Carlos Márcio é violoncelista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, natural de Sabará (MG). Graduado e mestre em Música pela UFMG, conheceu o violoncelo aos 17 anos por meio de um projeto social. Seu livro de estreia, “Racismo, Constante como o Tempo”, recebeu o Prêmio Resistência 2025 da Editora Arte da Palavra. A obra reúne poemas, crônicas e um ensaio sobre o racismo estrutural no Brasil, da escravidão colonial ao presente. Também venceu a categoria de crônica do Concurso Frauta de Barro 2025/2026, promovido pela Editora Valer, com a obra “Ave, Maria”.
CHEGA, MEU PAI
Traz, pão pai.
— Tudo bem, filha. Já estou chegando!
Pertinho, pai?
— Sim, no estacionamento.
Que barulho estranho mãe, foi lá fora…
— Tudo bem filha, o Aurélio está no estacionamento.
Por que “tudo bem”, mãe?
— Ele é do exército, filha.
Mãe, o pai não chega…
— Acho que tem alguém estranho no condomínio, filha. O Aurélio viu!
Mas, o pai não chega!
— Calma, filha…a porta… AURÉLIO?
É o pai, mãe?
— Não, é o Aurélio…
Mas, o pai não chega!
— NÃO, AURÉLIO. NÃO! ELE BRIGOU COM VOCÊ?????
Mãe?
— Aurélio? Ele estava perto do seu carro?
Mãe, o pai não chega!!!
— De dentro do carro?
O pai não chega!!!!
— Ele caiu Aurélio?? COM 3 TIROS, AURÉLIO?
Ele não é polícia, mamãe?
— Sim, filha. Por isso… por isso, ele é a polícia… filha…
Mãe, o pai não chega!!!
— 3 tiros…. no chão e…. não queria matar, Aurélio?
Mãe!!! O pai não chega!!!
— Chega… Chega… CHEGA, MEU PAI!!!
Para Durval Teófilo Filho assassinado
pelo seu vizinho, Aurélio Alves Bezerra,
sargento da Marinha Brasileira, que o “confundiu”
com um bandido no condomínio onde ambos moravam,
no Rio de Janeiro em 2 de Fevereiro de 2022.
ECOS DE CHICO REI E NISE DA SILVEIRA
O tubista vem do fundo da orquestra.
Negro retinto
sai do labirinto
no fundo de todos os palcos
unindo suas mãos às de uma Maestra.
O sorriso
do tamanho de África,
é diáspora viva
numa sociedade
quase estática.
Havia tocado Villa-Lobos,
“O Brasileiro” com tudo dentro:
Certo, errado?
Gênio, arrivista?
Depende do momento.
O sorriso luz do palco
foi apresentado pela Maestra:
Primeiro tubista Quilombola de uma orquestra!
Identidade livre — manifesta!
Um Quilombola e uma Maestra.
Chico Rei e Nise da Silveira.
Opostos na sociedade brasileira
Igualados pela vida pioneira.
Chico e Nise
Libertação e Cura
símbolos da bravura
de uma humanidade taciturna.
Aldo e Ligia,
aplausos que ecoam fatos,
estilhaçando a hipocrisia
reinante nos teatros.
Dedicado a Aldo Bibiano,
primeiro tubista quilombola a ocupar um cargo fixo
em uma orquestra no Brasil,
e, Ligia Amadio, primeira mulher a ser regente titular
na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais em 50 anos.
DEUSA DE SER
A mulher do planeta fome
A mulher que não vale nada
A mulher que roubou o Garrincha
A mulher da carne mais barata
A mulher assanhada
A mulher que se bebe
A mulher que nasceu pro rebolado
A mulher que deixava o branco assanhado
A mulher que sobrava polegada
A mulher que acabou com o Garrincha
A mulher do de mais um guri
A mulher dura na queda
A mulher que discutia com madame
A mulher do Teleco-Teco
A mulher da Mocidade
A mulher da volta por cima
A mulher que amou o Garrincha
A mulher da melhor voz do século
A mulher das espumas ao vento
A mulher do que se cala
A mulher atenta e forte
A mulher que o tempo não para
A mulher rainha
A mulher de Ossanha
A mulher de Oxóssi
A mulher Deusa
A mulher até o fim
A única mulher: Elza Soares!
DEVANEIOS DE UM SONHO DE UM GRANDE PESADELO
I. FIGURAÇÃO
Ela é só uma favelada
ninguém vai ligar.
Ela é preta
ninguém vai ligar.
Pior ainda: ela é sapatão!
A igreja vai amar!
Mas e a intervenção?
É militar!
Eles não vão ligar!
Mas… precisa mesmo matar?
Precisa. Colocar as coisas no eixo.
Se der certo
a gente mata o Freixo!
A alegria é senhora, disso daí
lágrima clara sobre a pele
escura de Marielle.
Franco. Sem dor.
Defeito: sua cor.
II. CONDENSAÇÃO
Não. Sobre isso, eu não opino!
Minha opinião é polêmica!
Quem procura, acha. Talkey?
Desse assunto, eu nada sei!
Pra mim, é mal exemplo:
Primeiro, é preta.
Segundo, é de comunidade.
Terceiro é lésbica, nisso daí.
Não opino!
III. ELABORAÇÃO SECUNDÁRIA
Porteiro?
Vizinho?
Canalhas! Parem de infernizar minha vida!
Fechem a portaria!
O porteiro deu uma sumida…
Adriano? Que Adriano?
Olha, nisso daí…
IV. NREM
Eu não opino.
Sigilo!
– 100 anos de sigilo
Para Marielle Franco, assassinada
pelo vizinho de Jair Messias
Bolsonaro.
PARTITURAS
Um dia ouvindo Lenine,
Luzes vermelhas, era a polícia.
Aéreo, esperei pra saber o melindre.
Não sabia a atitude propícia.
Esperei, esperei…
O vidro abaixei.
CAcoFONiA!
Gelei.
Armas em punho
tentei dar meu testemunho:
Sai! Sai do carro, Pelé!
As partituras me salvaram
Foi a única coisa
de tudo que eu tinha,
que eles acreditaram.









Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.