ParaEntenderUmaHistoriaDeAmor 20250813 141704
AutoralLiteratura

Trechos do livro “Para entender uma história de amor”, de Luciana Palhares 

Luciana Palhares (Rio de Janeiro, 1981) é atriz, terapeuta holística e escritora. Formada pela CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), já trabalhou com teatro, cinema e produção cultural antes de se dedicar à escrita e a terapias alternativas. Finalista em concursos literários como o Prêmio Marie Claire de Contos Eróticos (2012) e o Prêmio Microconto de Ouro (2023), hoje divide seu tempo entre a Europa e projetos autorais, sempre com um caderno e uma caneta à mão. “Para entender uma história de amor” é seu primeiro livro publicado.

Trecho 01 

Senti seu nervosismo. Não me abraçou. Afinal estávamos sozinhos e a ausência de um olhar conhecido para prevenir um arroubo maior de emoção, nos intimidou. Medo, para ser precisa. Fiz como me acostumara de uns tempos para cá: ofereci a face, que ele beijou encaixando o queixo no meu pescoço, fazendo eu me encolher, com velado prazer, dificultando o acesso, ele soltando um suspiro quente, buscando o cheiro do meu perfume de baunilha.

Deixei-me conduzir à mesa dele. Falou do meu cabelo, agora mais comprido, dos cachos. Não sem perceber que eu o impedia de me elogiar livremente, falei da rebeldia deles, do meu trabalho em domá-los. Um lampejo de imaginação passou pelos olhos dele, me fazendo sorrir com a adivinhação do que ele pode ter pensado. Deixei ele puxar a cadeira alta antes de sentar.

Trecho 02 

Eis como vejo as coisas: não me interesso por muitas pessoas. De modo geral acho as pessoas desinteressantes. Me interessei por você, não apenas sexualmente, obviamente, embora em minha inconsistência amorosa juvenil tenha sido o que me deu a dica de que me deparava com algo pouco familiar, algo que devia investigar. Para mim, se me descobrisse querendo alguém, devia ir até onde pudesse… Viver algo. Assim o fiz, nas possibilidades da época, que admito serem muito aquém ao que eu desejaria. Via sua indecisão: fico com esta ou com aquela? Quem sabe ainda, aquela outra? Via e me machucava. Me submeti, fiel ao meu ideal de ir até o fim com o meu sentimento. Ouvir que eu não me permitia amar você, apenas traduz o que eu já sabia: a minha falta de jeito, o meu não entender, a minha confusão, a minha inexperiência. Não se tratam de desculpas, mas de um pouco de luz sobre o passado. Eu vivi como soube fazê-lo. Talvez pouco, como você disse, mas e você? Enquanto eu estava em nós, você se ocupou com a sua indecisão e com as outras opções que tinha. SE algo ficou inacabado para você, isto te pertence. Não quero tomar parte. Você não é uma opção para a minha solitude. E, eu não quero ser opção para sua solidão. Reescrever nossa história não é do meu interesse.

Quisera no calor da emoção ter dito estas palavras…

Trecho 03

Meu quase está de volta. Não, ainda não é momento de ser. Ainda quase. As pontas das línguas habitadas por palavras que querem ser ditas. Ainda sem verbo buscam tradução em olhares, pequenos toques e cuidados. Longos abraços sem razão, que se fazem sozinhos.

Ainda não. Quase.

⎯  Já disse que te amo hoje? ( sai fácil a fala).

⎯ Ainda não.

⎯ Te amo.

⎯ Eu também te amo. – E diz meu nome como ninguém mais faz.

Simples. Simples assim.

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