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A arte de Raphael Borges: um olhar percorrendo o concreto e fragmentando o absoluto

Raphael Borges é paulista, acostumado ao concreto e à visão de um céu turvo, ofuscado pela presença de prédios de apartamentos, conjuntos comerciais e dos inúmeros outdoors vendendo de tudo um pouco em uma cidade que não dorme. É esta a imagem que carrega da São Paulo decadente em que nasceu em 1991.

Filho de uma das tantas famílias de migrantes nordestinos, fez da rotina da grande cidade o mecanismo motriz do seu olhar de encantamento sobre aquilo que quase todos ignoram: o contraditório movimento do que é estático. Suas obras, já referenciais entre os artistas gráficos e os fotógrafos brasileiros e europeus, conseguem dar uma aterrorizante sensação de movimento ao que sabemos estar parado. Sejam pessoas, prédios ou pontes. A inércia ganha formas através de seu olhar e da sua capacidade criativa.

O apreço pelo diferente, por tudo que é feio para os demais, vem da sua relação com o rap e com os filmes de terror, pelo barulho da capital paulista e seus gritos por socorro, a mesma cidade que foi palco dos seus primeiros trabalhos e da sua formação profissional e artística. Raphael é um artista capaz de analisar os símbolos e significados da arte urbana ou de pinturas clássicas e fazê-las convergir para suas criações – Macunaíma moderno engolindo referências e vomitando uma linguagem única. Suas obras são inundadas de luzes, cores e sombras e nas colagens o artista demonstra outra característica; a capacidade de desconstrução da matéria uniforme em algo que é capaz de soltar-se em fatias e reencontrar-se de maneira diversa e original quando chamada a recompor-se.

Radicado em Lisboa desde o começo deste ano e tendo contato com grandes artistas europeus, desenvolveu e aguçou a sua técnica, incluindo novos elementos ao seu cotidiano de trabalho; Reconhecido, foi o artista convidado para a edição número 01 da revista Chorume Brasil, ilustrando grandes nomes da literatura brasileira.

A crueza árida de seus traços e formas tem razões de ser na origem do artista: “meus pais são baianos, aprendi a desenhar com meu pai, que fazia bicos em construções de São Paulo, trabalhando de tudo com pinturas e quando dava ensinava a fazer caricaturas. Com o tempo, busquei outras técnicas e estudei conceitos que aplico, sem perder minhas referências”, destaca Raphael.

A sensação de parar o tempo que consegue produzir em suas obras é a mesma que sente – alegando estar “anestesiado”- enquanto está trabalhando em suas criações.

“Tentando ser mais claro, tudo que tem luz, cor e sombra me chama atenção, eu entro em um modo de dissecação e tento saber como aquilo foi feito. Talvez daí veio o desejo de fazer colagens, do ato de querer descontextualizar figuras e compor uma imagem com outra narrativa, outro objetivo. A colagem às vezes é só uma brincadeira visual sem grandes pretensões, mas às vezes me pego durante o processo aprendendo com aquela imagem que vou montando de forma inconsciente e acabo fazendo algo que me levanta alguma questão. Quando digo questão, me refiro a algo que me cativa a querer produzir algo parecido com o que fiz antes, só que evoluído, é como se o trabalho nunca tivesse fim em busca de uma resposta que não vou ter. Lembro de Charles Watson dizendo que para muitos artistas, o que os faz querer produzir é o processo de criação em si, pelo estado quase anestésico que nos encontramos quando estamos produzindo, não é tão legal, pelo menos pra mim, terminar um trabalho e ficar o admirando, o legal é começar outro e deixar que se vá o antigo.”.

Conseguindo convergir com desenvoltura entre as fotografias e colagens, Raphael Borges explica como começou sua atuação profissional e os caminhos que percorreu para chegar à Europa.

“Primeiro veio a fotografia em 2013, somente com a vontade de me tornar um fotógrafo de moda, isso foi em uma época que eu estava consumindo muita arte pop, pintura, grafitti, filmes blockbusters e cada vez sentia mais vontade de aprender sobre isso, então meus gostos foram mudando e acabei tomando outro rumo na fotografia que hoje considero mais algo documental de certa forma. A colagem veio da minha loucura de tudo que gostar querer aprender a fazer, lembro que a primeira colagem que mostrei de forma publica foi em 2014. Depois disso me atrevi a aprender modelar escultura em clay (massa) e a filmar, fui diretor de fotografia de videoclipe para bandas de pop rock e assim fui construindo meu estilo e uma voz própria dentro das artes plásticas. Já mais amadurecido, mas com ainda muito a absorver, vim para Lisboa com a ideia de me fixar por aqui, poder rodar por outras cidades e expor, como venho fazendo, meu trabalho”.

Quem desejar conhecer mais do trabalho de Raphael Borges pode seguí-lo em seu instagram: @hijodelapulga.

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Marcelo Adifa

Publicado por Marcelo Adifa

Marcelo Adifa é jornalista, roteirista e redator. Autor de Exílio (2015); A quem se fizer estrela (2016) e Saltar Vazio (2018), entre outros livros de jornalismo, poemas e romances.