Histórias coming of age são sempre um êxito na cultura pop, ainda mais quando envolvem um forte elemento dramático. Feito Pipa poderia ser apenas mais uma, se não contasse com o fator que diferencia as tramas do mesmo tipo mais marcantes: um lirismo genuíno. O britânico Billy Elliot, com o qual este aqui até guarda certa semelhança, pode ser um belo exemplo, assim como o brasileiro Marte Um, o clássico francês Os Incompreendidos, e os sempre lembrados Clube dos Cinco e Conta Comigo. É uma longa lista.
Feito Pipa constrói uma sensível e tocante narrativa sobre afeto, memória e identidade ao acompanhar a relação entre Gugu, um menino queer de 11 anos, e sua avó Dilma. Vivendo juntos nas proximidades de uma barragem, neto e avó veem sua cumplicidade ser colocada à prova quando o avanço gradual do Alzheimer começa a apagar as lembranças da idosa.
Diante do agravamento no quadro de saúde de Dilma, o cotidiano da dupla é tomado pelo medo. Aterrorizado com a possibilidade de ser separado da avó e forçado a viver com o pai homofóbico, Gugu assume a missão desesperada de esconder de todos os sinais da doença. O cenário da barragem passa, então, a espelhar a tensão contida de uma realidade represada que ameaça transbordar a qualquer momento.

Entre a inocência da infância e a maturidade precoce, o garoto transforma cada gesto de cuidado em um ato de resistência contra o esquecimento e o abandono. Atravessado por um forte enlevo, o filme propõe uma reflexão profunda sobre as incertezas do futuro e a força dos laços afetivos que nos sustentam quando tudo ao redor parece prestes a ruir.
Nada disso teria o efeito dramático pretendido se não houvesse um talento do quilate do menino soteropolitano Yuri Gomes, participante do Projeto Axé, uma organização reconhecida por revelar e formar talentos artísticos da capital baiana. Ele consegue transmitir toda a angústia da consciência de se perceber como diferente em tão tenra idade, misturada a um certo orgulho que rompe o medo. Esse sentimento conflitante é mostrado logo nos primeiros minutos. Mas se engana quem acha que Gugu é vítima. Galhardo, ele encara o preconceito e o bullying na escola olhando para o alto (como no cartaz).
Seu pai, interpretado pelo sempre inspirado Lázaro Ramos, é seu grande obstáculo. As cenas entre os dois atores são bastante tocantes, e Lázaro consegue fazer com que o espectador o repudie, mas também pare para entender a sua lógica dentro do contexto em que ele se apresenta. É claro que o fato de ele praticamente culpar o menino pela decepção e por uma certa vergonha que impede uma aproximação maior é deplorável. Mas a cena em que declara seu amor é de uma verdade comovente – ainda que tenhamos visto sua preocupação em fazer com que o filho foque apenas no futebol e esqueça a dança (os dois talentos do garoto) e até o presenteie com uma revista de mulher nua para incentivá-lo a “ser homem”.

Em nenhum momento a sexualidade de Gugu é abordada, até por se tratar de uma criança. No entanto, todos os signos apontam para a formação de uma identidade LGBTQIAP+, o grande temor do pai.
Ver que o refúgio de Gugu, sua avó, está em perigo é o que faz o espectador se tornar cúmplice da dupla. A atriz Teca Pereira nos brinda com uma interpretação marcante e comovente. A conexão com o neto, reforçada pelas lembranças da filha morta (mãe do menino), é impulsionada pela música “Time After Time”, sucesso de Cyndi Lauper.
A direção de Allan Deberton (Pacarrete) não tem urgência em agarrar o espectador no primeiro quadro, nem em demonstrar sagacidade em todas as passagens. Ele apenas quer contar a história no seu tempo, adornada por uma bela fotografia e com foco na (excelente) direção de atores. Deberton expande ainda mais a poesia do roteiro de André Araújo, valendo-se de uma potência imagética arrebatadora.

Feito Pipa é regional na forma, universal na essência (o que justifica ser o escolhido para representar o Brasil no Oscar) e peca apenas na sua curta duração, que não sofreria com uns minutos a mais, até mesmo para uma conclusão mais satisfatória do arco do pai de Gugu. No mais, trata-se de um libelo contra a intolerância que grassa nos tempos atuais.












