Um jovem médico casado descobre uma sereia e cede ao seu pedido para ser levado para conhecer Londres.

Miranda foi o pioneiro entre os filmes de sereias. Dirigido por Ken Annakin (1914-2009) para o estúdio da Gainsborough Pictures. Este longa britânico estreou em maio de 1948, e apenas alguns meses depois, em agosto do mesmo ano, Hollywood reagiu com sua própria versão, intitulada Mr. Peabody and the Mermaid (1948). Notavelmente, “Peabody” parece ser uma tentativa descarada de imitar Miranda, dada a notável semelhança entre as tramas dos dois filmes. Ambos giram em torno de um homem casado que encontra uma sereia e enfrenta uma série de desafios e mal-entendidos devido aos modos de espírito livre da sereia.
Mas há uma estória por trás disso tudo, a produção de Miranda foi apressada para vencer o americano Mr Peabody and the Mermaid. O chefe do estúdio da Gainsborough Pictures, Sydney Box (1907-1983), demitiu o diretor original Michael Chorlton (1913-1951) depois de menos de duas semanas de filmagem, odiando sua filmagem em grande angular e foco profundo. Annakin assumiu com apenas três dias para se preparar.
Desde então, o filme de sereia se tornou regular na indústria cinematográfica. Geralmente é coisa de comédia leve – Splash: Uma sereia na minha vida (1984) e As Travessuras de Uma Sereia (2016), ou entretenimento familiar – A Pequena Sereia (1989), Barbie Mermaidia (2006), A Pequena Sereia (2018 e 2023) – e Jovem Adulto como em Aquamarine (2006). Nos últimos anos, o filme da sereia tornou-se mais sombrio e adulto, sem mais obras familiares como A Criatura da Destruição (2001), Charlotte’s Song (2015), A Atração (2015), Little Mermaid (2016) e A Maldição da Sereia (2019).
No caso de Miranda e Mr. Peabody, ambos apresentam um protagonista masculino casado, e suas tramas giram em torno da ideia de infidelidade conjugal, embora não a assumam diretamente. São filmes que exploram a fantasia da Manic Pixie Dream Girl (em tradução livre: “garota maníaca fada dos sonhos”) – alguém de espírito livre, caprichoso e brincalhão, desafiando as convenções sociais. As sereias proporcionam ao homem casado a fantasia de se envolver com essa figura, ao mesmo tempo em que retratam sua hesitação e as muitas situações cômicas que surgem quando sua esposa e outros personagens estão claramente alheios ao que está acontecendo.

A atuação de Glynis Johns como Miranda é tímida e sedutora, mesmo numa cadeira de rodas, para disfarçar sua cauda. Grande parte da trama gira em torno do efeito que ela tem não apenas no casado Griffith Jones (1909-2007), mas também em seu amigo noivo, John McCallum (1918-2020) e no criado de Jones (um jovem David Tomlinson (1917-2000), ambos felizes em abandonar suas respectivas noivas por ela no decorrer dos acontecimentos.

Miranda é um romance de fantasia memorável e efervescente da era de ouro da Grã-Bretanha. A comédia é divertida e maravilhosamente discreta no diálogo lúdico de Peter Blackmore (1909-1984), que co-adapta sua própria peça de sucesso, escrevendo o roteiro com Denis Waldock (1908-1956). Blackmore escreveu a peça depois de ler um artigo científico sobre sereias. Mad About Men (1954) foi uma sequência com Glynis Johns retornando como Miranda e outro roteiro de Peter Blackmore.

Grande parte da diversão vem das reações de Glynis Johns às coisas cotidianas. Ao ver Googie Withers acender um cigarro, ela pergunta: “Você sempre tem que cozinhá-lo ou pode comê-lo cru?” Há também muitos trocadilhos feitos por toda parte – muitas variantes de “há algo muito suspeito nisso” e coisas do gênero.
O melhor desempenho vem da incomparável Margaret Rutherford (1892-1972), alegre como a enfermeira idosa que sempre acreditou na existência de criaturas mágicas como as sereias. Com um final divertido e intrigante, Miranda é um dos destaques do cinema britânico dos anos 1940 e dá para assistir no youtube, no original.
Homenagem Póstuma: Glynis Johns (1923-2024)

