De cientista louco de salto alto em Rocky Horror a palhaço demoníaco e mordomo maníaco, o ator britânico falecido aos 80 anos transformou a malícia em pura arte e ensinou gerações a libertarem seus desejos mais selvagens
No final de 1972, o lendário produtor fonográfico Lou Adler — homem por trás de clássicos como Tapestry, de Carole King, e das loucuras cinematográficas de Cheech & Chong — pisou em um modesto e abafado teatro de Londres sem saber que estava prestes a testemunhar uma revolução cultural. O espetáculo no palco era uma mistura anárquica de cinema B de ficção científica, horror de baixíssimo orçamento e o ritmo contagiante do rock ‘n’ roll dos anos 1950. No centro daquela tempestade cênica estava um jovem ator britânico vestindo espartilho, cinta-liga e salto alto. “Você consegue imaginar o que foi ver Tim Curry no palco pela primeira vez?”, perguntaria Adler, décadas depois, ainda visivelmente deslumbrado com a lembrança.
Adler adquiriu os direitos da peça imediatamente e a levou para os Estados Unidos. Três anos mais tarde, em 1975, estreava nos cinemas The Rocky Horror Picture Show. A estreia foi bastante tímida, mas foi ganhando força por conta das exibições de meia-noite, nas quais o filme foi se tornando um clássico cult. A abertura minguada acabou se convertendo em mais de 170 milhões de dólares arrecadados e registrando a exibição contínua mais longa da história da sétima arte. Mais do que um sucesso financeiro, a obra catapultou Tim Curry para o estrelato global. Na pele do inesquecível Dr. Frank-N-Furter — o extravagante e pansexual cientista louco da Transilvânia —, Curry deu voz e corpo a um lema que atravessaria gerações: “Não sonhe, seja”. Como o próprio ator refletiu anos mais tarde, a frase nunca foi apenas sobre sexualidade, mas sim sobre ter a coragem de abraçar quem quer que você deseje ser.
Formado em Literatura Inglesa e Drama pela Universidade de Birmingham em 1968, Curry começou sua trajetória profissional no West End de Londres, integrando o elenco original da montagem britânica do musical Hair. Foi nos bastidores desse show que ele conheceu o dramaturgo e ator Richard O’Brien, que escreveu o papel de Frank-N-Furter sob medida para ele. Curry possuía uma bagagem técnica impecável, mas o que realmente o diferenciava era uma eletricidade natural: um sorriso largo, felino e perigosamente sedutor, capaz de transmitir mais intenções sarcásticas com um único erguer de sobrancelha do que páginas inteiras de roteiro.
Com o estouro planetário de Rocky Horror, Hollywood e a Broadway abriram suas portas para a versatilidade camaleônica do britânico. Longe de se deixar encatografar por um único tipo de personagem, Curry construiu uma das carreiras mais ecléticas do entretenimento. Nos palcos norte-americanos, acumularia três indicações ao prestigiado prêmio Tony ao longo de 24 anos, encarnando figuras drasticamente distintas: o genial e atormentado Wolfgang Amadeus Mozart na peça Amadeus (1981), o galã decadente Alan Swann em My Favorite Year (1992) e o sarcástico Rei Arthur no musical Spamalot (2005).
Nas telas, a impressão deixada por Tim Curry variava de acordo com a geração e o gosto do espectador, mas era invariavelmente indelével. Quem viveu os anos 1980 lembra-se dele como o ganancioso vigarista Rooster Hannigan no musical Annie (1982), ou como o frenético e cerebral mordomo Wadsworth na comédia cult de mistério Os Sete Suspeitos (Clue, 1985). Sob a direção de Ridley Scott e enterrado em quilos de maquiagem vermelha e chifres imponentes, ele entregou uma atuação monumental como a personificação do mal em A Lenda (1985).
Em 1990, Curry traumatizou definitivamente o sono de milhões de jovens ao dar vida ao terrível palhaço Pennywise na minissérie A Coisa (It), adaptada da obra de Stephen King. Anos depois, ele conquistaria os mais novos ao encarnar o vilanesco Long John Silver em Os Muppets na Ilha do Tesouro (1996) e o Cardeal Richelieu em Os Três Mosqueteiros (1993). Para toda uma geração que cresceu nos anos 90, no entanto, seu papel mais memorável foi o do desconfiado gerente de hotel que se torna o pesadelo de Kevin McCallister em Esqueceram de Mim 2: Perdido em Nova York. A cena em que a câmera transita do sorriso maligno do Grinch para a expressão vitoriosa de Curry permanece como uma das transições cômicas mais icônicas da comédia hollywoodiana.

Colegas de trabalho costumavam ficar perplexos com a entrega cênica de Curry. Rob Schneider, que compartilhou o set com ele nos anos 90, relembrou no dia de sua morte como o ator britânico gostava de entregar flexibilidade ao diretor: “Fiquei pasmo ao ver Tim fazer a mesma cena de sete maneiras completamente diferentes — e todas elas sensacionais. Quando perguntei sobre isso, ele me disse: ‘Quero dar opções ao diretor! Não é meu papel decidir qual é a melhor, é dele!'”.
Mesmo após sofrer um grave acidente vascular cerebral em 2012, que o deixou parcialmente paralisado e confinado a uma cadeira de rodas, Curry jamais perdeu o viço cômico ou a paixão pela arte. Ele continuou trabalhando com dublagem, participando de convenções e interagindo calorosamente com os fãs. Em sua autobiografia Vagabond, ele sintetizou o espírito irreverente com que encarou cada trabalho ao longo de cinco décadas de carreira: “Minha forma de atuar era salpicar um pouco de malícia até nos meus papéis mais vilanescos… fazendo o possível para fazer a escuridão brilhar.”
Tim Curry partiu aos 80 anos no último dia 25 de agosto, mas deixa uma marca profunda na tapeçaria da cultura pop. Ele provou de forma inteligível aquilo que no fundo sempre soubemos, ainda que de forma inconsciente: que vilões podem ser irresistíveis, que o grotesco pode ser belo e que um simples sorriso zombeteiro tem o poder de iluminar o mundo.












