Ela que já foi regra volta como escolha ousada: a fotografia em preto e branco. Antes óbvia como maneira de segurar os gastos, hoje gimmick, aquele truque que acrescenta algo a um filme. Tomemos como exemplo dois filmes recentes, também ganhadores do Oscar de Melhor Fotografia: “Roma” (2018), de Alfonso Cuarón, e “Mank” (2020), de David Fincher. Mais que tudo, essas películas se destacam pela fotografia em preto e branco. É também o caso com “Cinco da Tarde”, um filme que se arrasta como a dor de perder um ente querido.
Estamos na época da pandemia de COVID-19. Tempos mais cinzentos. Anabel (Bárbara Luz) está reticente em entrar no apartamento que dividia com a avó, por isso toca a campainha em outro apartamento, o de Meiko (Sharon Cho), que a recebe super bem, apesar de ficar sem jeito conversando amenidades. Na floricultura de Meiko, a avó de Anabel sempre comprava tulipas brancas, que segundo ela traziam felicidade. Talvez na interação das duas Anabel volte a conhecer o significado dessa palavra: felicidade.
Anabel diz que a avó se mudou para aquele prédio porque antes ali se localizava um cinema que ela gostava de frequentar com o marido. Mudou-se por nostalgia, uma nostalgia que a neta não consegue entender. Mas quem já amou cinemas de rua entende. Eles estão se tornando raridade, engolidos por cadeias de cinemas de shoppings.

Quando Anabel diz, para um comentário de Meiko, que é “seu jeito japonês de pensar”, a garota fica irritada. Sem demonstrar muito, diz que sua mãe é japonesa, seu pai é coreano e devem existir milhões de jeitos japoneses de pensar – talvez um para cada japonês. Um comentário simples demonstra um estereótipo, mesmo que de fato haja traços culturais e de pensamento diferentes entre orientais e ocidentais. Mas generalizar é outra coisa. Como aqui, lá também cada pessoa é diferente.
Você sabe o que é queerbait? Pode ser resumido por este comentário, o mais curtido na página do filme “Cinco da Tarde” no Letterboxd: “fiquei o filme todo me perguntando se elas iam se beijar e ainda não tenho a resposta”. A química que já ficava aparente para o público é exacerbada pelo discurso da mãe de Meiko, que horas após a filha conhecer Anabel diz que ela é especial para a menina, e por ela sente um tipo de amor, mas não sabe que tipo exatamente. Mas aqui a atração parece estar mais na cabeça do público, pois o que vemos na tela são duas jovens mulheres fragilizadas pela perda cuidando uma da outra.
O chamamento sem resposta representa um dos sintomas mais doloridos do luto: a ausência. Acostumar-se com o “não estar lá” leva tempo, que é diferente para cada pessoa. “Cada um de nós sabe como é”, diz a mãe de Meiko. Por isso não existe certo ou errado no luto. Mas existem graus de dificuldade, e com certeza a morte ficou mais difícil de lidar com a pandemia: caixões lacrados, velórios com duração diminuída, sem a possibilidade de chorar em um ombro amigo por causa do distanciamento social. Passamos, todos, por uma barra pesadíssima. Mas seguimos em frente.

A avó de Anabel dizia que os sinos da igreja deveriam tocar não às seis da tarde, mas às cinco, quando a luz é mais bonita – não importa o horário da missa. Essa anedota dá título ao filme e mostra que são conversas assim que se tornam histórias e memórias quando uma pessoa se vai. E contar essas histórias é uma maneira de mantê-las vivas.








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