A cineasta chilena Dominga Sotomayor, que fez história há quase uma década ao se tornar a primeira mulher a vencer o cobiçado prêmio de Melhor Direção no Festival de Locarno com Tarde Para Morrer Jovem, fez sua aguardada estreia na Quinzena dos Cineastas, em Cannes, com o pungente La Perra, que integra a programação do Festival do Rio 2026. Produzido pela prestigiada RT Features, do brasileiro Rodrigo Teixeira, o longa-metragem é uma adaptação da obra homônima da escritora colombiana Pilar Quintana.
Na transposição para as telas, Sotomayor realoca a narrativa (originalmente situada na sufocante selva costeira colombiana) para a remota e varrida pelos ventos Ilha de Santa María, na costa do Chile. Essa mudança não é um mero detalhe geográfico; a ilha hostil consolida-se como um personagem onipresente, moldando o clima melancólico de um ensaio profundo sobre maternidade, perdas irrecuperáveis e o peso do silêncio.
No centro desta paisagem enclausurante está Silvia, uma mulher de meia-idade sem filhos, que leva uma existência endurecida de labuta manual e severo isolamento emocional. A interpretação de Manuela Oyarzún é um verdadeiro triunfo da contenção dramática. A atriz projeta uma inabalável aura de aceitação estoica e resiliência impenetrável, mas a adoção de uma cadelinha filhote – batizada de Yuri em uma curiosa homenagem à famosa cantora pop mexicana dos anos 1980 – acaba por rachar essa represa existencial.

A relação quase maternal que se estabelece com o animal destranca afetos há muito reprimidos. A fotografia de Simone D’Arcangelo capta essa dinâmica de forma irretocável, assumindo por vezes uma câmera rebaixada, na altura da cadela. Evitando habilmente o tom cômico de um mero “ponto de vista animal”, D’Arcangelo trata Yuri como uma persona com seu próprio arco, acompanhando com seriedade suas explorações táteis pelo território e enquadramentos que sugerem até mesmo seus entendimentos de mundo.
É precisamente nesse olhar atento ao ambiente físico que La Perra encontra a sua excelência estética. O filme oferece texturas quase palpáveis: os lentos close-ups nas algas marinhas e a conexão crua com a matéria natural constroem uma atmosfera em que as cores são tão profundas que quase se pode sentir o gosto amargo do sal no ar. As falésias vertiginosas, as marés imprevisíveis e o complexo sistema de cavernas formam um cenário deslumbrante, mas silenciosamente letal.
Como o subtexto da narrativa sugere, é um terreno perfeito para crianças pequenas explorarem sozinhas apenas se você não fizer questão de vê-las novamente, uma constatação perturbadora que serve como eixo de um ponto angustiante da trama. Nesse tenso contexto de isolamento, o ator brasileiro Selton Mello marca presença em um papel pequeno, mas dotado de uma gravidade e de uma relevância fundamentais para ancorar os desdobramentos da obra.
O roteiro, assinado em parceria por Inés Bortagaray (coautora do brilhante A Vida Invisível) e pela própria Quintana, faz escolhas cirúrgicas de adaptação. A direção exibe imensa elegância ao eliminar passagens mais gráficas do livro, como as descrições literais de um cadáver submerso ou o canibalismo maternal entre os cães. Sotomayor opta por uma abordagem rigorosamente contida e de extremo bom gosto, deixando que o público infira a fraturada psicologia interna de Silvia. No entanto, é na sua própria estrutura que o longa encontra seu principal tropeço.

Embora acerte em cheio na decisão de utilizar retornos ao passado para conectar os fantasmas de outrora com o vazio do presente – culminando em uma excruciante e dolorosa sequência de flashback na orla, que expõe a violenta raiz do trauma -, a montagem cai na armadilha de se deixar um tanto truncada. Ao saltar entre temporalidades, a fluidez orgânica da narrativa é levemente asfixiada no terço final.
Apesar dessa ligeira irregularidade rítmica e estrutural, o impacto pretendido se sobressai. La Perra pode não vir a ser a grande obra-prima definidora pela qual Sotomayor será lembrada no futuro, assemelhando-se mais a uma canção triste entoada em tom menor e propositalmente intimista. Contudo, trata-se de um longa composto com esmero visual, pontuado por cenas que funcionam como precisos golpes emocionais. É, em sua essência mais pura, um estudo de personagem reflexivo e inegavelmente humano, que continua ecoando no espectador após a sessão, tenha apreciado ou não.












