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“Águas Rasas” cria bom suspense, mas quase morre na praia

Realizar um bom filme de suspense ambientado no mar (ou à beira dele) é uma tarefa complicada. Ainda mais quando já foi lançado, há mais de 40 anos, aquele que se tornou um verdadeiro clássico do cinema que jamais foi superado: “Tubarão”, de Steven Spielberg, que não só foi o primeiro filme que instituiu o verão americano como a temporada oficial para lançamentos de grandes blockbusters, como também instituiu as “regras básicas” para este tipo de produção, que foram copiadas incessantemente por muito tempo por pessoas bem menos talentosas que Spielberg.

"Águas Rasas" cria bom suspense, mas quase morre na praia | Críticas | Revista AmbrosiaMas, de vez em quando, surge um filme que tenta aproveitar alguns dos melhores elementos de “Tubarão” para criar algo que, se não chega nem aos pés do clássico, pelo menos consegue sair do trivial e consegue desenvolver bem a tensão. Um exemplo disso foi Mar Aberto, lançado em 2003, que mostrava um casal de férias que é abandonado no meio do oceano por engano durante um passeio e tem que enfrentar tubarões que infestam a região.

Com uma proposta semelhante, chega aos cinemas, 13 anos depois, “Águas Rasas” (“The Shallows”, 2016), uma produção que procura dar bons sustos e vai bem em boa parte do tempo, mas que se perde um pouco por causa de alguns momentos que desandam pelas soluções que beiram o surrealismo.

Aguas_Rasas_foto2A trama é centrada em Nancy Adams (Blake Lively), uma jovem que decide ir ao México para conhecer uma praia paradisíaca e praticamente deserta, que poucos tiveram a oportunidade de visitar, em homenagem a sua falecida mãe. Chegando lá, ela passa o dia surfando até ficar totalmente sozinha. O que Nancy não contava é que, a 200 metros da areia, há uma região que é usada por um gigantesco tubarão branco para se alimentar. Sem poder contar com ninguém para ajudá-la, Nancy precisará contar com sua força de vontade, coragem e até criatividade para sobreviver da fúria de um perigoso assassino dos mares.

Aguas_Rasas_foto5O que torna “Águas Rasas” minimamente interessante é o clima sufocante desenvolvido com a solidão e o abandono que a protagonista tem que lidar, num lugar que acabou de conhecer e que, embora a salvação não esteja muito longe, se torna cada vez mais difícil de alcançar, não só pela ameaça do tubarão, mas também pelas privações que começam a surgir à medida que as horas passam, como dor, frio, fome e outros problemas.

O diretor Jaume Collet-Serra (de “A Casa de Cera”, “Desconhecido” e “Sem Escalas”) desenvolve bem o suspense, utilizando alguns dos mesmos recursos que Spielberg orquestrou com maestria em 1975: o tubarão aparece pouco, mas sua presença é sentida através de câmera subjetiva, vultos e, quando ataca, o faz de maneira rápida e feroz, que fará muita gente realmente pular da cadeira. É claro que o cineasta espanhol também se vale de computação gráfica para mostrar o bicho mais de perto em alguns momentos, embora o resultado soe um pouco artificial. Mas, mesmo assim, o resultado é eficiente.

Aguas_Rasas_foto3O grande problema do filme, no entanto, está mesmo em seu roteiro, assinado por Anthony Jaswinski, já que ele peca em criar soluções melhores para desenvolver a história. O texto, simplesmente, coloca Nancy em diversa situações de perigo e as soluciona de maneira falsa e implausível, deixando o espectador cada vez mais descrente com o que é mostrado na tela.

Em alguns momentos, parece que o filme vira uma versão praiana de um episódio de “Profissão Perigo”, que transforma Nancy numa espécie de irmã do MacGyver já que ela, mesmo ferida e com quase nenhum acessório, encontra formas quase mágicas para se safar das adversidades. O filme também tem erros de continuidade gigantescos que ficam facilmente percebidos.

Para piorar, o terço final de “Águas Rasas” investe no surrealismo para ficar mais espetacular e joga fora a boa proposta apresentada até então, o que é uma pena, já que, ao invés de sentir medo, com certeza vai ter gente rindo nas sessões de cinema.

Aguas_Rasas_foto6O filme também poderia ficar pior se tivesse escolhido a atriz errada para viver a protagonista. Felizmente, Blake Lively mostra que tem talento, já que precisa conduzir a trama praticamente sozinha durante boa parte do tempo. O curioso é que o desafio que ela teve que enfrentar é semelhante ao que o marido dela na vida real, o ator Ryan Reynolds, também passou ao estrelar o thriller “Enterrado Vivo”, em 2010.

Em “Águas Rasas” Lively transmite bem os sentimentos de medo, desespero e até indignação por estar naquela situação, o que faz com que o público realmente se importe com ela e torça para que ela consiga sobreviver. O restante do (pequeno) elenco não se destaca, já que a ideia é realmente focar apenas em sua protagonista.

Aguas_Rasas_foto4Com uma das mais belas fotografias vistas em um filme em 2016, “Águas Rasas” não chega aos pés (ou seria barbatanas?) de “Tubarão”, mas não chega a ser totalmente desprezível. A produção cumpre seu objetivo de dar bons sustos, mas não consegue ir mais além do que isso. No fim das contas, vai certamente alegrar aos fãs do gênero. Mas fica como mero passatempo marítimo. Dá para curtir, porém não deve deixar ninguém com medo de entrar na água, como Spielberg fez ao mostrar os estragos causados por um peixe muito grande numa cidade de veraneio há mais de 40 anos…

Aguas_Rasas_miniposterFilme: Águas Rasas (The Shallows)
Direção: Jaume Collet-Serra
Elenco: Blake Lively, Brett Cullen, Sedona Legge, Óscar Jaenada
Gênero: Terror, Suspense
País: EUA
Ano de produção: 2016
Distribuidora: Sony Pictures
Duração: 1h 26 min
Classificação: 14 anos

 

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