O Armazém Companhia de Teatro está de volta com uma nova montagem e dessa vez temos a oportunidade de assistir Gaivota, com direção de Paulo de Moraes a partir da obra de Anton Tchékov, A Gaivota. A peça do Armazém, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ), tem versão dramatúrgica assinada por Maurício Arruda Mendonça, Jopa Moraes e Paulo de Moraes, e um elenco que reúne Bruno Lourenço (Boris Trigórin), Fe Bustamante (Dorn), Isabel Pacheco (Masha), Jopa Moraes (Konstantin), Lorena Lima (Nina), Patrícia Selonk (Irina Arkádina) e Sérgio Machado (Sórin).

Na obra de Tchekóv, escrita no final do século XIX, a trama se passa em uma casa de campo, às margens de um lago, e a montagem se inicia a partir de uma peça de teatro que terá início e que se propõe a trazer questões que seu autor, o escritor Konstantin, julga disruptivas, distanciando-se de uma referida produção cultural e dramatúrgica pregressa, cujo valor artístico não se mantém mais o mesmo ou não suscita algo de realmente novo. Desse modo, contrapondo-se a uma massa de produções teatrais, a peça de Konstantin é por ele considerada como uma espécie de guinada artística, algo realmente novo que terá desdobramentos importantes e se localizará em um lugar de proeminência na cena contemporânea aos personagens.

A partir daí, dessa montagem, da pretensão evocada, do esforço empregado na apresentação, daqueles e daquelas que se dispõem a estar presentes para assisti-la, é a partir desse mote que a discussão sobre a arte encontra sua deixa. Entretanto, são as reações à montagem atravessando e sofisticando a discussão, as aspirações do autor em relação à mãe, artista já reconhecida, as disputas criativas predominando entre os intelectuais, as expectativas de futuro e os sonhos de carreira de uma atriz iniciante em contraposição ao final da vida de um funcionário público aposentado cuja biografia é desprovida de brilhantismo, são esses os elementos que constituem a história dramatizada e o interesse que ela desperta. O que vamos acompanhando é todo um vaivém na dinâmica das relações incidindo no grupo e em cada um deles em relação aos demais e a si mesmos. Os conflitos e a dança de valências nessas relações parecem imantar impasses que andavam adormecidos. Essa dinâmica e tais incidências são o que guia a problemática que está no eixo da peça e nos desdobramentos ora irônicos, ora verdadeiramente dramáticos que se sucederão.

Gaivota aborda dicotomias, contradições e contraposições: desde o funcionário público que reconhece a platitude de sua vida, mas tampouco se leva a sério (um dos personagens, aliás, mais interessantes da trama), até o escritor admirado por seus livros mas existencialmente encarcerado em sua função de fabricador de textos; desde a inicial e ilusória onipotência diante do que pretendemos construir enquanto projeto de vida e de obra, na interface com as limitações da realidade (interna, externa e intersubjetiva), até às previsíveis frustrações que o encontro com a realidade traz. Gaivota abarca certamente toda a ambivalência típica das relações humanas mais íntimas quando experienciam, em conjunto, o fracasso das promessas de futuro. E se pode dizer que Gaivota aborda, em especial, a escolha da desistência. A peça de Tchekóv e a montagem do Armazém suscitam indagações: quando a desistência se afigura como escolha e quando é uma imposição da realidade?, quais as facetas possíveis do exercício da desistência?, em que momento ela precisa ocorrer e em que âmbitos da existência o fato de desistir se torna parte da própria vida?

Por fim, menciono algo que repercutiu em mim: a opção por intercalar algumas das cenas com espécies de breves apresentações musicais com os próprios atores e atrizes me remeteu à técnica do dance takes (tomadas de dança) que a diretora do filme Hamnet, Chloé Zhao, utilizou com atores, atrizes e toda a equipe de filmagem. A proposta era que, entre determinadas cenas com grande intensidade emocional, todos parassem e dançassem juntos, sem que isso fosse filmado, como forma de descarregar os excessos promovidos pelos afetos mobilizados nas cenas. Apesar de não ter havido filmagem, um desses momentos foi divulgado em vídeo e é bastante emocionante. As apresentações musicais que acompanhamos na montagem do Armazém não são um dance take, mas talvez promovam um bem-vindo descanso face ao conteúdo de forte teor psicológico e relacional que a história trabalha, conteúdo esse que se comunica com todos e todas nós que aspiramos alguma coisa de nossas vidas que seja um tanto quanto diferente daquilo que elas já são.

Ficha técnica
Apresentação: Ministério da Cultura e Banco do Brasil
Direção: Paulo de Moraes
Dramaturgia: Maurício Arruda Mendonça, Jopa Moraes e Paulo de Moraes a partir da obra de Anton Tchékhov
Montagem da Armazém Companhia de Teatro
Elenco: Bruno Lourenço (Boris Trigórin), Fe Bustamante (Dorn), Isabel Pacheco (Masha), Jopa Moraes (Konstantin), Lorena Lima (Nina), Patrícia Selonk (Irina Arkádina) e Sérgio Machado (Sórin)
Cenografia: Carla Berri e Paulo de Moraes
Iluminação: Maneco Quinderé
Figurinos: Carol Lobato
Direção musical: Ricco Vianna
Preparação corporal: Paulo Mantuano
Designer gráfico: Jopa Moraes
Assessoria de imprensa: Ney Motta
Fotografias e vídeos: João Gabriel Monteiro
Produção: Armazém Companhia de Teatro
Realização: Governo do Brasil e Centro Cultural Banco do Brasil
Serviço
Gaivota
Montagem da Armazém Companhia de Teatro
Temporada: 5 de agosto até 13 de setembro de 2026, quarta à sexta às 19h, sábado e domingo às 18h.
Duração: 120 minutos
Classificação: 14 anos
Local: Centro Cultural Banco do Brasil – Teatro II
Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro
Valor do ingresso: R$ 30 (inteira) e R$15 (meia-entrada)
Ingressos adquiridos na bilheteria do CCBB ou antecipadamente pelo site bb.com.br/cultura
Estudantes, maiores de 65 anos e Clientes Ourocard pagam meia entrada.












