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Veep termina seu mandato mordaz como sempre

No ano de 2012, quando o mundo era mais simples e menos caótico, uma série de sátira política estreou na HBO. Veep, protagonizada pela excelente Julia Louis-Dreyfus e baseada na série britânica The Thick of It, chegou de mansinho e aos poucos escancarou as contradições e hipocrisias do mundo político, e passou a competir com uma realidade cada vez mais absurda.
Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus) começa a série como vice-presidente dos Estados Unidos – daí o nome “veep”, de VP, vice-presidente. Selina está assessorada por um time nem sempre eficaz, do qual fazem parte o assistente pessoal Gary Walsh (Tony Hale), a chefe de gabinete Amy Brookheimer (Anna Chlumsky), o diretor de comunicações Mike McLintock (Matt Walsh) e muitos outros.

Assistindo a Veep, percebemos que não há nada de nobre ou digno na política – e que os interesses do povo estão sempre em último lugar. Começando pela falta de diálogo entre políticos que deveriam ser aliados, – a vice-presidente Selina jamais recebe ligações do presidente, que nunca é visto na série – passando pelas alianças criadas por puro interesse e terminando nas decisões estratégicas que nada têm a ver com a vontade do povo ou com a posição pessoal do político – mas sim com o tamanho da vantagem que cada decisão irá trazer. Além disso, Selina e os outros políticos conhecem a ignorância dos eleitores e brincam com ela – inclusive mostrando, quando conveniente, o racismo e a misoginia que eles próprios têm internalizado. Em Veep e na vida real, é preciso ser um pouco sociopata para entrar na política.
Veep reforça o discurso que dá vida à pós-política e ao mesmo tempo destrói qualquer opção para ela. Explicamos: sendo a pós-política um movimento caracterizado por um sentimento de impotência em relação à velha política, Veep reforça-o porque mostra os jogos de influência e trocas de favores da velha política, mas ao mesmo tempo destrói a narrativa de que pessoas de fora, “que não são políticos profissionais”, podem solucionar os problemas da velha política: isso é impossível, porque a política os corrompe e os engole, e logo eles estão tão corruptos quanto os velhos políticos. Jonah Ryan (Timothy Simmons) é o exemplo perfeito disso na série.

Apesar de Veep nunca usar nomes de políticos reais e jamais revelar qual o partido de Selina, muitos momentos da série poderiam ter sido retirados de situações reais no governo norte-americano ou mesmo no brasileiro. Nesta última temporada, por exemplo, durante um discurso, um candidato acusa o ensino de matemática de ter caráter doutrinador porque a matemática foi desenvolvida pelos islâmicos.
Não há dúvidas de que a força motriz de Veep está em Julia Louis-Dreyfus. A atriz ganhou seis Emmys consecutivos de Melhor Atriz em Série de Comédia, um recorde, e é forte candidata para o sétimo. Tudo na construção de Selina é perfeito: desde as roupas justas, que são uma metáfora para alguém que está sempre “no aperto” no mundo da política, até os detalhes que dão a ela um pouco de humanidade – algo que não dura muito. Curada de um câncer de mama que atrasou a gravação da sétima temporada, Julia Louis-Dreyfus voltou tão boa como sempre, e provou que nasceu para interpretar Selina, com todas as suas falhas e contradições.

Mas Selina não seria nada sem seu time. Sem dúvida o destaque do time – inclusive no episódio final da série – é Gary, interpretado por Tony Hale, que ganhou dois Emmys de Melhor Ator Coadjuvante em Série de Comédia pelo papel. Além dele, precisamos destacar a competência por vezes diabólica e robótica dos estrategistas Ben Cafferty (Kevin Dunn) e Kent Davison (Gary Cole), além da ingenuidade divertida de Richard Splett (Sam Richardson). E não poderíamos deixar de citar a filha de Selina, Catherine (Sarah Sutherland), lutando sempre por uma aprovação materna que não vem.
Veep começou morna, foi crescendo, atingiu seu ápice entre a quarta e quinta temporadas, mas fechou seu mandato na HBO com um episódio final brilhante, verdadeiro, que não restaurou de maneira alguma nossa fé na democracia, mas sim mostrou a política como ela é. Depois de sete temporadas, Veep sai da TV para entrar para a história como uma das melhores – quiçá a melhor – comédias da década.

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