Logo que acordo vejo o recado de Waldemar José Solha em um desses aplicativos de mensagens instantâneas, diz ter lido meu livro “Saltar Vazio” e manda suas impressões. Não é um leitor comum, nem sua leitura é simplista, esqueçam os “gostei”, seu relato tem sempre um forte esfarelar de suas visões. Esfarelar? Sim. É como se os ambientes frequentados pelo artista ficassem cheios de um mágico fragmento. Em mim deixa a alegria por ter gostado do livro (quando não gosta de algo, sequer comenta, sabendo disso, contento-me mais ainda), mas destaca a tristeza em ler algumas passagens em que relato dores. Ele tem as suas, filho que fez partida mais cedo para os céus dos cristãos levado por uma doença, o impacto na família. Dores que não se superam, cada qual lida com as suas de uma maneira. A arte é um mecanismo a que frequentemente recorremos.

Tudo em Solha é arte. Incrível a sua produção literária, longe do convencional e marcada pela forte influência da vida no sertão e das cores da Paraíba, o que gerou uma linguagem única, dessas que não se aprendem nos livros. Vem da observação, do saber ouvir. Solha ouviu muito. Das desgraças da terra natal, deixada para trás em 1962 para um nunca voltar além de rápidos passeios e velórios. Ouviu no ofício de negar e aprovar créditos para paraibanos em seus anos de bancário em várias cidades tomadas também de pó. Fez ouvido também no silêncio das secas e do vento anunciando mortes como poucos sertanejos souberem fazer. Seu último livro “A engenhosa tragédia de Dulcineia e Trancoso” é um grito, além do ouvir. Reparam nisso os que o conhecem, os que sabem um pouco de sua trajetória. Sem dúvidas é o melhor livro do ano até o momento.

Mas Solha não é só escrever, atividade na qual se destacou ganhando prêmios, dominando o circuito literário nos anos 70 e garantindo destaques nas décadas seguintes com uma obra finalista do Jabuti em 2006 em seu “História Universal da Angústia”, livro que lhe garantiu o Prêmio Graciliano Ramos daquele ano. Solha é ainda ator e com inúmeras participações no cinema se parece um pouco com o americano Burt Reynolds em “Boogie Nights”, com a expressão forte, barba e cabelos brancos. Faz tempo que não se parece com ninguém da sua velha cidade natal, da Sorocaba tropeira, com sina de despachar gente pelo mundo e apertar a alma dos que ficam.

Sorocaba é uma cidade que produz uma poeira fina, quase vermelha, pouco amarela. Em nada guarda semelhança com o ouro ou com qualquer propriedade preciosa, apenas está ali, nas ruas, em becos e avenidas, pairando pouco abaixo das nuvens e tomando conta dos seus habitantes. Vista de longe, do espaço, talvez, pode ser que ela forme uma redoma. Assim estaria explicado os seus habitantes trancados em um mundo a parte, um universo onde o que se conhece é apenas aquilo produzido dentro das estruturas da cidade. Mas algumas pessoas teimam romper essa barreira, ainda que carreguem, por décadas, o pó tropeiro sobre seus ombros, fazendo das suas desgraças e passos um perseguir a fuga de Sorocaba enquanto caminham. Solha bate o pó de Sorocaba em seus passos e ele insiste em continuar caindo. Já não importa. O artista é da Paraíba, é do mundo.

1941 é o ano do nascimento de Waldemar José Solha nesta cidade paulista tomada deste pó pegajoso, cheirando à miséria após o assassinato do prefeito Eugênio Salerno um tempo antes; do envio dos jovens à Grande Guerra, Sorocaba que já tinha cedido seus jovens para o Estado em 32. A cidade está em seus filhos, habitantes ou não, como uma mão violenta que teima espancar lembranças.

Diria Ferreira Gullar em seu Poema Sujo: “O homem está na cidade / como uma coisa está em outra / e a cidade está no homem / que está em outra cidade”. Em Solha a cidade é fuga, ainda que guarde presença dos seus elementos mais fortes.

Além de escritor e ator, de dramaturgo esporádico, a quem lhe surgem peças de anos em tempos (quem sabe acima destas ocupações artísticas?), Solha é artista plástico. É na explosão de cores e expressões marcantes que está o seu maior talento e que podem ser observadas em obras como “Homenagem a Shakespeare”, em exposição permanente no auditório da reitoria da Universidade Federal da Paraíba e em “A Ceia”, no Sindicato dos Bancários daquele estado. Algumas características são recorrentes em suas pinturas, o fundo escuro (seriam as lembranças, a Sorocaba deixada para trás?), o olhar lateralizado das personagens, elemento mais marcante quando os quadros trazem apenas uma pessoa em destaque. Os olhos de seus personagens se bastam. São golpes secos acusando quem os observa. Do quê? Cada qual sabe seus pecados. Sorocaba, a velha cidade tem muitos, um deles é nunca ter valorizado devidamente um artista que está entre os maiores do mundo.

Quando as obras de Solha não são beleza na escuridão são universo invertido, prática comum em suas pinturas. A vida de cabeça para baixo. Assim podem ter sido seus passos, procurando entre artes e no pó do sertão algo que lhe bastasse, que fosse além do tempo, da vida. Em Solha a arte é mágica, é aquele esfarelar que sai em letra ou tinta. É algo que não basta em vida. É de Solha uma das mais significativas produções artísticas dos últimos cem anos no Brasil.  De fato o artista não pertence à Sorocaba, nem à Paraíba. Não se faz preso a lugar algum além da terra em que caminha solto. É do mundo, como sua arte.

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