Claudia Jordão lança “Elas, mulheres”

Novo livro da escritora paulista aprofunda a reflexão sobre as múltiplas camadas da violência,  especialmente no âmbito doméstico, e transforma estatísticas em experiências narradas “Claudia Jordão não responde de modo direto, nem oferece promessas fáceis; afirma, antes, o compromisso de contar dessas mulheres, tantas, e do que gostariam que todos soubessem. Não é fácil ouvir.…


CLAUDIA JORDÃO (3)

Novo livro da escritora paulista aprofunda a reflexão sobre as múltiplas camadas da violência,  especialmente no âmbito doméstico, e transforma estatísticas em experiências narradas

Mockup ElasMulheres

“Claudia Jordão não responde de modo direto, nem oferece promessas fáceis; afirma, antes, o compromisso de contar dessas mulheres, tantas, e do que gostariam que todos soubessem. Não é fácil ouvir. Mas, ao final, percebemos que é necessário.” 

Trecho do texto de orelha escrito por Simone Brito

Encerrando uma tetralogia dedicada a expor experiências femininas em um mundo patriarcal, Elas, mulheres, da paulista Claudia Jordão, reúne contos que investigam as diversas formas de violência que atravessam a vida das mulheres. Publicado pela Alpharrabio Edições com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio do ProAC, o livro propõe um deslocamento: da abstração dos números para o território concreto das vivências. A obra conta com orelha assinada pela socióloga e professora universitária Simone Brito.

Fruto de cinco anos de escuta e pesquisa, a obra percorre tanto o ambiente rural quanto o urbano, compondo narrativas que revelam a brutalidade das estruturas de violência e, ao mesmo tempo, a complexidade afetiva das vidas que as atravessam. A escrita evita a espetacularização da misoginia, da dor e da violência, sem, no entanto, suavizar a realidade dessas experiências.

Como observa Simone Brito, trata-se de uma obra que tensiona a leitura ao mesmo tempo em que a torna necessária. A escritora Jarid Arraes, responsável pela leitura crítica, destaca: “Sua habilidade de transitar entre a dor crua do ambiente rural e as neuroses do ambiente urbano é um trunfo, assim como o domínio da linguagem sensorial que coloca o leitor dentro das cenas”.

A publicação marca o desfecho de um percurso iniciado com Mulheres que me habitam, seguido por Eu Tu Elas e Elas, meninas. Mais do que denúncia, a tetralogia se constrói como um gesto contínuo de escuta, elaboração e criação de espaços de reconhecimento.

Para Claudia Jordão, a escrita é uma ferramenta de ruptura e resistência: “‘Elas, mulheres’ é parte de um percurso maior — um gesto contínuo de escuta, escrita e elaboração — que busca romper o silêncio e criar espaços de reconhecimento, reflexão e resistência”. Nesse sentido, o livro também convida outras mulheres a se reconhecerem e a construírem suas próprias narrativas.

A autora reforça que a violência retratada não é episódica, mas estrutural: “Ela se manifesta de formas muitas vezes naturalizadas — nos gestos cotidianos, nas relações afetivas, nos papéis socialmente construídos — e se perpetua justamente porque é silenciada ou minimizada”.

Escrita como escuta e prática cultural

Nascida em São Paulo e residente há três décadas em São Bernardo do Campo, Claudia Jordão é dramaturga, escritora, pesquisadora e mediadora de processos de escrita. Formada em Letras, com pós-graduação em Artes Cênicas e em Formação do Escritor pela PUC-Rio, é autora dos quatro livros que compõem a tetralogia, todos publicados pela Alpharrabio Edições e contemplados por editais como PROAC, PNAB e Paulo Gustavo.

Além da produção literária, sua atuação articula criação artística e ação cultural: a autora coordena oficinas de escrita voltadas a mulheres e desenvolve projetos em bibliotecas públicas, escolas e instituições culturais, com foco na formação de leitoras e escritoras.

A palavra sempre teve centralidade em sua trajetória, mas foi o teatro que organizou esse impulso criativo. “Mais do que uma necessidade de expressão, minha escrita sempre partiu de um lugar de assombro. De algo que me inquieta, que me desloca, que pede aprofundamento. Escrevo movida pela curiosidade, pela urgência de investigar uma pauta que me atravessa — ou que, de alguma forma, passa a me atravessar — e pela tentativa de me aproximar dessas questões.”

Trecho do conto “Intervalo”

“Dormiu uma noite inteira. Respirou sem pedir permissão. A fissura ainda aparecia, às vezes, como uma lembrança muscular. Um chamado falso. Ela reconhecia. Doía. Passava. Não ficou ilesa. Nenhum corpo sai ileso. Mas, pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não era falta. Era intervalo.”

FICHA TÉCNICA

Título: Elas, mulheres
Autora: Claudia Jordão
Editora: Alpharrabio Edições
Gênero: Contos / Literatura brasileira
Ano: 2026
ISBN: 978-65-87810-55-3
Páginas: 88