qual vai ser a próxima loucura que estão planejando para a próxima continuação. Ou você acha que eles vão parar por aqui?

Filme: “Velozes e Furiosos 8” (The Fate of The Furious)
Direção: F. Gary Gray
Elenco: Vin Diesel, Dwayne Johnson, Charlize Theron, Michelle Rodriguez, Kurt Russell, Jason Statham
Gênero: Ação
País: EUA
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Universal Pictures
Duração: 2h 16min
Classificação: 12 anos