AstrosMúsica

BTS além do K-pop: uma jornada com raízes no hip-hop

Série explora a trajetória do grupo sul-coreano como uma Jornada do Herói, conectando música, cultura e narrativa para além do fandom

Você conhece o BTS? O grupo sul-coreano que saiu de uma pequena empresa de entretenimento em 2013 para se tornar um fenômeno global, liderando paradas, lotando estádios e influenciando debates culturais em escala mundial, construiu uma trajetória que vai muito além do rótulo de K-pop. Ao longo de pouco mais de uma década, o BTS transitou entre gêneros, consolidou uma base de fãs massiva e desenvolveu uma identidade artística marcada por narrativa, reinvenção e diálogo constante com diferentes tradições musicais.

Em março de 2026, depois de três anos e nove meses sem um álbum de grupo, o septeto voltou a se reunir após o período de cumprimento do serviço militar obrigatório na Coreia do Sul. RM, Jin, SUGA, J-Hope, Jimin, V e Jungkook se reencontraram no dia 21 de março, em Seul, para protagonizar um comeback de escala monumental: uma apresentação gratuita na histórica Praça Gwanghwamun, transmitida mundialmente pela Netflix. O retorno marcou o lançamento de ARIRANG e o início de uma nova etapa da trajetória do grupo.

O impacto foi imediato. Segundo a Netflix, o especial BTS THE COMEBACK LIVE | ARIRANG alcançou 18,4 milhões de espectadores em até 24 horas, chegou ao Top 10 semanal da plataforma em 80 países e ocupou o primeiro lugar em 24 deles. Poucos dias depois, ARIRANG estreou no topo da Billboard 200, tornando-se o sétimo álbum do BTS a alcançar o primeiro lugar da principal parada de álbuns dos Estados Unidos. O disco registrou 641 mil unidades equivalentes na primeira semana, a maior marca para um grupo desde 2014. Já SWIM, faixa principal do álbum, chegou ao primeiro lugar da Billboard Hot 100, garantindo ao BTS seu sétimo número 1 na parada de singles.

A área da Praça Gwanghwamun tem uma longa história. No período Joseon, a última dinastia da história da Coreia, tornou-se o ponto central de Seul. Foi negligenciada durante o período colonial japonês, sofreu danos severos durante a Guerra da Coreia e chegou a ser transformada em uma via de 16 faixas no século XX. Gwanghwamun, entretanto, preservou seu simbolismo como o caminho onde reis se encontravam com o povo, conhecido como a “Rota Real”. Em 2026, foi ali que o BTS escolheu marcar seu reencontro com o mundo.

A partir daquele palco, a história ganhou outra dimensão. ARIRANG não apenas recolocou o grupo no topo das paradas: tornou-se o ponto de partida de uma turnê mundial de 82 apresentações, com passagens por grandes estádios e arenas em diferentes continentes. A turnê já virou a marca dos 40 shows, realizados pela Ásia, Europa e pelos Estados Unidos. No Brasil, o BTS tem apresentações previstas para 28, 30 e 31 de outubro, no MorumBIS, em São Paulo.

Uma trajetória que vira uma ‘Jornada do Herói’

A história do BTS pode ser lida como uma narrativa clássica — e é justamente essa a proposta desta série especial. Inspirada na estrutura da Jornada do Herói, a cobertura parte de uma pergunta central: o que acontece quando um grupo frequentemente associado ao pop global é analisado a partir de suas raízes culturais, musicais e narrativas?

No cinema, sagas como Star Wars ajudaram a popularizar esse modelo de jornada, que atravessa desafios, transformações e retornos. Mas essa lógica não é exclusiva das telas. Na música, artistas como David Bowie, Michael Jackson, Madonna, Beyoncé e Kanye West construíram carreiras que também podem ser compreendidas como travessias — ciclos de ruptura, reinvenção e afirmação.

É nesse território que esta série se insere: ao propor uma leitura do BTS que dialoga com cinema, literatura e história da música, o objetivo é expandir o olhar sobre o grupo e apresentá-lo a públicos que talvez nunca tenham se aproximado do universo do K-pop. Mais do que um fenômeno de fãs, trata-se de entender o BTS como um projeto artístico inserido em uma tradição maior de narrativas culturais.

E os recordes de 2026 ajudam justamente a formular a pergunta que interessa. Como um grupo que hoje ocupa o centro da indústria musical global chegou até aqui? O que existe por trás do rótulo K-pop quando se observa sua trajetória, suas referências e suas escolhas artísticas?

Se toda jornada começa em algum lugar, a do BTS começa longe dos grandes palcos globais. E é nesse ponto de partida — cru, direto e profundamente conectado ao underground do hip-hop — que este primeiro capítulo se concentra.

O início: quando o BTS era puro hip-hop

Antes de dominar rankings internacionais e estádios, o BTS surgiu como um projeto ancorado no hip-hop. O álbum de estreia, 2 Cool 4 Skool, lançado em 2013, apresenta um grupo que dialoga diretamente com a estética, a linguagem e as preocupações do rap — tanto musical quanto tematicamente.

A faixa No More Dream sintetiza esse momento inicial. Com batidas marcadas, flow agressivo e uma postura crítica, a música questiona expectativas sociais impostas aos jovens, um tema recorrente no hip-hop desde suas origens. Aqui não há concessões ao pop: o foco está na mensagem, na atitude e na construção de identidade.

Esse ponto de partida é essencial para compreender tudo o que viria depois. Ao contrário da percepção mais difundida, o BTS não nasce como um produto moldado exclusivamente para o mercado global. Ele emerge de um contexto em que o hip-hop funciona como linguagem de expressão, crítica e pertencimento.

