Por Ana Paula Couto*
Pegou as chaves, apagou as luzes e saiu, mas não sem antes olhar para o espelho. O som que a porta fez no batente a assustou. Aquela passagem, agora trancada, guardava um local no qual ela não queria mais voltar. Não, ela não voltaria mais ali, não podia mais, não mais. Estava deixando muito para trás. Na verdade, um pedaço dela havia ficado dentro daquele estúdio. E deixar para trás, mesmo que fosse uma pequena porção de si, seria difícil, mesmo que fosse pequena, mas não era. Como viveria sem dançar? Não sabia, porém não conseguia mais viver daquele jeito. Precisava respirar.
Enquanto caminhava pela calçada, com suas passadas de bailarina, nem se dava conta da chuva miúda que molhava seu cabelo preso na tiara. Lembrou-se de que sempre fora reconhecida por sua peculiar forma de andar e isso a fez sorrir, afinal ela nem notara as transformações esculpidas pelo tempo. Os corpos das bailarinas, desde muito cedo, são talhados e moldados. Seus movimentos as denunciam onde quer que estejam. Era bailarina, não havia como esconder.
O que mais a encantava, no ofício da dança, era também o que mais a assustava. O corpo belo, sozinho dançava, rodava e dava piruetas. Como ela amava dançar em frente ao espelho. O estúdio era repleto deles. Diziam ser essencial tê-los para melhorar sua performance. A cada novo rodopio, lá estavam os espelhos a denunciar o plié incompleto, o joelho não flexionado corretamente, a perna não estendida, o movimento sem acabamento limpo ou a silhueta mais avantajada. Silhueta avantajada. Foi o que ouviu quando as mudanças começaram a aparecer em seu corpo na adolescência.
Ela era bailarina e amava ser. Aos cinco anos de idade iniciou as aulas de ballet clássico. Sentia-se feliz naquele recanto com o seu collant cor-de-rosa, as suas sapatilhas com fitas e o seu coque arrumado. Nessa época tudo era bom. Ela era amiga de todos, até dos espelhos. As aulas, mesmo longas, eram leves. E ela sempre saía sorridente e serelepe.
Ainda sob a chuva, continuou caminhando, buscando em suas memórias descobrir quando os espelhos passaram a ser seus inimigos. Não conseguia identificar uma linha de tempo em que mostrasse quando tudo começou a ficar diferente. Um diferente que ela não gostava. Não lembrava. Só se recordava de que, o que antes era divertido, havia perdido a graça.
As aulas passaram a ser diárias e mais extensas. Havia dias que duravam mais de duas horas. Nas vésperas das apresentações ou nos testes de elenco, os ensaios eram feitos de manhã e à tarde. O espelho, que antes mostrava o quão bela ela se sentia dentro de seu corpo de bailarina, passou a mostrar saliências e protuberâncias. Uma bailarina tinha que ser esguia e longilínea. Sua silhueta estava avantajada. Ela ouvia.
Não havia o que discutir contra o que dizia o espelho. Era só olhar e seguir as regras. Mais ensaios, mais alongamentos, mais dedicação, mais entrega e, claro, menos peso. Não importava se seu corpo estava mudando naturalmente. Ela não era mais uma meninota. Seus peitos e quadris brotaram e não se encaixavam na imagem que se refletia em seus exercícios na barra. Todo dia, por anos e anos, ouviu que precisava se esforçar mais, já que seu biotipo não estava no padrão. Seria difícil ser a primeira bailarina no corpo de baile, mas se se esforçasse um pouco mais, quem sabe?
Ela era bailarina e não desistiria de ser. Dietas, treinos aeróbicos e boca fechada para manter seu peso. Aulas, ensaios, apresentações, audições, workshops. Horas e horas dedicadas a ser uma bailarina. No fim das aulas, diante dos espelhos, a insistente constatação de que algo faltava. Sempre a sensação de incompletude, de não ser suficiente, de não se encaixar. Que azar ela tinha de não ter nascido mais magra! Mas amanhã seria outro dia. Mais um dia de tentativa. Ela amava dançar!
Atravessou a rua e assustou-se com um ciclista, que passou rente ao seu pé. Estava distraída. Perdida em pensamentos. Deu-se conta de uma lágrima escorrendo. Rapidamente secou-a e, com a outra mão, evitou que caísse mais uma do outro lado do rosto. Era forte, persistente e disciplinada. Sempre ouvira isso. Conseguiria não voltar ao estúdio e à sua antiga vida. Deu mais alguns passos chegando ao outro lado da calçada. Parou em frente a uma vitrine e se deparou com ele. Desviou rapidamente o olhar, mesmo sabendo que ele continuaria ali. Pensou melhor e decidiu encará-lo. Esse era só o primeiro, dos muitos espelhos que teria que se ver refletida em sua nova vida. Deu um breve sorriso e partiu.
*Ana Paula Couto nasceu em Nova Friburgo (RJ), onde ainda reside. Professora de língua inglesa por mais de duas décadas, redescobriu na pandemia sua paixão pela escrita, publicando contos e crônicas em antologias antes de estrear na literatura solo com“Amor de Manjericão”, publicado em 2022. Em 2025, lançou“Amor de Alecrim”, continuação da obra, com a personagem aos 50 anos.









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