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“A Guerra dos Sexos ” prima pela construção de personagem para além de seu antagonismo

Até pelo título, A Guerra dos Sexos reconstrói o embate que parou os EUA na efervescência da luta pelos direitos feministas dos anos 70. Em 1973, dois dos grandes nomes do tênis norte-americano, a habilidosa tenista Billie Jean King (Emma Stone), de 29 anos, até então com cinco vitórias em Wimbledon e militante pela equiparação dos ganhos no esporte (as mulheres ganhavam prêmios muito inferiores aos dos homens) e o titã da época, Bobby Rigs (Steve Carell), um talento mais que reconhecido e que pelos seus 55 anos já não jogava mais profissionalmente (ainda que pela sua excêntrica personalidade, continuava demonstrando sua maestria com o esporte), enfrentaram-se nas quadras para ela provar que uma mulher poderia ser melhor no esporte, sem ser subestimada.

Dirigido pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris, os mesmos que criaram a pérola Pequena Miss Sunshine, o filme tem aquela pegada meio indie que traz um charme extra, ainda mais para um filme passado nos anos 70. E registram a história real com uma certa dose de ironia ao paralelizar o machismo estabelecido da época (Rigs profere frases inacreditáveis sobre a supremacia masculina frente às mulheres) com a densidade de King na luta contra a boçalidade reinante na sociedade. Para tal, trabalharam bem sua gama de personagens.

Quem reclamou do Oscar para Emma esse ano por La La Land, vai rever seus conceitos ao se deparar com a dimensão que a atriz alcança em diferentes personagens, como aqui, onde requer muita nuance para encarar seus conflitos – que se estendem para sua sexualidade, quando vai se abrindo para a homossexualidade em cenas bem sensíveis. Carell está perfeito na alegoria que constrói para si ao viver um homem de personalidade tão alegórica. O filme tem outros bons personagens azeitados aos principais, como a empresária (Sarah Silverman) e o marido (Austin Stowell, cujo personagem e interpretação são delicadamente bem construídos) de King.

Um senão do filme pode ser creditado ao fato de que os personagens que gravitam Rigs serem menos desenvolvidos, como sua esposa mecenas (Elisabeth Shue, que está cada dia mais bonita). A grande batalha final, de ressonâncias metafóricas e objetivas ao discurso do filme, ganha proporções críveis (tecnicamente bem filmada, vale ressaltar) e, dada a expertise do casal, não cai no sentimentalismo vil de um filme americano “de mensagem”. Talvez pela atualidade da questão, A Guerra dos Sexos ganha um peso ainda maior. Mas o que os diretores oferecem é exatamente a complexidade existente do lado de fora das quadras.

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