Nesse sentido, o “mundo comum” da jornada — para usar a chave da Jornada do Herói — não é neutro. É um ambiente marcado por tensões, aspirações e pela busca de voz em meio a estruturas rígidas. É ali que o grupo começa a construir sua identidade.

Muito além do rótulo: o hip-hop como base narrativa

Reduzir o BTS ao rótulo de K-pop pode obscurecer esse início. O que se observa nos primeiros trabalhos é uma tentativa clara de dialogar com tradições do rap — seja na construção das letras, na divisão de papéis dentro do grupo ou na própria estética visual.

Esse vínculo com o hip-hop também estabelece uma base narrativa que se mantém ao longo da carreira. A ideia de trajetória, de ascensão e de confronto com o sistema não é apenas um tema ocasional: ela se torna um fio condutor que conecta diferentes fases do grupo, mesmo quando o som se expande para outros gêneros.

É justamente essa base que permite ao BTS transitar entre estilos sem perder coesão. Ao incorporar elementos de R&B, pop, rock ou música eletrônica, o grupo não abandona sua origem — ele a ressignifica. O hip-hop, nesse caso, funciona menos como gênero fixo e mais como estrutura de pensamento artístico.

Essa característica ajuda a entender também o BTS de 2026. ARIRANG chegou ao topo da Billboard 200, enquanto SWIM alcançou o primeiro lugar da Hot 100; ao mesmo tempo, o álbum levou todas as suas 14 faixas ao Hot 100 da Billboard Brasil na semana de lançamento. A escala mudou radicalmente desde 2013, mas a lógica de atravessar linguagens permanece.

Para um público acostumado a outras cenas musicais, esse é um ponto de entrada importante. O BTS pode ser compreendido não apenas pelo que se tornou, mas pelo caminho que percorreu — e esse caminho começa em um território familiar para quem já transita pelo universo do rap.

Uma série para atravessar gêneros e narrativas

Este texto tem um pouco de cara de editorial, você pode estar achando. E está correto: aqui inauguramos uma série que propõe acompanhar o BTS a partir de uma lógica narrativa inspirada na Jornada do Herói, conectando sua trajetória a referências do cinema, da literatura e da música.

Nos próximos capítulos, a jornada avança para além do hip-hop: passa pela expansão sonora com o R&B e o pop global, investiga o diálogo com o rock e suas referências culturais, aproxima música, literatura, psicologia e artes visuais e chega às carreiras solo dos integrantes como momentos de reinvenção individual.

Ao final desse percurso, a proposta é retornar ao ponto de origem — agora sob outra perspectiva — para compreender como o grupo revisita suas próprias raízes e transforma tudo o que aprendeu ao longo do caminho. Mais do que contar a história do BTS, esta série busca explorar como uma trajetória artística contemporânea pode atravessar gêneros, linguagens e públicos distintos.

Entender o BTS exige olhar menos para o rótulo K-pop e mais para sua relação com tradição musical, narrativa e repertório cultural. Esta não é uma série sobre gostar de BTS. É uma série sobre reconhecer o BTS dentro da história da música. E provar que você também pode gostar de BTS; apenas não sabe disso ainda.

Deixe um comentário

Sugeridos
MúsicaNotíciasShows

Celebrando 35 Anos De Carreira, The Slackers Faz Show Especial No Cine Joia

Lendária banda nova-iorquina de ska desembarca em São Paulo para apresentação comemorativa...

LançamentosMúsica

Jorja Smith lança “I Lied, You Lied”, última amostra de novo álbum

What Are The Odds, terceiro disco da cantora britânica, chega às plataformas...

Artes VisuaisMúsicaNotícias

Brian May recria capa clássica do Queen com IA e critica o resultado

O lendário guitarrista do Queen usa capa do álbum ‘The Game’ (1980)...

AgendaMúsicaShows

Flávio Venturini comemora 50 anos de carreira com show no Rio

Bastidores, hinos da MPB no Circo Voador Cinco décadas dedicadas à criação...

MúsicaNotícias

Ritchie Blackmore confirma reunião histórica com o Deep Purple após 30 anos

O lendário guitarrista revelou durante uma transmissão ao vivo que subirá ao...

MúsicaNotícias

Led Zeppelin – mais de 80 minutos de show histórico de 1970 surgem na internet

Gravado em 16mm durante o Festival de Bath, registro cru e inédito...

LançamentosMúsica

Josh Beauchamp apresenta pop maduro no início da carreira solo

Com os singles “Love You Again” e “Give It Back!”,  ex-membro do...

LançamentosMúsica

Luella une eletrônico, rock e métrica incomum na psicodélica “Serpente Caranguejo”

Com compasso raro e narrativa inspirada na força do signo de Câncer,...

LançamentosMúsica

Snow Patrol e Kylie Minogue unem forças no single “These Alarms”

Escrita especialmente para a estrela pop, a faixa marca a estreia da...

AgendaMúsicaShows

Das Cinzas à Música: Paulinho Moska Traz Seus “Violões Fênix” ao Rio de janeiro

Em apresentações carregadas de simbolismo e poesia, o cantor dá voz a...

LançamentosMúsica

saudade inicia nova fase com o single “desculpa eu ser um trem desgovernado”

Composição intimista e confessional antecipa o conceito do próximo álbum, marcando o...

LançamentosMúsica

Com “Grande Gostosa”, MARIANNA abre fase de maturidade, humor ácido e amor-próprio

Escrita em parceria com Arthur Marques e Jenni Mosello, faixa ganha um...