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O sensível ‘A Golondrina’ traz um belo diálogo sobre homofobia, afeto e perdão

Em junho de 2016, um ataque terrorista homofóbico vitimou dezenas de pessoas no Bar Pulse, em Orlando (EUA), assim como outros ataques homofóbicos atingiram pessoas em Paris e nas Ramblas de Barcelona. A Golondrina, do catalão Guillem Clua, com direção de Gabriel Fontes Paiva, é uma peça inspirada nesses acontecimentos, mostrando um encontro entre dois personagens que, ao fim e ao cabo, discutem o ódio homofóbico, as perdas de pessoas queridas vítimas dessa ira e as consequências emocionais nos que ficam.

No palco, Tania Bondezan, excepcional no papel de uma professora de canto rigorosíssima, e Luciano Andrey, seu aspirante a aluno, ambos ligados à tragédia terrorista, encontram-se pela primeira vez para um ensaio e, à medida que a aula avança, outras cenas (passadas) se impõem.

Independente da questão homofóbica, crucial, o espetáculo já teria grande relevância por tratar de perdas, de como é difícil falar sobre a morte de pessoas muito próximas e muito queridas, de como se lida com isso depois, de quando se pode ou não tocar no assunto e até onde se deve ir. Sempre tememos adentrar o tema com pessoas que conhecemos, uma vez que não sabemos se falar sobre uma perda recente pode melhorar ou piorar a dor daquela pessoa. Muitas vezes tememos trazer um assunto devastador à tona, quando na verdade falar sobre uma dor gigantesca dificilmente poderá ser tão prejudicial. No espetáculo, os personagens falam sobre a morte com muita emoção e sem grandes tabus, e nesse sentido o espetáculo já seria interessante. Mas A Golondrina ganha um diferencial ainda maior por tratar diretamente da violência que atinge homossexuais de todo o mundo, independente de país, continente e cultura, independente de classe ou raça.

O texto, traduzido no diálogo entre os dois personagens, sublinha o quanto é importante que nomeemos corretamente os motivos e os tipos de crime que acontecem. Quando um assassinato em massa se dá por motivos de ódio homofóbico, por ódio a costumes e formas de vida que fogem à regra moral de uma dada sociedade ou de uma dada religião, isso precisa ser falado com clareza, sem subterfúgios e sem ignorar as causas principais, pois é nomeando corretamente que se pode combater uma cultura de ódio, em que muitos que não participaram ativamente do crime e jamais teriam coragem de praticá-lo, ainda assim, como chama atenção o personagem Ramón, se regozijam internamente com as mortes, não se sensibilizam suficientemente e, no fundo de seus pensamentos preconceituosos, acham ‘bem feito’.

Além disso, por se tratar de um massacre que visava homossexuais, há também o importante tema da aceitação da família, do quanto as pessoas que ali estavam e que foram vítimas da ira de um homem louco talvez tivessem sido mortas com muitas questões pendentes, sobretudo familiares. Os assassinatos atingem não apenas os homossexuais, mas seus familiares e amigos, as pessoas que deles dependiam, aquelas que com eles conviviam, amigos íntimos, filhos, irmãos, alunos, colegas de classe. As pessoas assassinadas são simplesmente estudantes, professores, médicos, advogados, publicitários, psicólogos, recepcionistas, motoristas, vendedores, escritores, arquitetos. O motivo de sua morte é apenas o ódio sem razão de ser.

A peça se inicia com uma referência a toda a tragédia e ao que se passou um pouco antes/um pouco depois sem que nós, espectadores, saibamos. É depois que poderemos entender certas opções de luz e cenário que abrem o espetáculo. Assim, inicialmente, temos as estantes altíssimas que compõem a sala de estar, onde há um piano e onde se dará a aula de canto, iluminadas e piscando, ao som e no ritmo contagiante de uma música, com o restante ao redor escuro. Essa é uma referência à tragédia, que se deu em um bar onde tocava uma música dançante e onde pessoas se reuniam pacificamente, pouco antes de serem mortas ou feridas pelo simples fato de serem gays. Assim, já de início temos um impacto visual que parece despertar a todos para o que vai se desenrolar, e que tem seu acento no texto, no diálogo, na história narrada através de um encontro.

Podemos observar também, nos primeiros momentos, os dois personagens pela sala onde a aula irá acontecer, agindo e se movimentando paralelamente sem a consciência da presença um do outro, como planos superpostos de cenas que aconteceram em momentos diversos e que agora são mostradas concomitantemente, o que é bem interessante se pensarmos, a posteriori, nos laços que já os uniam e no fato de que, sozinhos, naquele ambiente, têm memórias com as quais devem lidar cada um à sua maneira. Quando estamos sozinhos, agimos sem a censura que nos guia quando estamos na presença de outrem. Essas são breves cenas e imagens que, no entanto, em sua minúcia, trazem a beleza simbólica de uma dramaturgia sensível, que está se preparando pra tocar em um assunto doloroso e urgente.

A peça, de cerca de 1h30 de duração, emociona (há momentos em que escutamos inúmeras fungadas na plateia), mas tem seus lances engraçados e leves, principalmente no começo.Trata-se de uma bela peça que toca, sem didatismo, em temas importantes e que fala, acima de tudo, de amizade, afeto e perdão.

Cotação: Excelente (4 de 5 estrelas)

Ficha Técnica

Autor: Guillem Clua
Tradução: Tania Bondezan
Direção: Gabriel Fontes Paiva
Elenco: Tania Bondezan e Luciano Andrey
Cenógrafo e figurinista: Fabio Namatame
Assistente de direção: Ana Paula Lopez
Desenho de luz: André Prado e Gabriel Fontes Paiva
Trilha Sonora: Luisa Maita
Preparação Vocal: Jonatan Harold
Montagem/Direção de Cena/Contrarregra: Tadeu Tosta
Produção: Ronaldo Diaféria, Odilon Wagner e Tania Bondezan
Produção executiva: Marcos Rinaldi
Assessoria de imprensa: Ney Motta

Serviço

A Golondrina
Autor: Guillem Clua
Tradução: Tania Bondezan
Direção: Gabriel Fontes Paiva
Elenco: Tania Bondezan e Luciano Andrey
Teatro Sesc Ginástico
Endereço: Av. Graça Aranha, 187, Centro, Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 2279-4027
Temporada: 16 de janeiro a 16 de fevereiro de 2020.
Quintas, sextas e sábados, às 19h, e domingos, às 17h.
Ingressos: R$ 30 (inteira), R$15 (meia-entrada) e R$ 7,50 (habilitado Sesc)
Doação de 1kg de alimento garante 50% de desconto em todas as categorias.
Capacidade: 500 lugares
Duração: 90 minutos
Classificação: 14 anos

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