O período da Ditadura Militar brasileira deixou marcas indeléveis e por isso é tema de debates pertinentes na ficção e em documentários. Exibido dentro do terceiro dia da Mostra Competitiva do FICA 2018, o filme “Construindo Pontes”, de Heloísa Passos, aborda o delicado tema político que deixou também suas marcas ambientais com construções faraônicas. E essa discussão que permeia o documentário parte do seio familiar.

A produção foi precedida do curta de animação argentina “Corp”, que faz um infográfico explicativo e bastante irreverente de como nasce uma grande corporação. Foi seguido do aterrador “Sub Terrae”, curta experimental que mostra lixões, e “A Viagem de Ícaro”. O curta goiano de puro lirismo, que conta a história de um catador de material reciclável que sonha com aviões.

Em “Construindo Pontes”, Heloísa revira suas memórias de infância e juventude onde o pai, Álvaro, era figura de maior referência. Com o passar dos anos e diferenças irremediáveis, a convivência se torna difícil a ponto de ela se ver obrigada a abandonar a casa. Nesse filme, que se trata de uma terapia conjunta de pai e filha, ela irá lembrar dos tempos em que o pai era engenheiro que comandou obras durante o chamado “milagre” brasileiro.

O embate entre o revisionismo da filha progressista e da imobilidade de pensamento do pai conservador geram os melhores momentos do filme. Inclusive quando o debate se volta para o contexto atual.Em dado momento, surge na televisão a cobertura da prisão de Lula. Para ela, uma manobra para tirar um forte candidato às eleições de 2018 do páreo. Para ele, justiça bem feita pelo juiz Sérgio Moro.

Heloísa também é a responsável pela bela fotografia do longa, que contou com a consultoria do cineasta cearense Karïm Aïnouz (de Praia do Futuro). Além de um bem encadeado roteiro, montado a partir de horas de gravação durante o tempo que a diretora esteve com sua família, fica também uma reflexão sobre a intervenção ambiental causada pelas grandes construções, em paralelo com os danos políticos. E ela faz questão de mostrar isso ao pai, sobretudo no terço final, em que a terapia se aprofunda e se conclui na forma de um roadie movie.

Engajado, emocionante, franco, relevante, “Construindo Pontes” pode também ser interpretado em seu título como uma metáfora da reaproximação entre polos, em trocadilho com o ofício de Álvaro. Para ver e refletir muito sobre a família como um lugar de conforto e conflito.

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