Pela Metade: explorando as masculinidades tóxicas

Relacionamentos tóxicos não existem apenas entre homem e mulher. Podem acontecer com casais do mesmo gênero, com mãe e filha(o), com pai e filho(a), entre outros. Um aspecto desses relacionamentos é a dependência emocional que uma pessoa tem pela outra. É exatamente isso que acontece em “Pela Metade”, uma série sobre dois garotos que cresceram…


Relacionamentos tóxicos não existem apenas entre homem e mulher. Podem acontecer com casais do mesmo gênero, com mãe e filha(o), com pai e filho(a), entre outros. Um aspecto desses relacionamentos é a dependência emocional que uma pessoa tem pela outra. É exatamente isso que acontece em “Pela Metade”, uma série sobre dois garotos que cresceram como irmãos mas têm uma relação complicadíssima. É mais um produto da mente insana de Richard Gadd.

Na adolescência, Ruben Pallister (Stuart Campbell) não era nada além do filho delinquente da companheira da mãe de Niall Kennedy (Mitchell Robertson). Eles só parecem se dar bem quando estão chapados. Mas a presença e influência ameaçadoras de Ruben fazem com que Niall deixe de ser alvo de bullying e passe a ser notado pelas garotas. Isso não impede a cena inicial, quando encontramos Niall levando uma surra de Ruben no dia de seu próprio casamento.

Percebendo a (má) influência de Ruben sobre Niall, a mãe de Niall, Lorraine (Neve McIntosh), ao deixá-lo no dormitório da faculdade pela primeira vez, aconselha que ele não ligue para Ruben, mas essa é a primeira coisa que ele faz depois de uma pequena humilhação. Era a oportunidade de Niall ter um recomeço, mas ele escolheu repetir os mesmos erros de antes.

Já adulto, Niall (Jamie Bell) segue os passos do pai que mal conheceu e se dedica à escrita. Seu editor é adepto da máxima “escreva sobre o que conhece”, o que significa recontar sua história de diversas maneiras, mudando um pouquinho a cada romance. Sem inspiração, ele gasta sua energia com encontros furtivos e masturbação – mas garante que não é gay porque nunca se apaixonou por um homem. Mantém a colega de universidade Joanna em sua vida, mas quando Ruben (Richard Gadd) volta para a vida de Niall, descobrimos que Niall jamais parou de pensar em Ruben.

Se ainda não tinha ficado claro que Ruben exala masculinidade tóxica pelos poros, sua reação quando sua esposa decide dar aulas de dança demonstra isso: ele diz que esse papo de empoderamento é bobagem, pois todo o poder dela deve emanar dele, seu homem. Outro momento: quando Niall reclama dos insultos que sempre teve de ouvir, Ruben retruca que “são só palavras, você que não pode deixar que elas te afetem”. Mas Ruben não é só culpado: Niall também é tóxico de outra maneira, o que faz dele um personagem igualmente complexo.

Desde “Bebê Rena” foi possível perceber que Richard Gadd gosta de deixar seu público desconfortável. Se sua presença na minissérie pregressa era digna de pena, aqui ela é ameaçadora. Aqui mais uma vez ele se afirma como um grande ator, mas principalmente um grande roteirista. A cena do hospital no quarto episódio, com um monólogo brilhante para Jamie Bell, sem dúvidas já entrou para a História da televisão. Podemos esperar, portanto, mais uma chuva de prêmios para este artista escocês em ascensão.

Para o colega de dormitório Alby, Niall diz que ele e Ruben são “quase a mesma pessoa”, ao que Alby reage dizendo que só se for como em O Médico e o Monstro. Vítimas um do outro ou culpados pelo que o outro faz, Niall e Ruben são a força motriz de uma minissérie violenta em muitos sentidos, sobre pessoas tóxicas que, se sentindo pela metade, tentam se completar das maneiras mais erradas possíveis.

NOTA 8 de 10

Pela Metade

Pela Metade
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