Entre o mito da “loira bombástica” e os traumas de Norma Jeane, a história da maior estrela de Hollywood que completaria um século de vida hoje.
Se estivesse viva, Marilyn Monroe completaria 100 anos hoje. Conhecida mundialmente como o símbolo máximo da “loira bombástica”, ela irradiava glamour, beleza e apelo sexual. No entanto, por trás da fachada reluzente do estrelato, sua vida breve foi profundamente marcada por miséria, abusos e uma constante tempestade psicológica que a acompanhou desde a infância.
O Incidente com JFK: O Magnetismo Nascido do Cansaço

Um dos episódios mais emblemáticos de sua trajetória ilustra perfeitamente a linha tênue entre seu magnetismo e suas crises pessoais. O hábito crônico de se atrasar era um dos grandes problemas de Marilyn, tendo lhe custado contratos e papéis no cinema ao longo da carreira. Na noite de 19 de maio de 1962, em uma gala no Madison Square Garden, em Nova York, esse mesmo atraso gerou uma de suas apresentações mais inesquecíveis.
Monroe chegou atrasada e completamente ofegante ao palco para cantar os parabéns ao então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, com quem rumores apontavam que ela mantinha um caso. Usando um vestido cor da pele extremamente justo — que precisou ser costurado diretamente em seu corpo nu —, ela cantou “Happy Birthday, Mr. President” diante de 15 mil pessoas. A voz sedutora, sussurrada e sensual que entrou para a história da cultura pop era, na realidade, apenas o resultado de sua falta de ar no momento. Aquela performance ousada e repleta de insinuações acabou sendo uma de suas últimas aparições públicas antes de sua morte precoce, poucos meses depois.
A Infância Dolorosa de Norma Jeane
A tragédia de Marilyn começou muito antes da fama, quando ela ainda atendia pelo nome de batismo, Norma Jeane Mortenson, nascida em 1º de junho de 1926. Sem a presença do pai e com a mãe, Gladys, sofrendo de instabilidade mental e frequentemente internada em instituições, Norma passou por uma dezena de lares adotivos e por um orfanato na Califórnia até completar 16 anos.
Sua infância foi pontuada por traumas profundos:
- O sequestro: Quando ainda era bem pequena, foi sequestrada por sua própria mãe biológica, que a arrancou dos pais adotivos e a colocou, aos gritos e aterrorizada, dentro de uma bolsa.
- Os abusos: À medida que crescia e florescia como uma adolescente que aparentava ser mais velha do que realmente era, Norma sofreu abusos sexuais graves, incluindo uma alegação de estupro.
O único refúgio vinha de Grace McKee, melhor amiga de sua mãe e sua guardiã temporária. Juntas, elas iam ao cinema, onde Norma passou a idolatrar a atriz Jean Harlow e a fantasiar que seu pai ausente era o lendário ator Clark Gable. Para escapar definitivamente do ciclo de abrigos, aos 16 anos ela tomou a decisão drástica de se casar com o namorado de 21 anos, Jim Dougherty. Embora o casamento não fosse infeliz, Norma almejava mais do que ser dona de casa enquanto o marido servia na Marinha Mercante durante a Segunda Guerra Mundial. Ela passou a trabalhar em uma linha de montagem de uma fábrica, inspecionando paraquedas e envernizando fuselagens de aviões.
O Nascimento de um Mito e a Ascensão ao Estrelato

Foi justamente na fábrica que sua sorte mudou, ao ser descoberta por um fotógrafo que buscava imagens para elevar o moral dos soldados. Seguindo o conselho dele, ela começou a modelar e, quando o marido retornou da guerra, ela já estampava dezenas de capas de revistas.
O ano de 1946 marcou a grande transformação de sua vida. Ela chamou a atenção de Ben Lyon, executivo da 20th Century Fox, e assinou seu primeiro contrato cinematográfico. Divorciou-se de Jim, adotou o cabelo loiro dourado e mudou seu nome: o sobrenome veio de sua mãe e o primeiro nome foi inspirado na estrela da Broadway Marilyn Miller. Norma Jeane deixava de existir para dar lugar a Marilyn Monroe.
O início, contudo, foi instável. Após o término do contrato inicial de 125 dólares semanais com a Fox, ela voltou a modelar para pagar as contas. Em 1949, aceitou posar nua pela quantia de apenas 50 dólares. Quatro anos mais tarde, Hugh Hefner comprou essas fotos por 500 dólares e as publicou na edição inaugural da revista Playboy, transformando Marilyn na primeira “Playmate do Mês” da história.
Sua carreira de atriz decolou novamente nos anos 1950, com atuações elogiadas em O Segredo das Joias e A Malvada. Em 1953, com o filme Torrentes de Paixão (onde interpretou uma femme fatale), ela alcançou o topo dos créditos, seguido por sucessos comerciais massivos como Os Homens Preferem as Loiras (1953), Como Agarrar um Milionário (1953) e O Mundo da Fantasia (1954). Pressionada por executivos que viam o valor de sua imagem, Marilyn passou por cirurgias estéticas para afinar a ponta do nariz e corrigir uma leve sobremordida.
Casamentos Turbulentos e Crises Psicológicas

