A comédia “Édipo de novo?” desembarca em São Paulo para quatro apresentações na Arena B3, nos dias 10 e 11 de outubro. Indicada a três categorias do Prêmio do Humor — Melhor Espetáculo, Texto e Direção —, a montagem dirigida por Thiago Bomilcar Braga transforma uma das mais conhecidas tragédias gregas em uma comédia ágil, irreverente e permanentemente atualizada a partir dos acontecimentos do Brasil.
Como renovar o interesse por uma história escrita há cerca de 2.500 anos? Para o grupo de atores que conquistou o público carioca, a resposta está no humor e na capacidade de olhar para o presente. Em “Édipo de novo?”, a saga criada por Sófocles ganha novas piadas, referências, memes e comentários inspirados no noticiário brasileiro. O espetáculo nunca é exatamente o mesmo: a dramaturgia se mantém aberta para incorporar acontecimentos recentes — e, agora, o calor do ano eleitoral oferece ainda mais matéria-prima para a comédia.
“Estamos afoitos para as apresentações em São Paulo porque o Brasil não para de nos dar material. Eleição é um prato cheio”, revelam os artistas.

Sófocles encontra o noticiário brasileiro
Dirigida por Thiago Bomilcar Braga, a montagem parte da percepção de que a política brasileira e a tragédia grega têm muito mais em comum do que parece. Reviravoltas, decisões improváveis e acontecimentos absurdos criam o terreno ideal para transportar o mito de Édipo para o Brasil de hoje.
Assim, em meio à narrativa clássica, surgem referências ao cotidiano nacional. Édipo promete não taxar as “blusinhas importadas de Atenas”, enquanto a Esfinge pode surgir defendendo a privatização das praias ou sonhando em anexar a Groenlândia.
“É um novelão, cheio de reviravoltas, com elementos místicos, monstros, vilões e mocinhos. Até o próprio herói que seguimos, Édipo, está longe de ser bonzinho, já que carrega em si uma enorme soberba. E temos que convir que as notícias políticas do Brasil são tão trágicas ou tão cheias de reviravoltas quanto a trama grega”, comenta Thiago.
A proposta é fazer com que o público reconheça, no absurdo da história de Édipo, elementos igualmente absurdos do cotidiano. A encenação aposta na fisicalidade dos quatro atores, que criam personagens, cenários e efeitos sonoros diante da plateia.

Relembre o clássico
Na saga criada por Sófocles, antes mesmo de nascer, Édipo já carregava uma profecia terrível: mataria o próprio pai e se casaria com a própria mãe. Na tentativa de escapar do destino, sua família toma uma série de decisões questionáveis, que acabam por conduzi-lo justamente ao destino que pretendiam evitar.
Criado como príncipe de Corinto, longe da cidade em que nasceu, Édipo toma conhecimento da profecia e decide fugir daqueles que acredita serem seus pais, para protegê-los. No caminho, mata um estranho, sem imaginar que se trata de seu pai biológico. Depois, salva Tebas de uma Esfinge e se casa com a rainha Jocasta, sua mãe biológica, também sem saber.
Anos mais tarde, ao investigar uma praga que assola a cidade, Édipo descobre que o culpado que procura é ele mesmo.
Para Thiago Bomilcar Braga, o próprio exagero da história já contém uma chave para o humor.
“O exagero da tragédia já tem um ar cômico. A tragédia e a comédia são interligadas. Chico Anysio dizia que ‘a tragédia de ontem é o humor de hoje’ e Marisa Orth afirma que ‘a piada boa começa quando você descobre o furo na canoa, quando a maçaneta sai na sua mão’. Os acontecimentos no mito de Édipo são tão absurdos que não tem como ignorar o humor por trás daquela desgraceira toda.”
A formação de Mais uma Cia
Em cena estão Aline Cruz, Fabio Làura, Felipe Pêpe e Laurent Janod, quatro atores que se conheceram há uma década no curso de atuação ministrado por Thiago Bomilcar Braga, na Barra da Tijuca.
Juntos, os artistas já integraram elencos de algumas peças, participaram de saraus e leituras dramatizadas e colocaram diferentes trabalhos em cartaz. “Édipo de novo?”, porém, marca a primeira vez do quarteto reunido nessa formação.
O projeto nasceu de maneira despretensiosa e foi viabilizado por meio de financiamento coletivo, vaquinhas e recursos próprios. Sem patrocínio e também por uma escolha de linguagem, o elenco se desdobra para criar personagens, cenários e efeitos sonoros usando apenas a própria fisicalidade diante da plateia.
A sintonia construída ao longo dos anos já faz o grupo pensar na possibilidade de consolidar uma companhia.
“Continuar criando juntos é uma vontade que temos, mas ainda não decidimos oficializar um grupo. Talvez porque já somos, já que trabalhamos juntos há tantos anos. Consolidar isso com um nome e um compromisso pode estar mais perto do que imaginamos. O nosso sarau se chamou Mais um sarau, para dialogar com Édipo de novo? Quem sabe o grupo se chamaria Mais uma Cia?”, comenta Fábio Làura.
Depois de conquistar o público carioca, “Édipo de novo?” chega a São Paulo para uma curta temporada de apenas quatro apresentações, mantendo a característica que acompanha a montagem desde sua criação: a capacidade de transformar o clássico em uma conversa direta e bem-humorada com o Brasil de agora.
SERVIÇO — ÉDIPO DE NOVO?
Arena B3 – São Paulo
Datas: 10 e 11 de outubro de 2026
Horários: 14h30 e 17h
Local: Arena B3
Endereço: Praça Antônio Prado, 48 – Centro Histórico – São Paulo/SP
Ingressos: a partir de R$ 10
Classificação: 16 anos
Duração: 70 minutos
FICHA TÉCNICA
Inspirado na obra “Édipo Rei”, de Sófocles
Texto e direção: Thiago Bomilcar Braga
Assistente de direção: Fabio Làura
Elenco: Aline Cruz, Fabio Laura, Felipe Pêpe e Laurent Janod
Cenário: Aline Villa
Figurino: Fabio Làura
Iluminação: Alexandre Farias
Trilha sonora: Thiago Bomilcar Braga
Arte: Gabriel Trompowsky
Produção: Amanda Loretti e Débora Osório
Idealização: Thiago Bomilcar Braga












