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Romance "Vista parcial do Tejo" narra pelo foco do deslocamento do objeto

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Ao leitor, não só dos livros, menciono uma sutil relação entre existir e gostar. A existência em si é feita de afetos puro e simples? Basta estarmos com o corpo, este artefato do gostar do outro sem qualquer tipo de movimento ao fora, ao entorno. Ou gostar parte de uma complexa gama de experiências ligadas aos nossos sentidos? Aos nossos movimentos pendulares da perna, dos braços, do gestual do sexo, esta força tectônica. Olhar não seria apenas ver o outros, na sua provável beleza fisionômica. Mas sim captar os movimentos do globo ocular, o delgado piscar dos cílios feito como uma dança poética. Daí, viriam as relações mediadas ora por amizade, por profissionalismo, ou por amor e desejo.
Lendo o livro Vista parcial do Tejo do escritor Rafael Oliveira Fernandes, pela editora Patuá, percebe-se o quão a relação existe também num processo de desejo literário onde o autor medeia o inanimado da tela ou lauda, e estabelece uma ordem fabular, tanto prioritária ou não, de uma visão ou melhor dizendo, de uma saudade estabelecida pelos seus afetos, pois a escrita são afecções mediadas pela linguagem. No seu construto há tanta relações entre personagens quanto mediações entre focos & vistas entre o narrador, seu enredo que fabula e o próprio leitor. Mas como estabelecer relações de alteridade com seu próprio texto sem passar pelo processo de juízo, de valor: se é bom ou não? Sem média ideologia. Talvez, estabelecendo no próprio veio narrativo um olhar descuidado, em não proferir contendas ou julgamentos.
O narrador do Rafael é um escritor que perde sua irmã Gabriela. Sua vista é tanto objetiva quanto afecta de afeição pelo o que se gosta. Mas antes do questionamento do porquê perdeu sua irmã, ele rascunha o entorno não só sua irmã, mas colegas de escola, sua melhor amiga Naiara. No livro do autor uma história, é um belo caleidoscópio de cenas ou vidas que não são rasas ou rasteiras como quer um certo padrão ideológico. O olhar do narrador capta instantes de vida de mendigos, que flutuam ao olhar denunciador do rifle da opinião alheia.
Toda cronologia do livro está baseada na incapacidade de julgar um ato, uma história, pois postar um olhar no outro está sempre atrasado um segundo a definir o que é alguém ou o que faz. Toda cena de relação familiar como Naiara e seu pai, o narrador e a irmã está interditada pois qual é a cronologia dos fatos. O que são a soma dos instantes de uma pessoa. Há certa hora, o narrador viaja com a irmã Gabriela para Portugal.
Eles querem um lugar que não seja tão turístico. Um garoto os leva ao bairro Alfama, num lugar cheio de prédios, juntos, algo como um local sem muita visão periférica. Eles estão dentro de um apartamento, e a irmã abre a janela, e avista o rio Tejo. Ali naquele trecho de cimento e concreto, uma vista parcial do Tejo, em seu movimento, em sua ondulação de ritmos e correntes.

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