Literatura

“A definição do amor”, de Jorge Reis-Sá

As palavras na orelha do livro prometem um “desfecho desconcertante”. E a vontade de devorar “A definição do amor” só aumenta. Mas este não é um livro fast-food para ser devorado, e sim um fino espécime literário para ser apreciado aos poucos, capítulo por capítulo. A fome ao fim é saciada, mas a leitura rápida pode nos impedir de saborear todos os ingredientes do romance.

Num mundo perfeito das redes sociais e de anúncios hiper-fofos de gravidez no Facebook, é fácil se esquecer de que a vida não é um mar de rosas. E, quando nos esquecemos disto, um pouquinho da nossa empatia morre. Francisco Janela, protagonista e muitas vezes narrador, tinha uma vida boa, mas agora ela está longe de ser perfeita. Sua esposa, Susana, sofreu um AVC. Chegando ao hospital, dois diagnósticos chocantes: ela tinha morte cerebral… e estava grávida. Foi a gravidez a causadora do AVC, e será ela também o que obrigará o hospital a mantê-la viva.

A escolha da equipe médica foi manter Susana ligada aos aparelhos até o bebê nascer. Sim, uma gravidez inteira passada em uma cama de hospital, se alimentando por sonda, sem consciência de nada. O que você faria se estivesse na situação de Francisco? Aposto que você nunca pensou nisso. E se colocar no lugar dele é um exercício de empatia, mesmo que isso traga também sofrimento.

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Francisco decide escrever um diário, e começa dizendo que o dia em Susana teve o AVC foi o dia em que ele envelheceu sua vida inteira. Francisco, naturalmente, convive com sentimentos confusos. Ele não sabe como lidar com a morte ainda não consumada, mas já confirmada, da mulher que ama. Ele deixa o filho pequeno com seus pais para que possa organizar sua vida e seus pensamentos. Ele não sabe se terá raiva da filha que ainda não nasceu, mas que sem querer foi responsável pela morte da mãe. Como você se sentiria no lugar dele?

No começo de cada uma das grandes sessões do livro temos cartas, escritas há um bom tempo por pessoas da pequena cidade de Francisco, mostrando pecados escondidos. Não sabemos como estas cartas e estes personagens se relacionam até chegarmos ao fim do livro, mas, ao descobrirmos, a vontade é clamar por um novo livro apenas com estas histórias paralelas.

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“A definição do amor” não é um livro que vai agradar a todos. É triste, é reflexivo, é de torcer os neurônios. É daqueles livros que parecem que saíram de moda, que você lê e depois fica um tempão olhando para o horizonte e refletindo sobre o que acabou de ler. E é um livro que eu gostaria de ter escrito. Acredite: este é o maior elogio que eu posso escrever sobre um livro. Parabéns ao autor, Jorge Reis-Sá. Que a ousadia volte a ser moda na literatura.

Leia também:

“Três perguntas para o autor”.         

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