Literatura

Nunca o Nome do Menino, de Estevão Azevedo

nunca o nome do meninoNo mundo da literatura, acompanhamos diversos tipos de pessoas de lugares distantes e inimagináveis, e que geralmente existem apenas na ficção. No máximo, inspiram-se em algum nome notório, uma técnica que estimula ainda mais a fantasia do leitor. Mas e se uma personagem de um livro qualquer realmente existisse? Não no sentido de ser parecido com ela, mas de ser ela mesmo? E se essa personagem descobrir que toda sua vida foi escrita, guiada por uma linha de texto? Provavelmente, a concepção de que todos são livres e donos do seu próprio destino cairia por terra.

Em Nunca o Nome do Menino, do estreante Estevão Azevedo, é realmente isso o que acontece. Publicado pela Editora Terceiro Nome, a narração é feita por uma mulher que acaba de descobrir que é personagem principal de um livro, um simples fruto da mente de um autor. Inconformada, ela quer se livrar desse laço de palavras que a mantém presa a uma história infeliz. Tentando desconcertar a trama, ela amputa o próprio dedo para arrancar as ideias de seu “algoz”, como o nomeia. Aliás, falar em nomes é errado nessa resenha, pois as personagens que realmente importam não possuem nome próprio.

Entre os capítulos que narram seu empenho em deixar para traz a vida inventada, ela relata momentos da infância e adolescência marcados pela presença do menino, seu primeiro amor. Com um texto lírico, permeado de metáforas e divagações, Estevão alterna entre o passado e o presente da personagem. Os dois tempos caminham separados por todo o livro, reunidos apenas no final em um desfecho que não pode ser previsto. A fuga do autor constante fuga das criações do autor a leva a atos drásticos, mostrando um empenho imenso em tornar seu livro o menos atraente possível.

Com parágrafos longos e frases intermináveis, a leitura de Nunca o Nome do Menino se mostra pesada de início. Porém, aqueles que não desanimarem com o estilo de Estevão logo se acostumam. Mesmo assim, é exigida atenção redobrada, pois as várias vírgulas e interrupções na narrativa podem forçar o leitor a ter que reler um parágrafo todo para poder seguir tranquilamente. O que impressiona na trama é a capacidade da história de fazer-nos continuar virando as páginas, não importando o quão complicado tudo pareça. Mas claro, aqueles acostumados a um livro pop certamente vão desgostar desse estilo.

Pode parecer cansativo, mas a leitura vale a pena. A personagem passa de objeto de trabalho à narradora e, porque não, à autora. Sua história com o menino é envolvente, uma relação que não pode ser descrita de outra forma a não ser nas palavras de Estevão. No fim, compartilha-se a angústia da personagem ao descobrir que tudo em sua vida era apenas ilusão. E percebe-se que, no lugar dela, faríamos as mesmas coisas.

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