Literatura

Loucas de Amor, de Gilmar Rodrigues

fidocapalabEm 1998, um dos mais famosos assassinos do país foi preso. Francisco de Assis, o Maníaco do Parque, condenado por estupro e assassinato. Ele seduzia suas vítimas, as atraía para uma clareira no meio de um parque e ali praticava seus crimes. Durante meses ele foi a atração principal dos noticiários, aparecendo em todos os telejornais. Enquanto a opinião pública o execrava pelos crimes que cometeu, um grupo de mulheres lhe enviavam cartas de amor, esperando dele uma demonstração de carinho.

Esse episódio despertou a curiosidade do roteirista da Globo Gilmar Rodrigues. Como mulheres aparentemente normais se interessam por homens perigosos, criminosos que fizeram mal justamente a outras mulheres? O jornalista passou a pesquisar outros casos de assassinos “Don Juan”, e depois de quatro anos de trabalho e mais de 100 entrevistas nasceu o livro Loucas de Amor: mulheres que amam serial killers e criminosos sexuais. O livro, lançado no último dia 17 no Rio de Janeiro, chega à São Paulo essa semana, pela Editora Ideias a Granel.

O principal objetivo do livro é responder porque essas mulheres se envolvem com criminosos, o que eles tem que as atrai. Boa parte do livro é ocupado com relatos de casos investigados por Gilmar, nas suas viagens para Itaí, onde há uma penitenciária apenas para tratar de criminosos sexuais. Também são apresentados vários “casos de amor” que envolveram o Maníaco do Parque e o famoso bandido da Luz Vermelha. Todos contados com muita simplicidade que chama a atenção do leitor. O assunto já é interessante por si só, e não é preciso muito para prender o leitor na narrativa.

Entre os capítulos há páginas em quadrinhos, um making off do trabalho do autor. Os desenhos de Fido Nesti que ilustram o livro mostram as personagens entrevistadas por Gilmar e dão uma ideia do que ele passou para escrever Loucas de Amor. Com uma certa ironia, os quadrinhos aliviam o conteúdo pesado do livro, permeado de crimes hediondos e pessoas em situação emocional deprimente.

A pesquisa de Gilmar o levou a caracterizar essas mulheres como pessoas carentes, de baixa auto-estima e que sofreram alguma espécie de abuso e abandono. Além de aspectos internos, a exposição dos criminosos pela mídia os tornam atraentes, criam nessas mulheres a fantasia de que eles podem ser curados, ou ent   ão de que realmente são inocentes. Acreditam que sua carência será saciada, pois de dentro da cadeia seu parceiro não tem como as abandonar. Deixam de lado trabalho, família e amigos para poder visitar seu companheiro na cadeia. Lá dentro são tratadas “como rainhas”, nas palavras das próprias mulheres.

Para algumas a ilusão passa, percebem que dentro de uma cela os criminosos agem de um jeito, fora de outro. Sentem vergonha do que viveram. Outras voltam a repetir o erro e se envolvem com outro presidiário. Umas continuam a amar o bandido mesmo sendo casadas, com filhos e netos. E acontece com todo tipo de mulher: pobre, analfabeta, universitária, rica, pós-graduadas.

O mais repugnante nessas mulheres é a banalização do estupro. Enquanto a sociedade condena o sexo forçado, irremediável até na opinião de outros presidiários, essas mulheres culpam as vítimas pelo crime. “Só estupro tudo bem”, diz uma mulher apaixonada pelo Luz Vermelha. O conceito sobre o que é ou não crime se mostra deturpado.

Por fim, Gilmar fala de suas entrevistas com psiquiatras, que através de análises de cartas dessas mulheres para  estupradores e assassinos traçam linhas que podem explicar esse interesse. Ainda de modo simples, passamos a entender os vários fatores que causam  tal comportamento. Loucas de Amor é um livro que se propõe a incentivar mais estudos sobre o perfil de serial killers. Há muito interesse em cima desse assunto, mas uma abordagem a partir de mulheres que se relacionam com tais pessoas justamente por serem criminosas é inédito aqui. Mais um motivo para ler Loucas de Amor.

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