Glynis Margaret Payne Johns, a atriz britânica que interpretou a sereia Miranda e por mais de 60 anos trabalhou em diversas produções no palco e na tela morreu em 4 de janeiro aos 100 anos, numa casa de repouso. Ela foi uma das últimas grandes estrelas sobreviventes da Era de Ouro de Hollywood e dos anos clássicos do cinema britânico. Multitalentosa, Glynis teve trabalhos como atriz, dançarina, pianista e cantora.
Nascida em 5 de outubro de 1923 na África do Sul, filha do ator galês Mervyn Johns e da pianista clássica Alys Maude Steele-Payne, Com apenas três semanas de idade, foi levada aos palcos de Londres por sua avó, Elizabeth Steele-Payne, uma empresária do ramo do teatro. E o teatro foi sua casa pelos anos 1930, até chegar às telonas, com 15 anos de idade no filme Abnegação (1938), interpretando uma ousada menina, filha de um político.


Após sua estreia, a atriz fez em média um filme e meio por ano ao longo do final dos anos 1930 e por toda a década de 1940, entre os quais destacamos: O Ladrão de Bagdá (1940), Invasão de Bárbaros (1941) que lhe rendeu um prêmio de melhor atuação; o papel da lutadora da resistência romena Paula Palacek em As Aventuras de Tartu (1943); a estalajadeira sobrenatural Gwyneth (ao lado de seu pai, Mervyn Johns) no drama The Halfway House (1944); e a prima divertida, Dizzy Clayton, de Deborah Kerr (1921-2007) em Longe dos Olhos (1945), no qual ela fazia parte de um elenco muito talentoso, incluindo Kerr e Roger Moore (1927-2017).
Papéis coadjuvantes que levaram ao protagonismo como na comédia Este Homem é Meu (1946), em Frieda (1947), Um Marido Ideal (1947), Miranda (1948), entre outros.

Na década de 1950 se consagra em diversos filmes e estreia na televisão, para citar alguns Segredos de Estado (1950), ao lado de Douglas Fairbanks Jr. (1909-2000) e Jack Hawkins (1910-1973); Johns apareceu ao lado de James Stewart (1908-1997) e Marlene Dietrich (1901-1992) em Na Estrada do Céu (1951); A Caixa Mágica (1951), Ação Fulminante (1951), As Voltas com 3 Mulheres (1952) com Alec Guinness (1914-2000); Entre a Espada e a Rosa (1953) e O Grande Rebelde (1953); Pecadoras Inocentes, Terra da Sedução, Náufragos da Vida, todos de 1954 e A Volta ao mundo em 80 dias (1956).

Mas Glynis Johns fico mais conhecida por seu papel como a mãe sufragista Winifred Banks em Mary Poppins (1964).

Mais tarde, ela foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por seu papel no filme de 1960, Peregrino da Esperança. Ela também fez aparições frequentes na TV, inclusive em Batman (1966), como a vilã Lady Penelope Peasoup, metade da dupla maligna com Rudy Vallée como seu irmão Lord Marmaduke Ffogg (foto abaixo) e estrelou sua própria sitcom Glynis na televisão dos EUA em 1963.

Seus últimos papéis como atriz foram no filme de 1995, Enquanto você dormia, com Sandra Bullock (foto abaixo), e no filme de 1999, Superstar: Despenca uma Estrela, estrelado por Molly Shannon e Will Ferrell.

Ela se aposentou nos EUA e passou seus últimos anos em uma casa de repouso em Hollywood, onde morreu pacificamente

Casada e divorciada quatro vezes, seu primeiro marido, Anthony Forwood , é pai de seu único filho, Gareth Forwood (1945-2007); seu segundo marido, David Ramsey Foster, foi um herói da Segunda Guerra Mundial que se tornou presidente da Colgate Palmolive International; o casamento com o terceiro marido, Cecil Peter L. Henderson, terminou depois de um ano; e o quarto marido, Elliot Arnold, escritor e ensaísta, escreveu “A Night of Watching”, “Camp Grant Massacre” e “Personal Combat”.
A atriz deixa seu neto, o roteirista e museólogo Thomas Forwood, que mora em Paris, e seus três bisnetos. Descanse em paz.









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