Ali pela metade do filme holandês “Champagne”, Hans está conversando com um homem que acabou de conhecer no bar. Ele diz que não teve a presença do pai enquanto crescia e que isso machucou muito. Eu também não tive aquela figura paterna presente, e de certa forma, mesmo com meu avô e minha mãe se desdobrando, isso deixou marcas em mim. Uma é pouco óbvia: a objetividade crua, quase uma observação científica impessoal, com que vejo filmes sobre pais e filhos. Foi assim que comecei “Champagne” – mas não foi como eu terminei a sessão.
É com a maior naturalidade do mundo que Hans (Huub Stapel) conta a seu filho Maarten (Leo Alkemade) que está com câncer. Um amigo de Maarten, Félix, aconselha que ele faça uma viagem especial com o pai. Ele aproveita a janela de duas semanas até que Hans faça um novo exame decisivo para acomodar uma viagem inesquecível.
Maarten, que trabalha na área de TI de uma firma através do regime home-office, deixa o trabalho numa semana de implementação de um novo sistema, ao qual ele ajudaria as pessoas a se adaptarem. Seu chefe fica bravo, mas não há o que fazer: é o tempo que Maarten tem.

E assim eles partem numa jornada de pai e filho, aproveitando a extensa malha rodoviária da Europa para dirigirem através das fronteiras, da Holanda onde vivem rumo a Champagne, na França. Eles passeiam pelos campos e pelas adegas, primeiro com um aplicativo, depois se rendem ao velho mapa impresso. Tradição e modernidade se confundem conforme eles vão estreitando seus vínculos.
O cinema entrou no modo viagem logo em seus primórdios. As câmeras dos irmãos Lumiére chegaram rapidamente em todos os continentes e captavam as vidas de nativos para mostrar em outras praças. Havia também os travelogues, filmes rodados de dentro de algum meio de transporte, que mostravam caminhos e paisagens.
Só nos últimos seis meses, vi três filmes sobre viagens de pais e filhos – ou quase isso. Um deles, claro, foi este “Champagne” holandês, agradável a mais de um dos cinco sentidos. Outro foi o francês “Uma Jornada de Bicicleta”, no qual dois amigos partem em duas rodas para refazer uma aventura empreendida anos antes pelo filho de um deles. E o outro foi o espanhol “O Bom Caminho”, em que um pai segue a filha que está fazendo o caminho de Santiago de Compostela. Holanda, França, Espanha: talvez partir em jornadas esteja no sangue do cinema europeu.

O diretor Tim Kamps se inspirou numa viagem que planejou fazer com o pai, mas que nunca aconteceu. Ele defende sua substituição pela viagem cinematográfica:
“Ele (o filme) nos lembra que as pessoas mais próximas costumam ser aquelas com quem é mais difícil conversar, e que o amor frequentemente se manifesta mais por atitudes do que por palavras. O núcleo emocional da história, aliado ao humor e à ternura, torna o filme universalmente compreensível, independentemente do idioma ou da cultura”.
O homem lá da metade do filme, ao se despedir, abraça Hans e Maarten e lhes pede que façam a viagem valer a pena. Já valeu: “Champagne” é uma das maiores bilheterias do cinema holandês este ano. E um filme que nos faz desejar mergulhar nessa viagem, sempre recompensadora: a de conhecer o cinema de mais um país.












