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Cinemateca: “Rastros de Ódio”, o mais belo e ambíguo filme da dupla Ford-Wayne

Qual a primeira coisa em que você pensa quando se fala a palavra faroeste (ou “western”, para os puristas da língua inglesa): o contraste entre o céu azul e as areias do deserto? As montanhas escarpadas onde, a cada curva, a morte espreita? A grande batalha entre conquistadores e índios, brancos contra peles-vermelhas? John Wayne? Se você pensou em uma destas coisas, ou em todas elas, é porque sua mente já foi contaminada por “Rastros de Ódio”.

Mas… contaminada? Este filme não é uma obra-prima? Sim, mas uma obra-prima polêmica. Tão polêmica quanto a superprodução de teor racista “O Nascimento de uma Nação” (1915)? Quase. Porque John Ford conseguiu ser muito mais subjetivo e simbólico para apresentar os fantasmas que assombram seus personagens.

Tudo começa com um ataque de índios a uma bela cabana no meio do nada. O resultado deste ataque é um dos começos mais tristes do cinema: uma família dizimada e uma garotinha raptada. A partir daí, o tio desta garotinha, Ethan Edwards (John Wayne) promete encontrá-la e se vingar dos índios que a levaram. Nesta empreitada, ele tem a companhia apenas de Martin (Jeffrey Hunter), seu sobrinho adotivo.

O que Ethan sente, à primeira vista, é um ódio descomunal com relação aos índios. Poderia isso ser explicado pelo fato de os nativos terem dizimado o único núcleo familiar que ele tinha? Ou será que ele sentia um amor proibido e não correspondido por sua cunhada que foi morta pelos índios? Isso é caso para psicanalista do Velho Oeste, e para nós só resta observar. E é observando sem podermos fazer nada que vemos que a intenção de Ethan era resgatar a sobrinha (Natalie Wood), mas, ao vê-la habituada com a cultura indígena, ele decide que prefere matá-la a vê-la viver como índia.

Além de enfrentar seus conflitos internos, Ethan terá de lidar com a autoridade local, o capitão Samuel Clayton (Ward Bond), o líder dos índios comanches, Scar (Henry Brandon) e a nova figura feminina em sua vida: Lauren (Vera Miles). E John Ford não traz só tristeza: ele também tem uma trupe de colaboradores frequentes em papéis mais leves. Aqui, meu favorito é Mose Harper (Hank Worden), o combatente fissurado por uma cadeira de balanço.

O filme é também uma festa para seus olhos. Historicamente, os musicais foram os primeiros filmes a se converterem totalmente à nova tecnologia do Technicolor. E os outros gêneros foram ficando para trás, em especial aqueles que não recebiam uma grande verba para serem feitos, caso dos faroestes, que eram a sensação das matinês, mas os primos pobres em Hollywood. Mas não quando John Ford estava na jogada: já em posse de seus quatro(!!) Oscars de melhor diretor, Ford reuniu seus colaboradores habituais e tirou deles excelentes interpretações. Com a certeza de sucesso pela presença da dupla Ford-Wayne, o estúdio Warner Brothers resolveu inovar e filmar “Rastros de Ódio” em VistaVision, um formato de tela larga e de altíssima resolução.

Sutil na interpretação, o grandalhão John Wayne considerou Ethan Edward seu personagem favorito, a ponto de batizar um de seus filhos com o nome Ethan. O protagonista é demasiado humano, cheio de falhas e algumas virtudes. Sucesso de público, mas incompreendido pelos especialistas (não recebeu nenhuma indicação ao Oscar, coitado), “Rastros de Ódio” começou a ser cultuado pelos espertos e visionários franceses da Nouvelle Vague, e décadas depois influenciou fortemente o estilo de cineastas como Martin Scorsese, Win Wenders e Steven Spielberg. Único, provocante, dúbio e à frente do seu tempo: assim é “Rastros de Ódio”.

Dica: “Rastros de Ódio” (1956) é a atração de 14, 15 e 18 de fevereiro nas salas Cinemark

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