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"Operação Red Sparrow" não aproveita todo o potencial de Jennifer Lawrence

No cinema, parece existir uma regra não escrita e, automaticamente, implícita, de que todo o artista que conquista algo muito cedo, que muitos levam a vida inteira para obter e nunca conseguem, precisa provar de que não foi sorte de iniciante. Que dá para avançar de fase sem maiores problemas e que ele/ela é capaz, sim, de realizar algo fora de sua zona de conforto e obter um resultado que vai agradar a todos.
A mais recente a passar por isso é Jennifer Lawrence, que depois de ganhar um Oscar, ser indicada mais três vezes, protagonizar uma série cinematográfica de sucesso mundial (“Jogos Vorazes”) e conquistar fãs e detratores no planeta, resolveu assumir projetos bem mais ousados como o polêmico (e muito bom “Mãe!”) e este “Operação Red Sparrow” (“Red Sparrow”, 2018), que vende a ideia de que ela se apresenta de um jeito jamais visto até então. O problema é que isso é apenas parcialmente verdade, pois o filme nunca cumpre com o prometido. É tímido em sua ousadia e desperdiça a chance de fazer com que sua estrela realize um trabalho mais memorável do que os que a consagraram não faz muito tempo.
Na trama, Lawrence vive Dominika Egorova, uma talentosa bailarina do Bolshoi que, após um grave acidente, é forçada a deixar o balé e recebe uma proposta de seu tio, Vanya Egorov (Matthias Schoenaerts), de fazer parte da inteligência russa para que, assim, ela não perca os benefícios que o governo oferece, como o tratamento de sua mãe, Nina (Joely Richardson). Para isso, Dominika é submetida a um treinamento liderado pela severa Matron (Charlotte Rampling) para se tornar uma Sparrow, uma espiã que usa a sedução para conseguir seus objetivos. Após passar por várias tarefas que testam seu corpo e sua mente, ela é enviada a uma missão para descobrir os reais interesses de Nate Nash (Joel Edgerton), um agente da CIA que pode ter informações importantes para a Rússia. Os dois acabam se envolvendo romanticamente, o que pode causar sérios problemas para suas vidas e para os que o cercam, num jogo perigoso para ambos os lados.
Se há um mérito em “Operação Red Sparrow”, ele está em sua vontade de emular os filmes de espionagem à moda antiga, como os protagonizados por Michael Caine e seu Harry Palmer na década de 1960, mesmo tendo sua trama ambientada nos dias atuais, com um andamento bem mais lento do que produções atuais, como “Atômica”, o que vai deixar satisfeitos os fãs do gênero. A fotografia dessaturada de Jo Willems ajuda a dar o clima soturno da história, assim como a montagem de Alan Edward Bell, que se destaca já nos primeiros minutos do filme, ao mostrar a protagonista dançando balé (numa ótima trucagem que convence que a atriz principal sabe dançar como bailarina clássica, substituída por uma dublê), traçando um paralelo entre os dois protagonistas e cujo desfecho realmente impressiona.
Só que o filme apresenta algumas falhas que deixam o resultado final bastante irregular. A começar pela direção de Francis Lawrence, que já trabalhou com a protagonista nos três últimos episódios da franquia “Jogos Vorazes”. O cineasta cria momentos de bastante tensão, especialmente os mais violentos. Mas não consegue dar o ritmo adequado a outras, mais “cerebrais”, tornando-as arrastadas demais e desinteressantes. Outro problema é que Lawrence não consegue fazer seus atores que interpretam personagens russos manterem o sotaque durante suas falas. Assim, mesmo quem não é especialista em línguas, vai notar facilmente que Jennifer Lawrence, por exemplo, começa uma frase forçando os “erres” e terminando sem se importar com isso. Ele deveria ser mais atento e não deixar esse furo passar.

Além disso, o roteiro escrito por Justin Haythe faz com que o recrutamento e treinamento de Dominika lembre bastante o mostrado em “Nikita – Criada Para Matar”, de Luc Besson, e cria situações implausíveis, como a confiança acima de qualquer suspeita adquirida entre dois personagens que acabaram de se conhecer, ou o fato de que a grande revelação da trama é completamente esvaziada e não causa nenhuma surpresa. Isso sem falar no excesso de novos fatos que vão surgindo, deixando a história girando em círculos sem jamais ser objetiva. Mas a grande decepção está no fato de que o romance entre Dominika e Nate nunca soa convincente e parece ter sido feito às pressas, mesmo com os esforços dos atores para tornar crível a relação entre os dois.
O tão propagado erotismo do filme é outro problema. Os realizadores não entendem que não basta simplesmente tirar a roupa de sua estrela para aumentar a temperatura de suas cenas. É preciso criar um clima para que o público tenha alguma excitação. Por isso, as cenas de nudez e sexo do filme nunca parecem transgressoras, ousadas ou sedutoras. Valem como curiosidade para quem quer ver os corpos de seus atores (especialmente Jennifer Lawrence), mas nada além disso. Um diretor como Paul Verhoeven (“RoboCop”, “Instinto Selvagem”) faria um trabalho bem mais cativante com essa proposta.

Com tudo isso, pode-se dizer que, pelo menos, o elenco nunca deixa a peteca cair. Jennifer Lawrence volta a usar seu carisma e seu talento nato para tornar Dominika uma personagem multifacetada, que sabe que se meteu numa grande enrascada e que precisa fazer o necessário para sobreviver. A atriz impressiona com a mudança de expressões faciais de um momento para o outro, até mesmo numa cena só, em que reforça a ambivalência de sua personagem, além de encarar bem momentos mais complicados, como os que precisa contracenar nua. Só peca mesmo na questão do sotaque, como já foi escrito aqui anteriormente. Joel Edgerton surpreende e mostra que pode convencer como protagonista heroico e (por que não?) romântico, indo além dos tipos rústicos que costuma fazer.
Entre os coadjuvantes, vale destacar Charlotte Rampling, com sua frieza e magnetismo que ela constrói para a sua Matron e dá vontade de ver mais dela em cena. O belga Matthias Schoenaerts não se sai mal como o ambíguo Vanya e seu cinismo soa convincente boa parte do tempo. Já Jeremy Irons, como o General Korchnoi, e Joely Richardson como Nina, mãe da protagonista, não são muito aproveitados, o que se reflete em suas atuações apenas corretas. Mary-Louise Parker (de “Tomates Verdes Fritos” e da série “Weeds”) usa alguns de seus já conhecidos recursos para fazer mais uma personagem que parece à beira de um ataque de nervos e protagoniza um dos momentos mais tensos do filme, que só não é melhor porque seu desfecho é mais do que esperado.
No fim das contas, “Operação Red Sparrow” é apenas um passatempo pouco marcante e facilmente esquecível, que desperdiça a chance de fazer algo mais memorável, especialmente para sua estrela, Jennifer Lawrence. Pode até agradar aos fãs da atriz, mas não os admiradores desavisados de “Jogos Vorazes”, já que não possui nenhum elemento (além da estrela e de seu diretor) em comum com a saga de Katniss Everdeen. Baseado numa série de livros escrita por Jason Matthews, pode até ser que a produção seja a primeira de uma série. O jeito é torcer para que os próximos capítulos (se forem feitos) sejam mais interessantes e mais “calientes” do que este aqui. Talvez aí, sim, veremos algo mais ousado da vencedora do Oscar.

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