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Agenda

El Brasil Destituído no CCSP

Em 1625, o espanhol Félix Lope de Vega y Carpio escrevia a mais antiga representação teatral documentada sobre o Brasil, retratando a expulsão dos holandeses de Salvador pela armada luso-espanhola, que reivindicava o verdadeiro direito ao território. Agora, 401 anos depois, a peça El Brasil Destituído, com dramaturgia de Victor Nóvoa em colaboração com o elenco subverte esse texto ao expor como o imaginário colonial ainda ecoa nos modos de representação acerca do Brasil, e invisibilizam as incontáveis violências, que constituem nosso país e perduram até hoje.

O espetáculo tem sua temporada de estreia no Espaço Cênico Ademar Guerra, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), de 28 de maio a 28 de junho, com sessões de quinta a domingo, às 20h (e apresentações extras nos dias 10 e 17/6). Em cena, estão Ailton Barros, João Pedro Ribeiro, Luane Sato, Nilcéia Vicente, Rodrigo Scarpelli e Victor Mota. 

A visão espanhola de Félix Lope de Vega y Carpio sobre o episódio da invasão holandesa remonta à captura de Salvador pelos holandeses em 9 de maio de 1624 e à expulsão dos mesmos pela armada luso-espanhola menos de um ano depois, em 1º de maio de 1625, cerca de seis meses antes do autor atar os últimos nós de sua trama que mistura personagens verídicos, fictícios e alegóricos em intrigas amorosas, conchavos políticos, batalhas sangrentas e cenas de exotização e fantasia, numa peça de propaganda dos interesses coloniais espanhóis. 

Fato é que, apesar de as terras que hoje chamamos Brasil, ter sido cenário dessa narrativa colonial, não existe, ao menos documentada, nenhuma resposta da época provinda do lado de cá do Oceano Atlântico, que dê conta de um ponto de vista colonizado sobre os fatos e que questione: De quem é a terra? Quem reivindica a sua propriedade? Quem reivindica a sua posse? Quem a domina? Quem a ocupa?

O trabalho tem como objetivo desmontar esses documentos históricos e a própria máquina teatral que ajudou a fabricar a imagem do Brasil como objeto de restituição à coroa. E, ao fazer isso, se configura como uma obra que encara os processos que nos moldaram não na expectativa de superá-los, mas compreender e, quiçá, desativá-los. A obra brinca com o texto espanhol, evidenciando o truque perigoso das narrativas coloniais, com as quais lidamos até hoje. Se não há como escapar, tentamos, ao menos, interromper o fluxo discursivo de Lope de Vega, cuja dramaturgia não passa de propaganda imperial.

A proposta visual e sonora do espetáculo foge do realismo tradicional.O desenho de luz, de Matheus Brant, se utiliza de sombras e imagens projetadas com retroprojetor como recurso dramatúrgico, um outro ponto de vista, numa composição que observa de longe, atravessando os tempos A cenografia de Renan Marcondes e o figurino de Ayomi Domenica dialogam com o conceito de kitsch e de “restauração”, utilizando materiais que já carregam marcas de outros usos e revelando os bastidores da própria estrutura teatral. A direção musical de Dagoberto Feliz traz fragmentos de repertórios brasileiros — do folclórico ao radiofônico — que são ativados pelos próprios atores em cena, tratando a ideia de “brasilidade” como um campo em constante disputa.

A encenação busca lidar com os arquivos, sempre desconfiando do que afirmam, e tentando desvendar o que não está neles. A investida cênica, por meio de uma teatralidade fabular, cria zonas de questionamento a partir das seguintes perguntas: Como lidar com documentos históricos em cena? Como evidenciar as estruturas de manutenção da colonialidade na própria linguagem teatral? Como preencher os vazios das narrativas e imagens coloniais? Como ampliar o imaginário sobre o que é ser brasileiro?

Ficha Técnica

Idealização e dramaturgismo: João Pedro Ribeiro

Direção: Fernanda Raquel

Direção de produção: Leonardo Birche

Atuação: Ailton Barros, João Pedro Ribeiro, Luane Sato, Nilcéia Vicente e Rodrigo Scarpelli

Músico convidado: Victor Motta

Dramaturgia: Victor Nóvoa, com colaboração de Ailton Barros, João Pedro Ribeiro, Luane Sato, Nilcéia Vicente e Rodrigo Scarpelli, em fricção com a comédia El Brasil Restituido, de Lope de Vega

Aprendiz: Iacê Andrade

Cenografia: Renan Marcondes

Desenho de luz e projeção: Matheus Brant

Figurino: Ayomi Domenica

Direção musical: Dagoberto Feliz

Direção de movimento: Ana Paula Lopez

Cenotecnia: Matias Arce e Zé Valdir

Costura: Regina Torres e Jonhy Karlo

Assistência de produção: Giovana Carneiro e Tono Guimarães

Design: Fernanda Allucci

Fotografia: Mayra Azzi

Redes sociais: Jorge Ferreira

Assessoria de imprensa: Pombo Correio

Sinopse

El Brasil Destituído é uma subversão de El Brasil Restituido, uma comédia barroca escrita por Félix Lope de Vega y Carpio em 1625, ou a mais antiga representação documentada do Brasil em um texto dramático, ou ainda a curiosa façanha de um poeta que, sem jamais ter pisado aqui, inventou este território no teatro. O espetáculo desmonta o documento e a própria máquina teatral que ajudou a fabricar a imagem do Brasil como objeto de restituição à coroa para se questionar sobre os violentos processos coloniais que ainda hoje nos constituem. Tudo isso de um jeitinho bem brasileiro.

Serviço

El Brasil Destituído 

Temporada: 28 de maio a 28 de junho de 2026*

De quinta-feira a domingo, às 20h

*apresentações extras nos dias 10 e 17/6, quarta-feira, 20h

**nos dias 13 e 19/6 não haverá apresentações

Centro Cultural São Paulo – Espaço Cênico Ademar Guerra – Rua Vergueiro, 1000, Liberdade

Ingressos: Gratuitos, com retirada de ingresso nas bilheterias física e digital (https://ccsp.ticketmais.com.br/), um dia antes da programação, a partir das 14h 

Classificação: 14 anos

Duração: 60 minutos

Capacidade: 92 lugares

Acessibilidade: Teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

As apresentações dos dias 10 e 20/6 terão interpretação em Libras

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