Falar sobre a temática da morte ainda é um tabu para muitas pessoas, porém a atriz Bruna Longo a transformou em algo vivo e muito instigante. Desde o ano passado, com o mais recente espetáculo ‘Queda de Baleia’, criado por ela, em que foi indicada ao Prêmio APCA 2025 na categoria de melhor atriz, Bruna ganha cada vez mais destaque ao apresentar de forma teatral a reflexão sobre o tema no cotidiano.
A inspiração para o solo, que tem a atual temporada apresentada na capela do Cemitério do Redentor, Sumaré (SP), até 25 de outubro, surgiu em um momento de profunda dor pessoal: a morte de seu pai, em 2022. “Comecei a ler muito sobre luto, os rituais de morte e funerais de diferentes culturas, buscando entender o que estava vivendo”, explica. Esse processo de reflexão e escrita, inicialmente íntimo e pessoal, encontrou eco em seus amigos, que a encorajaram a compartilhar sua experiência e sensibilidade através do teatro.
“Compartilhei alguns desses textos com eles, que me incentivaram a pensar que talvez aquele material pudesse chegar a outras pessoas através de um espetáculo. Foi assim que começou a nascer a dramaturgia de ‘Queda de Baleia’”, conta.
Bruna comenta que, embora a obra tenha na experiência da perda sua origem, não é simplesmente uma narrativa sobre a morte do próprio pai, mas uma investigação profunda sobre a morte em si e as diversas formas como as culturas lidam com ela.
“É uma investigação sobre ela, o luto e, principalmente, sobre a maneira como diferentes culturas encontram formas de lidar com aquilo que não podemos evitar. Muitas pessoas me perguntam se é difícil fazer o espetáculo, porque todas as noites eu falo do meu luto e do meu pai. Mas, para mim, aconteceu justamente o contrário. Acho que, por falar sobre o luto, sobre a dor e sobre o meu pai com tanta frequência, esse assunto foi ficando cada vez mais fácil de abordar”.
O projeto se concretizou em 2025, depois de um intenso período de pesquisa e ensaio. Cada apresentação traz à tona sentimentos complexos, e a atriz reflete sobre a gratidão que sente por poder discutir a dor e o luto publicamente, transformando o tabu em um espaço de diálogo. Durante as apresentações, o espetáculo se transforma em um ponto de encontro humano, onde pessoas compartilham suas próprias histórias de perda, criando uma conexão coletiva.
O reconhecimento de ‘Queda de Baleia’ chegou fora do país, levando a atriz à Edimburgo, onde o espetáculo conquistou plateias muito diversificadas.
“Levá-lo para Edimburgo foi uma das experiências mais gratificantes e intensas da minha vida. Era um sonho antigo e era como uma montanha a ser escalada. E saber que a gente escalou essa montanha com sucesso, com um trabalho que foi muito bem aceito pelo público e pela crítica, foi muito importante. Edimburgo é muito complicado porque são mais de quatro mil espetáculos, então existe uma competitividade muito grande por plateia, por atenção, e a gente teve uma linda plateia durante toda a temporada. A recepção das pessoas foi absolutamente fantástica”, afirma.
Para que todo esse sucesso fosse alcançado, a paulista deu atenção, além do roteiro, também à parte estética e de referências. Ela conta que embora possua normalmente muitas ideias na parte criativa, dessa vez foi diferente.
“Geralmente, eu entro na sala de ensaio com muitas referências estéticas, referências de artes plásticas, de fotografia, principalmente. Dificilmente eu levo referências teatrais ou mesmo de cinema. Não é necessariamente uma coisa que me interessa como referência para a criação. Mas, dessa vez, eu tive muita dificuldade. Demorou muito para eu entender esteticamente o que seria esse espetáculo, porque eu poderia literalmente ir para qualquer lugar”.
A opção foi olhar para a parte cultural do outro lado do planeta. “Uma das poucas referências que eu tinha muito forte eram as japonesas. Eu sou budista e tenho um interesse muito grande pelo teatro japonês clássico, pelo teatro Nô e por toda a cultura japonesa. O cenário, por exemplo, é inspirado em um jardim japonês, embora isso não seja explícito. Existem algumas outras referências que são um pouco mais escondidas. A cultura japonesa, principalmente o zen-budismo, foi uma inspiração muito forte para esse trabalho”, comenta.
A artista está se preparando para levar a peça para à Colômbia no dia 30 de outubro, onde marca uma etapa com novidades. “Vai ser a primeira vez que vamos apresentar o espetáculo em um palco italiano, e não em uma capela de cemitério. E isso é uma das coisas que mais me interessa em viajar: perceber como o espetáculo se comporta em diferentes contextos, em diferentes espaços, diante de diferentes públicos”, explica.
Enquanto ‘Queda de Baleia’ foca na morte e na cura através da acolhida do luto, ‘Criatura, uma autópsia’, concebido, dramatizado e interpretado por ela, mergulha na narrativa de ‘Frankenstein’, de Mary Shelley. A obra, que faz temporada no mês de Finados, de 2 a 30 de novembro, no espaço ºANDAR, em Higienópolis (SP), é marcada pela solidão e pela busca pela identidade da criatura, refletindo também sobre a vida e as perdas de Mary Shelley. Ambas as peças, apesar de abordarem a morte, divergem radicalmente em estética e abordagem.
“‘Criatura’ parte de uma obra preexistente, de um universo e de um tempo histórico predefinidos. Então eu estou falando de Frankenstein, falando da Europa, da Inglaterra no século XVIII. Então, é um espetáculo que vem muito de fora para dentro, e é uma produção de teatro físico, mais clássico. Ele tem texto, mas é muito mais físico. Para você ter uma ideia, a dramaturgia não chega a ter sete páginas”.
Bruna salienta que nunca teve ambição de fazer ‘Criatura’ e trabalhar a partir de Frankenstein por causa da morte, mas que o tema possa estar indiretamente entrelaçado a ela desde antes.
“O fato do espetáculo também falar sobre a morte e eu, posteriormente, vir a fazer uma peça sobre a morte são, de certa forma, coincidências. Embora, na verdade, talvez a morte sempre tenha me interessado, só que eu nunca tinha precisado olhar para ela diretamente”.
Para o futuro, Bruna planeja continuar explorando a morte de maneiras diversas, incluindo uma peça infantil sobre o tema e um projeto de teatro físico. Ela destaca que, apesar de serem peças aparentemente divergentes, o tema da morte a acompanha e a motiva em sua trajetória artística.
“Acho que o tema da morte e do luto ainda é um assunto que eu quero explorar. Tenho vontade de fazer duas coisas que já estão no meu radar e que estou elaborando aos poucos. Uma é um espetáculo infantil para falar sobre esse assunto, porque eu acho que existe uma demanda. E a outra é um espetáculo só físico, de teatro físico, de dança, também inspirado nesse tema”, finaliza.




