A estabilidade emocional de Marilyn desmoronava na mesma velocidade de sua ascensão. Seu casamento com o jogador de beisebol Joe DiMaggio durou menos de um ano, terminando em divórcio por “crueldade mental” em outubro de 1954. O estopim foi a gravação da famosa cena de O Pecado Mora ao Lado, na qual seu vestido é levantado pelo vento do metrô sob os olhares lascivos de uma multidão, o que enfureceu DiMaggio. A ansiedade severa começou a sabotar seu trabalho, fazendo com que diretores e colegas ficassem frustrados com seus atrasos constantes; no filme Adorável Pecadora (1960), suas ausências forçaram a adição de 28 dias ao cronograma de filmagens.
Cansada dos papéis de “loira burra”, ela buscou respeitabilidade artística estudando no renomado Actors Studio, em Nova York, sob a tutela de Lee Strasberg, e fundou a sua própria produtora, a Marilyn Monroe Productions. Sua atuação em Nunca Fui Santa (1956) finalmente provou aos críticos sua capacidade dramática. No entanto, o sofrimento nos bastidores continuava intenso. Durante as filmagens de O Príncipe e a Corista, ao lado de Sir Laurence Olivier, seu peso oscilava tanto que o figurinista precisou criar vários tamanhos do mesmo vestido, e a atriz declarou ter desenvolvido duas úlceras por causa da produção.
Em 1956, casou-se com o intelectual e dramaturgo Arthur Miller. O casamento foi marcado por traições mútuas e terminou após quatro anos. O desejo profundo de ter filhos foi frustrado por um aborto espontâneo e uma gravidez com complicações, o que a afundou na dependência de pílulas e álcool. Durante as filmagens do clássico Quanto Mais Quente Melhor (1959), pelo qual ganhou um Globo de Ouro, Marilyn mal conseguia lembrar suas falas simples, exigindo mais de 60 tomadas para dizer uma única frase. O estresse psicológico culminou em um segundo aborto durante a produção.
Seu último filme completo foi Os Desajustados (1961), escrito por Miller, cujas filmagens a levaram à internação hospitalar por dez dias devido ao abuso de substâncias. Em junho de 1962, a depressão provocou sua demissão do filme Something’s Got to Give. Ela dependia totalmente de medicamentos e de sessões diárias com seu psiquiatra, o Dr. Ralph Greenson.
O Trágico Fim e as Teorias de Conspiração

Na madrugada de 5 de agosto de 1962, aos 36 anos, Marilyn Monroe foi encontrada morta em sua casa em Los Angeles. Ela estava de bruços em sua cama, e vários frascos de remédios vazios estavam em uma mesa próxima. O alerta foi dado por sua governanta, Eunice Murray, que chamou o Dr. Greenson. O laudo do legista declarou a causa como “provável suicídio” por envenenamento agudo por barbitúricos.
Inconsistências em depoimentos alimentaram diversas teorias conspiratórias devido aos seus laços com a máfia e com os irmãos John e Robert Kennedy (que atuavam como Presidente e Procurador-Geral). Especula-se que ela tenha sido assassinada para não revelar seus casos amorosos com os políticos. Alegações controversas publicadas em livros de jornalistas investigativos apontam que Robert Kennedy teria ordenado o crime após uma discussão em 4 de agosto e que o Dr. Greenson teria aplicado a injeção fatal. No entanto, há indícios para questionar a tese de suicídio, já que a Fox estava prestes a recontratá-la, ela demonstrava entusiasmo com o futuro imediato e estava próxima de se reconciliar com Joe DiMaggio.
A trajetória de Marilyn foi um emaranhado de contradições que confunde quem a rotulava como uma figura fútil:
- Nasceu na extrema pobreza e faleceu milionária.
- Demonstrava extrema vulnerabilidade, mas foi obstinada ao perseguir seus objetivos.
- Era desejada por multidões de homens, mas facilmente manipulada por alguns deles.
- Cercada de amantes, mas incapaz de encontrar o amor verdadeiro.
Embora tenha passado toda a sua vida tentando fugir da infância dolorosa de Norma Jeane, mesmo sob as luzes da maior estrela de cinema do mundo, Marilyn Monroe não conseguiu escapar de seus próprios demônios internos.








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